terça-feira, 20 de outubro de 2009

Sem título sobre uma dor avulsa

ou Distantes diálogos intertextuais machadianos.


Tô no pique. Carente de televisionismos eruditistas. Vinho, fossa standard, ou um bom livro, um bom par de olhos, que me digam as mais cegas besteiras, em uma ciclista noite. Me falta, e essa falta é tudo.

Ando no pique. Ali lanhado, sofrido, mexido, fingido. Sofrendo de tanto rir, num desespero chorado, um desespero afogado, acobertado, um veludo seco empoeirado, um riso gritado, de uma secura vocal. Me falta, e essa falta é tudo.

Danço no pique. Preciso de amores, de flores, de um amor-chocolate. Preciso me sentir vivo, de lábios que me labirintem, de cheiros que me pintem a alma, de uma alma que me morra o estresse. Me falta, e essa falta é tudo.

Vivo no pique. Nessas horas magras, ou gordas e insensatas, de tanta amarela sensatez, nesses momentos lúcidos. Nesses fracos frascos que sangüíneos explodem, agulhando o alvo, cândido inferno. Mas me falta, e essa falta é tudo.

Pique, esse fim de semana que nunca chega. Essa história recém-abortada, esperançosa de desfibrilamentos, esse pensar no que não-há-de-ser-ousado, esse sacro, que é um saco! Eu perco o fundo, flutuo um nada, ausência surda que me ensurdece as fibras. Porque me falta, você me falta, os momentos estão aí, mas você me escapa. Me falta você, me falta o ar, me falta a vergonha. Me falta!
E essa falta é tudo.

