sem dono.
Ninguém sabia o nome daquela moça.
Ninguém sabia se ela tinha sequer algum nome.
A vida dela era andar pelas plataformas lotadas da rodoviária do lugar discursando.
Discursava sobre tudo.
Era.
O meu esporte predileto
Vocês não sabem como eu adoro acordar segunda-feira de manhã e tomar uma xícara cheia de café.
O Tombo da Senhorita
-Por exemplo, se você está em um shopping, e de repente aparece um pobre na sua frente, o que você faz?
-Acordo.
-Não, de verdade.
-Sei lá. Nunca vi um pobre aqui.
Estavam em um shopping, não importa qual.
-Mas por que você 'tá perguntando isso?
-Por nada. Passou pela minha cabeça.
Esse, o Felipe, tomava um milk shake que custou 1% do seu salário mensal. Contudo, a camiseta que usava custara 10% de seu salário, sua calça 13% e seu tênis 20%. Não importava, desde que não fosse pobre. Tinha horror a pobre, a ser pobre.
-Tem açúcar demais nisso aí.
O outro, um tal Ronaldo, compartilhava dos mesmos valores do amigo. A diferença é que este, por não trabalhar, tomava emprestado do outro as roupas que usava quando ia ao shopping.
-Olha aquela mina. -o Ronaldo avistou.
Aquela mina que passou era uma Irene, que estava cumprindo sua função, de não ter função alguma, com pompa e competência.
-Qual?
-Aquela.
-Que tem?
-Duvido você chegar nela.
-Há! -deu uma risada debochada. -Eu também duvido.
-'Cê é 'mó cuzão. Por isso que não pega ninguém.
-'Tá em choque, vá pescar!
Clima tenso.
-Vixe! Seu amarelão. Isso que dá, não tem iniciativa, chupa dedo.
-Olha, você me erra, que eu não 'tô afim de brincar de boneca hoje.
-Oopa!
Derrubou propositalmente o milk shake na camiseta do amigo, que custara 10% do salário daquele. A briga tornou ares mais formais, e lá estava um em cima do outro. Antes do segurança chegar, a moça de nome Irene aproximou-se, tentando de alguma forma apartar toda aquela poeira, mas acabou por escorregar na sujeira que os dois promoveram e bateu com a cabeça direto na quina de uma cadeira. O tombo da senhorita alarmou instantaneamente os dois, que começaram a socorrê-la do modo lúdico e grosseiro que conheciam da televisão, mas não foram muito úteis pois o pessoal especializado já chegara: da saúde, e da segurança. A moça foi levada às pressas para algum hospital de griffe e os dois rapazes saíram do prédio se amaldiçoando. Os dois voltavam pelo mesmo caminho, mas um, o Ronaldo, decidiu inventar um outro compromisso, pra não ter que ir ao lado do amigo.
Chegando em casa, o Felipe já perdera uma porção de sua indignação, e estava preocupado em como gastaria o resto da sua grana. Sua mãe morreria dali a dois anos, mas até lá ele não precisaria se preocupar com o seu salário, a não ser em como o gastaria competentemente com inutilidades e falso status.
Sentiu-se então inspirado para começar algo novo, que quebrasse sua rotina. Talvez tivesse sido a mixórdia que provocara na praça de alimentação. Mas, no fundo, era a imagem de Irene, tão terna e desastrosa, estirada involuntariamente, e sangrando, no chão daquele paraíso asséptico, que lhe trouxera uma ansiedade de produzir algo que jamais vislumbrara.
Daí, tomado de estranha euforia, pegou um caderno, que de tão abandonado já se encontrava amarelo (de vergonha), e o desvirginou, violando a morbidez que aquelas pautas lhe emprestavam, com uma caneta que demorou a pegar, mas depois saiu rabiscando quase-tímida aquela superfície tão esperançosa. Escreveu com caligrafia infantil "Irene". Ia escrever um poema.
Subitamente, juntou caderno e caneta e os jogou sobre a mesa com relativa fúria, perto da fruteira, decidido a abandonar a empreitada com a qual terminara de sonhar.
-Eu hein! Isso é coisa de viado.
E foi assistir televisão até dormir.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
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Um comentário:
melhor ser....ah, sei lá, não sou nada mesmo
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