terça-feira, 1 de junho de 2010

Manual do Amor em Segredo

(para homens Homossexuais normais)

(Gostaria de esclarecer que este manual é uma brincadeira -talvez de mau gosto, visto que as linhas de raciocínio aqui esboçadas são estritamente opostas àquilo que de fato acredito. O mais triste é pensar que praticamente tudo o que nele está escrito foi baseado em experiências reais.)

I
Esqueça tudo aquilo que os teus companheiros fizeram para que você pudesse conquistar os direitos que você tem hoje. Pode fazer mal pensar a respeito. Mas interprete da seguinte maneira: se todos eles se esforçaram e, minha nossa!, alguns até morreram, que pena! Foi tudo em vão, porque "a sociedade é preconceituosa" (uma novidade, uma lei, um princípio estático). Ela é preconceituosa e extremamente intolerante, o que é uma pena!, já que você tem que alcançar os seus objetivos, suas metas, e a sua "vida pessoal" (aqui "pessoal" tem praticamente o mesmo sentido do termo "individual") não pode conferir obstáculo ao seu alcance pessoal de um status social desejável e decente.
Este é o pressuposto central deste manual.


II
Jamais estabeleça vínculos fortes com seu parceiro.
(a) O sentimento de reconhecimento em relação ao parceiro é um ponto delicado. Não se pode estabelecer um vínculo tal com um parceiro de forma que se queira honrar uma possível união (isso pode significar: utilizar aliança, morar junto declaradamente, assumir o parceiro publicamente -o que de alguma forma significaria assumir a própria sexualidade publicamente também).
É necessário, para conservar-se a condição de autonomia em relação ao parceiro, uma certa medida de autocontrole. Em termos práticos, significa tomar uma série de medidas para evitar relacionamentos fixos ou perigosamente passíveis de se tornarem simbióticos: estabelecer um relacionamento aberto (mesmo que não se sinta necessário) pode ser uma boa saída; uma outra possível saída é simplesmente negar sistematicamente relacionamentos que não sejam imediatamente afetivos ou puramente sexuais. Adotar uma postura de autonomia em relação a parceiros é uma maneira eficaz de evitar vínculos afetivos fortes o suficiente para que se perca a cabeça.
(b) A regra da discrição é o princípio sobre o qual se estrutura um conjunto de condutas e procedimentos normativos, inspirada pelo senso comum e criada como método de sobrevivência e blindagem de possíveis hostilidades sociais. Essa regra torna desnecessária a luta política por substituir a conduta homossexual pública por atitudes de fachada, criando assim um momento de ação permitido.
Para as interações que ocorrem neste momento, existe um papel artificial correspondente. Como este papel artificial contém aspectos sentimentais genuínos, podemos dizer que um papel que representasse uma faceta genuína deixaria de existir, do que depreendemos que: passam a existir dois papéis artificiais, um para a vida pública e outro para momentos de ação permitidos, na medida que os papéis que tais situações demandam são dissimulados.
Portanto, o amor secreto diz respeito não apenas à criação de uma máscara, mas no caráter instrínseco de autocontrole e rigidez na distinção.
(c) Como você não quer relacionamentos de vínculos estreitos, você nunca saberá com quem realmente está se relacionando. Deve-se tomar cuidado com parceiros dependentes sentimentais, assumidos publicamente, ou que podem de alguma maneira pôr em risco o seu status perante a sociedade, de heterossexual.
Dos problemas elencados em (a), proponho então a aceitação da regra da discrição (parte b), o que significaria adquirir um autocontrole necessário para que se permita expressar os verdadeiros sentimentos em limites estritos (como será tratado em VI), imunes a vínculos muito intensos e malignos. Em (c) e, como será imediatamente tratado, em III, vimos que deve-se previnir de relacionamentos perigosos e desfavoráveis.
Logo, jamais ame plenamente.


III
Felizmente as DSTs não são exclusivas e dependentes de orientação sexual, mas você bem sabe que o homossexualismo (e aqui o sufixo -ismo é usado propositadamente) é a característica determinante do grupo de risco "homossexuais". Evite mostrar-se doente e, por extensão, previna-se!


IV
A sua orientação sexual (como já citado no item I) é sua, e ninguém além de você precisa saber disso. Logo, você não precisa agir de forma a estimular uma posição alheia em relação a sua sexualidade, afinal ela é só sua.
Na verdade a regra da discrição (IIb) é importante neste ponto, já que reserva determinadas condutas a determinados momentos. Para manter a decência da faceta pública de um homem, este deve adotar um modelo de conduta não-agressivo para os outros, deve afastar daqueles que o cercam sua sexualidade. Forjar uma naturalidade, que na verdade significa forjar uma sexualidade por meio de papéis e esteriótipos heteronormativos*.
O amor secreto então pressupõe a existência de uma conduta uniforme, que nega sistematicamente as verdadeiras vontades do indivíduo.
*Por heteronormatividade entenda-se o conjunto de práticas de conduta e procedimentos impostos segundo um parâmetro normativo heterossexual de distinção sexual. O conceito de heteronormatividade em alguma medida relaciona-se também ao sexismo, já que pressupõe papéis distintos para os gêneros; no que tange ao nosso ponto, espera-se de um homem afeminado, por exemplo, que adote uma posição -inferior- feminina (seja passivo e sensível, por exemplo).