sábado, 17 de outubro de 2009

Dei pra maldizer o nosso lar.
Música psicológica, meu player arueirava.
O hospital é um lugar eterno, paciente, pacientes esperavam a morte, ou pretendiam a vida.
É a volta do cipó de arueira no lombo de quem mandou dar!
Música psicológica, meu player passava o tempo.
Meu, foda-se, música é psicologia, sempre acho-achei, pronto-ferrou.
Mas batidas perfeitas e outros aristotelismos à parte, lá estava, pacientando, paz e então, eu.
Enquanto eu falo besteira nego vai se matando.
-Boa tarde, você gostaria de um bocado de luz?
-Gostaria.
-Então toma! Um pouco de luz nessa vida.
-Eu disse que gostaria, não que queria.
Um clima Kubrick, muzak, devia ser a Eldorado.
-Eu quero aquele relógio.
-Você quer o relógio ou as horas dele?
-Às horas só o grande tem acesso. Quero na verdade seus ponteiros, para apontar compromissos.
-Você quer o relógio ou os ponteiros dele?
-Quero mesmo os ponteiros.
Tudo muito branco e futurista, como se passasse num futuro alvo.
-Algo mais?
-Você tem dono?
-Sim.
-Você é escrava do seu dono?
-Sim.
-Desculpa, não sabia que você era feliz.
-Que bom que o senhor fez essa pergunta, já estava a me sentir constrangida.
A história não passa de história, por isso ninguém liga.
-Eu quero falar mais com você.
-Eu também quero.
-Adeus.
-Volte sempre.
Partido sempre será uma organização mal-sucedida. As coisas são partidas quando não funcionam, amigo.
As ruas não tinham música.
Mas o meu player toca sons psicológicos e eu sou feliz por ficar brisando aqui, escrevendo o que me dá, porque aquele meu leitor hipotético vai chegar e dizer que "deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar".
O rei chegou, e atrás dele o povo inteiro.
-Oh!
Às vezes saía um sentimento.
Voltou ao hospital que vendia compromissos.
-Desculpa! Não preciso mais disso, vou morrer de gripe agora.
-Foi um prazer negociar contigo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Vidros.
Muitos.
Não sei quem tem tanta coragem assim.
E se não era vidro era acrílico. 
Mas olhou e atrás de um tinha uma igreja.
Desceu, como era seu costume descer. Um, dois degraus, o terceiro chama-se chão.
Eram passos apressados, dança do receio. O zunido das homens era um aplauso. O sol cozinhava mendigos quase escalpelados, quase pelados, um de cada lado.
Eram os guardiões da igreja.
A porta é irracionalmente grande. Se a igreja tem tantos segredos, tantas riquezas, porque deixá-la tão vulnerável?
Bateu três, cinco vezes. Como ninguém atendesse, empurrou-a. A porta cedeu a um bem cru estímulo. A igreja não tem porteiro, o único que tinha foi crucificado há dois mil anos.
Mas aquela igreja estava fechada. Ela só abre na hora da missa, que é pra evitar gente dentro.
Deu passos desapressados, dança da insegurança. Não havia mais zunidos, só espadas de luz vindas das clarabóias. Não tinha barulho de correntes, nem de torneira pingando.
Um tanto de coragem, disse, mais ou menos baixo:
-Tem alguém aqui?
Nenhum retorno, mas quis a certeza. Dessa vez praticamente gritou.
-Tem alguém aqui, Cristo?
Mas a única coisa que ouviu foi os fantasmas de sua voz.
Então, assoviando o Hino Nacional, calmo como um psicopata que se prepara para dinamitar a Casa do Senhor, roubou o espaço que era das poeiras.
Escolheu um canto mais ou menos invicto, um atrás do órgão, que era pra não ser visto durante a operação. Mas tanto fazia. Em uma hora ninguém além dele quis rezar.
Pouco a pouco ia esvaziando a sua mochila, trocando peças, ligando coisas, conectando fios, tendo orgasmos só de pensar.
Tudo certo, mochilou-se e a passos tortos voltou ao zunido dos homens, àquele Sol que não tinha data.
Do lado de fora, escolheu um ônibus.
Acomodou-se como se acomodam os paulistanos.
Sentado, às vezes lembrava, às vezes pensava nos vidros, que eram caros, e muitos, ou pensava nos acrílicos.
Mas a noite ia ser boa.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Não lembro da Lua, mas ela se fez desnecessária.
De repente eu já estava na sua boca e não havia nada, uretrite ou simpatia, que me tirasse de lá. Só um esboço de preocupação e a gente trocou de passeio (sabem como é o espetáculo e, além do mais, sei do desconforto d'algos). Então sentamos ali, numa mureta, perto das batatas, e de repente eu senti que já não teria como. Minhas mãos eram as suas, meu riso a sua boca, minha atenção seus olhos, e eu simplesmente metamorfoseara em si. Seguimos de volta até o passeio inicial, e não havia nada de extremamente horrível que me espantasse ali, nem um possível grilhão, nenhuma possível barbárie (press the fuck up! button). A minha sorte era o seu bom-senso, que o meu ficara esperando o Ed passar, enqüanto todo o resto se hiptnotizara consigo. Ele foi embora, e me levou junto. De repente os ponteiros pararam. Então eu ergui a cabeça, e pensei comigo "e agora?"
Amar é uma bosta.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Canção de um sujeito tal #1

Olha. Eu.
Vá, pomba. Oh não. Perdi? Doce-Amargo. É? Podia. Deus existe? Engenho.
Engenho mas tímido.

E então eu não consegui falar. É uma quase-humilhação, e ele podia ajudar. Olhava, e então estávamos bem, mas tudo é muito difícil, né? Somos coitados, o sistema não ajuda etc, mas eu só queria te saber, e você não cooperava. Eu nem sei se você é da fraternidade, mas mesmo se não fosse, aí está toda a simbologia e os anjos para nos guiar.

Não. Trabalha. Mas? Podia. Engenho...
Mas tímido.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A Moça Sem Nome.

