terça-feira, 20 de outubro de 2009

DIÁRIO DE ESTUDOS FIGURATIVOS ou PARTE X da MINHA PRODUÇÃO DOENTIA E ENTEDIADA (excerto#1)

2009.
há quem jure que não, mas era 2009.
o chão tremeu.
São Paulo do nada torna-se um burburinho. a multidão sincronizada grita. notas de guerra, bombas de festejo.
o pobre tolo, plebeu, sai ao quintal, e apontado, diz:
-Mãe, acho que o Corinthians fez um gol.
Pobre amanhã.

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e depois que eu acordar
meu amor e eu vamos tomar um grã-café com os grãos gradualmente melhorados
vamos estar felizes, vamos estar sarados, vamos estar safados e as crianças chinesas trabalhando
vamos passar a noite inteira transando, enqüanto jovens estudam e jardins são retocados, eu vou ser tocado
à noite vamos ao jazz, porque temos pés. enqüanto eu leio na rede, separando, uma parede, torturantes jaulas vos abraçam
vocês se carapaçam e nós percevejamos. bebamos. preciso lembrar
como é doce o amargo

9/5/2009

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é claro que eu te escuto
consciência minha não falha
nada falha, tudo é palha
por que eu te refuto?
enqüanto luto, estás de luto
tudo é secreto e verdadeiro
inclusive o dinheiro
eu secreto no banheiro
nada é falha, tudo é palha
eu não te fumo, eu não te trago
não bebo o sumo do teu afago
não me afogo em teu lago
eu flutuo, eu ciclovôo
é claro que eu te escuto
consciência-fruto, e de você
desculpa, eu gosto de outros

9/5/2009

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da Imbecilidade

-oi
claque.
-tudo bem?
claque (mais alto).
-eu vou bem, e você?
claque com aplausos.
-bem. vim pegar minha geléia.
claque.
-toma.
risos.
-tchau.
-tchau.
claque, o mais alto possível, culminando com aplausos.
acaba a peça.

16/5/2009

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e da próxima vez
que eu te ver no banheiro
sorrirei ligeiro
mas não porque você não é, e sim porque é profissão minha te fazer sangrar de tanto pensar

16/5/2009

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Mas como são, assim, tão iguais, tão perfeitinhos esses garotos, esses rapazes morenos, de cabelo eriçado e brincos cintilantes. lembro de cada uma das vezes nas quais me apaixonava por um. eram vários em um mesmo dia. era a imagem de um na cabeça, e seu corpo na minha destra. sem pensar ia ao banheiro e me matava, batia, e era bom demais então. acho que nunca peguei um legítimo daqueles. talez minha imaginação seja afinal mais excitante. passam meses e eu permaneço criativo. e ativo.

17/7/2009

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mas é isto que se faz: despreza-se o de baixo, endeusa-se o de cima. eu tenho um pavor do estigma.
é aquilo; "de vez em quando todos os olhos se voltam pra mim, de lá do fundo da escuridão, esperando e querendo que eu seja um herói."
e que pavor eu tenho de ser padrão. não dá pra ter escolha no mundo onde o desconceito é o próprio conceito.
mercadologia: penso, logo sou.

mas eu não tenho chicote, 18/7/2009

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NOMEIO ISTO COMO DIÁRIO DE ESTUDOS FIGURATIVOS ou PARTE X da MINHA PRODUÇÃO DOENTIA E ENTEDIADA

18/7/2009

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A minha sina é tomar toddy com leite desnatado.
como as pessoas podem ser tão não-vaidosas a ponto de subeterem-se a essa terrível fórmula? como contentam-se em acordar, comer uma uma bisnaga com margarina e tomar qualquer achocolatado com aquela água, à qual dão o nome de leite desnatado? minha vaidade me impede; louvo aos sem-paladar, esses merecem meu respeito.
mas Freud explica.

19/7/2009

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Omiti-lhe qu'eu sonhara que ela me assediava. Meu ego cristão, todavia, me aplaudia, dedicava cânticos e cantatas e novenava a cada meia-hora. Contando as pausas para a manutenção fisiológica matinal (urina, dentes, estômago, e não necessariamente nessa ordem), gestos mecanicamente urbanos, foram uns quinze minutos dissecando a minha epopéia onírica (e eu nem partira para a psicologia ainda).
-Tive um sonho muito louco, véi!
-Eu também.
Não lhe dei bola.
-Sonhei que 'tava numa festa, tipo, na minha casa e, tipo, a minha vó 'tava, 'tava tipo um pessoal. Então teve uma hora qu'eu subi pro quarto e lá 'tava a Dani e a Mariana, da minha sala, e as duas começaram a me zuar, que a Dani tinha acabado de comprar, ou ganhar -não sei-, uma bike, e ela falou que não ia sair comigo pra gente andar de bike. Daí eu olhei pro lado e tinha tipo um manequim com cabelo, e eu levei mó susto. Aí eu desci e a minha vó 'tava se arrumando pr'uma festa tipo na casa ds meus tios, acho, lá em Curitiba. Não sei, mas eu acho que ela me ofereceu uma batida. Então eu falei que ia sair e ela falou pr'eu não demorar. daí eu fui tipo pr'um shopping, e encontrei uma prima da minha mãe, Elizete, e a gente pegou o mesmo elevador. Daí a gente foi falando mó papo maluco; eu falando da minha vida, minhas condições financeiras, meu futuro e, tipo, rolou mó papo e tal, daí eu olhei pra ela e ela 'tava mó diferente, bonita, de cabelo curto, não-enrugada (que a Elizete tem bastante rugas), de brinco, e com um quê de lésbica. Daí parece que eu me identifiquei co'ela, e perguntei se ela era cientista social, ela falou que era, então o elevador do shopping (que parecia o Anália Franco, mas era de Curitiba), desceu a gente meio diagonal e super-rápido pra tipo uma estação de trem e, do nada, acho que depois de pegar um trem, a gente deu tipo num parque, que 'tava cheio de índio. daí, começou mó discussão filosófica e sociológica sobre a questão indígena e tal. eu argumentava e, tipo, ela concordava e tal, fazia mó bem pra mim. daí meu sonho acabou, no parque.
Sorriu quase sem-graça.
-Legal.
Quis ser educado.
-E você? Sonhou com o quê?
-Sonhei que comia um passarinho vivo.

20/7/2009

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eu lembro de quando a minha vida era um filme pornô.
textos curtos, eu ainda fazia questão de um sexo estético.

20/7/2009

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Um comentário:

Anônimo disse...

Tentei me sugurar o máximo pra terminar de ler teus pequenos poemas, então me deparei com o 'leite desnatado'
Toddy, é ruim para carai. Certo, eu raramente tomo leite, mas leite desnatado, é muito melhor, porque não engorda, e tem o mesmo gosto do semi desnatado/integral (já tomei os 3 tipos)