V
Odeie os afeminados.
Como visto em IV, você deve adotar um modelo de conduta para se afastar de uma possível associação alheia da sua imagem com um status prejudicial de homossexual.
(a) Faz parte desse modelo não apenas a negação da própria sexualidade, mas também a necessidade de desqualificar* a própria modalidade de sexualidade. É de bom tom.
(b) Você não precisa adotar uma conduta afeminada, afinal você já adquiriu uma capacidade de negação das condutas externas ao padrão (ou acha que adquiriu) durante o processo de aquisição de um papel uniforme.
Logo, você não tem por que respeitar aqueles que não conseguiram rejeitar seus sentimentos em prol de um status social razoável; eles estão abaixo de você na pirâmide social.
*Aqui falo de humilhação pública.


VI
Apresente conduta homossexual apenas em ambientes especializados. Como mais ou menos foi tratado em IIb, a existência de um momento de ação permitido (um desdobramento da distinção intrínseca na regra da distinção), isto é, um instante, um aqui e agora, nos faz pensar em um modelo celular.
Aqui, células são os lugares onde se permite viver a sexualidade com segurança*. Elas podem assumir vários formatos (desde bairros nobres e globais, passando por ruas e encontros, shoppings e galerias, baladas e bares, cinemas e casas noturnas, até parques e banheiros públicos), podem constituir um tecido (que quase nunca é coeso, compõe sobre a cidade um punhado de retalhos espalhados -ou tristemente centralizados) e, se adotada em larga escala por amantes secretos, tende a se retroalimentar de forma a legitimar temporalmente a lógica da apartação entre orientações sexuais.
Você não deve ter orgulho apenas de ser discreto, e sim também de ter hora e lugar para amar e fomentar a perpetuação dos fatores que te obrigam a praticar o amor secreto indiretamente.
*Tal segurança é relativa: existem lugares mais ou menos seguros; indivíduos diferentes classificam lugares diferentes quanto à segurança conforme a percepção individual e a situação psicológica.


VII
Seja uma pessoa normal.
Se possível tenha uma esposa, uma religião (por mais desconforto que isso possa causar, você certamente encontrará, segundo uma leitura pessoal da sua religião, a legitimação da prática do amor secreto e a absolvição da hipocrisia, da traição, do preconceito etc, enfim, dos males por você praticados), tenha filhos (e ensine-os a ser heterossexuais) e viva uma vida em que você possa ser estimulado a odiar a própria sexualidade maligna de forma a legitimar seu amor secreto.
Ria dos afeminados da televisão -e fora dela!-, goste de coisas masculinas (como futebol e carros), enfim, aja como a pessoa que você quer ser publicamente.


VIII
Este manual buscou em linhas gerais traçar métodos de conduta baseados na regra da distinção (IIb) e situados em um elemento impessoal e desenredado de implicações históricas precedentes (isto é, alienado dos processos de busca por emancipação social dos homossexuais; I). Espero ter ajudado dando este pequeno suporte para que você se adapte a este mundo (que, como é muito injusto, não se adaptará a você jamais).
No caso de desmascaramento, regras alternativas podem -e devem- ser utilizadas, mas elas estariam fora do alcance deste manual. Penso, entretanto, que seguindo estritamente a filosofia desta cartilha, adotando uma conduta normal (IV, V, VI e VII) e previnindo-se dos riscos (IIc e III), dificilmente a lógica do amor secreto será ferida.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Ficção#2 (Canção do Ódio)

Não consigo imaginar para quem você se arruma (senão para mim). Não consigo-sigo imaginar para que você se arruma, senão para me esperar. Porque eu tomo muitos-vários banhos e para onde vou? Ou quando vou, se vou, para quem o faço, senão para você, que está ali na esquina parado, no corrimão de um metrô valente, sentado na mesa perto do bilhar, esperando criar coragem para me dar sua cerveja, ou então na balada (que me abalas) dando seu número para uma discagem inexistente-tente. Você está no impulso-pulso de sabonetar competentemente cada dia potente a minha genitália-mente, no meu impulso de apertar (de estar perto) contra minhas axilas (agora frias) o desodorante (meu calmante ou excitante), nas roupas que escolho-colho, você está impregnado nelas, naquelas do cabide, numas deitadas-empoeiradas no chão... É para você que me visto todo dia e cerco qualquer figura, é a sua que procuro em cada abordagem muda, ou em qualquer mudo diálogo...
Se eu não consigo pensar em ninguém mais, como pode você (ou supor eu que) aparentar assim ter enterrado tudo. Seu mal-sucedido, enterrou-me vivo! Maldito, maldito, maldito, maldito, maldito...