Ela não tinha nome.
Parece estranho, mas não tinha nome.
- Boa tarde, querida. Como você se chama?
- Ah! Eu não tenho nome.
E ficava um clima bem chato.
- Como assim "não tenho nome"?
Às vezes tenso. Ela sempre trazia seu RG consigo, já que ninguém acreditava.
A secretária analisa o RG e lamenta.
- Desculpa! Aqui nós só trabalhamos com pessoas de nome. Tenha um bom dia.
Saía das agências de emprego com aquele ar inevitável de arrependimento, mas era persistente.
- Como assim "não tenho nome"?
- Esquece.
E dava as costas.
Também não conseguia manter nenhum relacionamento. Era sempre a mesma coisa. "Meu bem", "meu docinho", "minha querida". Eles dizem isso pra todas, pensava.
Houve uma época em que ela havia engatado um relacionamento mais sério com um rapaz. Mas tudo se desfez no dia em que ele a apresentou a seus pais.
- Pai. Mãe. Esta aqui é a...
Ele não tinha pensado nisso.
- É a... é a...
- É quem, meu filho?
- A Ninha!
- Aninha?
- Ninha!
- Não minta, Luís! - cortou a moça. - Conte a eles!
Ah! O nome dele era Luís. Os pais do rapaz fizeram certa expressão de dúvida.
Vendo que o Luís não contaria, a moça lançou:
- Eu não tenho nome!
- Desculpem. A Ninha prefere simplesmente ser chamada de Ana, está bem?
A moça deu as costas, saiu da casa e nunca mais conversou com o Luís.
Nem com os pais dele.
Mas ela não aguentava mais.
Um dia decidiu: suicidaria-se.
Pôs as contas em dia, decidiu qual seria a maneira mais rápida e mais eficaz de morrer e estava prontíssima para ir para o outro lado.
Ela se jogaria da janela.
Já que morava em um dos andares mais altos de seu prédio, se jogar da janela seria tão simples quanto eficaz. Então ela se trancou no quarto, abriu a janela e começou a escrever seu testamento.
Mas, só quando estava no final do documento se deu conta de um problema: a assinatura.
Como ela assinaria?
A moça suspira, debruça na mesa e chora.

Trinta vezes Pseudo.

Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo. Pseudo.

Eu avisei.

sábado, 20 de dezembro de 2008

(Des)Fragmentos Pô-Éticos

É, ou
Noé?

Eloá,
ou não há?

sábado, 13 de dezembro de 2008

Notas.

Como esse blogue é uma manifestação individualista e 100% egóica; como ninguém se aventura a lê-lo e nele comentar, lanço aqui notas de significado subjetivo, e que só podem atingir pessoas diretamente relacionadas com elas -ou não-, as quais não lêem este blogue.


Nota 1 - Hoje corro dos meus fantasmas.

As coisas não precisam de você.
Quem disse que eu tinha que precisar?


Nota 2 - E o farol da ilha só gira agora por outros olhos e armadilhas.

Louco, não-comercial (use sua criatividade), 16, São Paulo.


Nota 3 - Ato contra a Bur(r)ocracia.

(Em três vias e registrado em cartório)


Nota 4 - Antes eu fazia um trabalho perfeito.

Hoje tenho dó dos feijões.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Réplica a um discurso reacionário sobre a adaptação "popular" de uma peça de Antonín Dvorák.

Reacionarismo e retrogradação musical.

Meus amigos, tenho uma triste notícia para vós: a música evolui.
Todos esses discursos reacionários e retrógrados, às vezes até apoiados na ciência (88), não me convencem porque estou convicto de que a música evolui.
A música é um reflexo da cultura de determinado povo. O povo é uma instituição mutável, que evolui, e que depende das ações de cada indivíduo. O ser-humano, assim como os demais seres-vivos, evolui, em busca da sobrevivência. Sim, pois nenhuma espécie de animal luta pelo suicídio, pelo menos que eu saiba. O ser humano planta, o ser humano contrói cidades, o ser humano cria o Xou da Xuxa etc. E também o ser-humano, como um mecanismo de manutenção da sobrevivência, mata o outro ser-humano, para continuar existindo. Isso explica as guerras, a luta de classes, a dominação cultural etc. (Aqui, qualquer tipo de dominação, privação, mutilação, tortura e assassinato, diretos ou indiretos, estão associados à morte.)
Considerem isso. Considerem também que a história é linear e jamais retrocede. Conclui-se que, de fato, as coisas evoluem. O alto IDH finlandês, as olimpíadas de Pequim, assim como as fábricas da Nike no Vietnã e o subdesenvolvimento indiano são recortes retirados da história da humanidade, que evolui ininterruptamente.
O grupo de humanos detentor do poder de dominação (no nosso caso, uma minoria) tende a superar os aspectos negativos de sua sociedade em ciclos históricos (segundo alguns pensadores, há um ponto onde esses ciclos terminam, mas isso não está em discussão agora). Isso é uma verdade histórica. Vamos trazê-la então para a discussão inicial do tópico.
A música, em sua história, evoluiu até certo ponto, quando os homens conheceram os efeitos da dominação cultural. Houveram litofones, liras e, um dia, cantos sacros. Cânones.
Segundo o dicionário eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa, o termo cânone, além de tipo de composição polifônica em que uma melodia é contrapontada a si mesma, pode ser também: a) norma, princípio geral do qual se inferem regras particulares; b) maneira de agir; modelo, padrão; c) decreto, conceito, regra concernente à fé, à disciplina religiosa. Opa! Topamos com aquela verdade histórica afinal.
A música evolui, e não há tanque ou ultra-conservadorismo que o impeça. Assim como a própria música erudita evolui. Historicamente, a música erudita geralmente é associada à cultura de uma classe dominante. A música erudita nunca foi amplamente apreciada, salvo exceções como a ópera-bufa italiana, os próprios cantos sacros e aquelas coletâneas do tipo "Clássicos mais populares". Existem, contudo, pontos de ruptura na histórica da música erudita, já que ela está em constante evolução. Tal evolução decorre da aprimoração técnica e das influências que a tal música sofre. Tal influência pode vir tanto de uma fusão de elementos já eruditos (Mozart, Beethoven), de uma fusão de elementos eruditos com populares (Gershwin, Piazzola), ou de uma fusão de elementos eruditos com elementos folclóricos (Stravinsky, Villa-Lobos), e é sempre um reflexo dos avanços sociais de cada época.
É compreensível então que, se o jazz é incorporado pela cultura erudita, ele passa a ganhar maior importância (na sua forma erudita), mas não deixa de ter sua importância no meio popular e folclórico, de onde veio. A evolução da música, como já exposto, SÓ acontece por causa do aprimoramento da técnica e da mistura de influências.
A cultura apreciada por uma classe dominante, contudo, não é necessariamente a cultura que esta imporá sobre a classe dominada. O jazz ganha mais importância, mas quem delimita essa importância é o mesmo grupo que, na sociedade contemporânea, bombardeia o povo com convenções estabelecidas (Jovem Guarda), ou mercantiliza a tradição popular (samba, funk carioca). O funk não conhece o funk, mas o funk nasceu do funk.
Contudo, como já exposto, tais mecanismos de dominação nascem da constante evolução humana. Dizer então que tal estilo musical tem que ser menosprezado é negar a evolução da cultura. Negar a fusão musical é afirmar um conceito fascista de não-miscigenação cultural. A música comercial tem justificativa em seu contexto social. Vende-se Xuxa, como na renascença os pintores comercializavam seu próprio talento. O que difere os artistas mecenados antigos dos atuais? O talento? O talento é relativo. A elite compra Damien Hirst, a subelite compra marcas famosas e a classe C compra Sandy & Junior. Sandy & Junior, que como Michelângelo, nada mais são do que mecenados.
A bandeira que vós levantais é a bandeira da retrogradação. Vocês equivalem àqueles que chiaram quando Beethoven introduziu um enorme coral em uma sinfonia, aqueles que amaldiçoavam Tchaikovsky pela sua opção sexual, aqueles que torceram o nariz para Dvorák e Gershwin, aqueles que xingaram de vacas as bailarinas que dançavam a coreografia de Nijínski, na estréia da Sagração da Primavera de Stravinsky, aqueles que jogavam tomates nos músicos nos recitais da Semana de 22, aqueles que riram da música dadaísta, aqueles que prenderam Messiaen em um campo de concentração, aqueles que chamam John Cage de louco.
Mantenho-me imparcial quanto à música que gerou esta discussão; mas a minha intenção aqui é rebater vossos discursos. Vossa luta é a luta pela imposição. O erro está em pensar na música isoladamente, em definir conceitos dominantes de arte. A luta pelo deseruditismo, pela desacademização é, sobretudo, uma luta social.
Aliás, o rock faz muito bem. Pelo menos pra mim.

Cito como referências Charles Darwin, Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Jean Paul Sartre, Raoul Vaneigem e Carlos Rodrigues Brandão.