Canção do Ódio II

Flamejou, flamejou, flamejou... Dança das cinzas sobre o fogão imundo-mundo. Fagulhas cintilantes, diletantes, cantantes e a fumaça cinza que dançava em direção ao teto. Você ardeu como aquele papelão sem graça, pintado de lilás-sem-paz, recheado de ar do nada, na boca do fogão. Você não arde mais na boca de sujeito nenhum. Fulgurou-se na cozinha solitária, apenas um sorriso de expectação, reflexo das flamas nos meus dentes vermelhos.
De ódio.
Minhas gengivas brancas -de luz- viviam o chamejar daquele resto de passado com intensa sensação, fulgiam -estou certo- mais do que a vela acesa ali na minha frente indicando a tua partida, tua iluminada morte. Teu espírito clamando resplandecia chamejante, e assim o esteve até a última faísca.
Até o fim do ato abrasado, quando o quitado incêndio daquilo tudo que hoje são felizmente e apenas cinzas (e nada me causa mais pânico do que pensar na possível Fênix desse mal queimado), sorri inflamado de calor. Ateei fogo em ti até tostar carbonizado, pela imagem da ex-caixa de chocolate febril que em letras douradas era Jubileu. Mas quem estava em júbilo agora era eu.
Calmo, pus os restos de ti em um saco plástico, desci a rua da minha vida na bicicleta do meu ser, e com a música do meu tempo, te despejei na brisa noturna deste outono paulistano sem estrelas.
Você foi voando, voando...

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Estudo#1 (fluxo)

Aquela mulher parece um homem (ou um homem que parece uma mulher). Bah! Que besteira. Às vezes me pego pensando nos porquês. Não tem porquês, Eros, acabou e acabou. Será que já chegou a minha salada? Que susto! Gostei da mochila. Que bundinha, hein? Será que o cara do CRUSP vai me ligar? Nossa! Esqueci o nome dele. É Ales...sandro. Alessandro? Não! Ele falou em luz, é Luciano! É Valdison Luciano.
-Mas Valdison significa o quê?
-Sei lá!
-Bom... Valdir significa alguma coisa.
-É, deve ser o nome original. Mas eu não pesquisei ainda.
Nossa, como estou atordoado. Quero dormir mais no Espaço Verde. A blusa da Gabriela é bonita. Eu não lembro o nome daquele cara da Letras...
-Oi! Tudo bem?
-Oi!
-O seu nome eu não lembro mas o significado dele é muito legal.
-Qual é o significado?
-Eu não lembro, mas é muito legal!
E ontem, o cara do cachorro. Hum, engraçado.
-Tem vinte e...
-Haha, trinta.
-Trinta e...
-Trinta.
-Qual é o nome dele?
-É a Drica. É menina.
-E o dono tem nome?
-É Alessandro.
Ah! Ele era o Alessandro.
-Que faz o que da vida?
-Engenheiro.
-Cê gosta?
-Gosto. Então, tá vendo aqui esta rua? Vira aqui, atravessa a Praça Roosevelt inteira, atravessa a Consolação e anda umas duas quadras. Mas toma cuidado que é meio perigoso.
-Tá. Peraí, deixa eu ver se eu entendi. Eu viro aqui...
-Vira aqui, atravessa a Praça Roosevelt...
A vista do COPAN não sai da minha cabeça. Que coisa absurda essa cidade. Mandei uma mensagem pro Diogo, mas ele não respondeu. "Foi um prazer, apesar de tudo. Beijos, bom dia!" Será que ele se ofenderia com o "apesar de tudo?"
-Quer que eu te chupe?
-Quê? Ketchup?
Risos. Mas ele é muito frio. Droga, por que ele não conseguiu até o final? Será que era por causa de mim? Não. Foda-se! O Daniel gostava. Ele era muito blasé. Será que o amor no COPAN existe? Eu posso ir ao Glória de novo. Mas quem disse que você vai encontrar alguém pra conversar assim lá, Eros? Aquela mulher que parece um homem de novo! Vou atrás da minha salada!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pretérito Imperfeito ou Cantiga de Ninar#1

A avenida cheirou a peito de peru e gasolina. Durante um punhado de horas. Insistentemente. Adverbialmente. Abandonei o ar quase respirável dos paulistanos, passos pulados na escada, grã-grande-grandiosa-gravidade.
No piscar em que a guichê do Bilhete Único perguntou se era de papelão a carteira (a minha) pensei tê-lo visto passar -de cabelo comprido, para eu não reconhecê-lo. Claro. Como eu o reconheceria de pelo crescido?, justo o da extremidade pensante, o único que ele aparava em seu corpo.
Ótima estratégia. Mas ele encatracou-se de pressa que estava, o que é um saco. Na verdade eu não posso ter certeza. Nem vi direito, não devia ser ele. Se fosse, talvez viesse me cumprimentar. Não era ele.

domingo, 9 de maio de 2010

Ficção#1

-Eu menti pra você.
-Mentiu?
-Não, não que eu menti. É que eu faço dezessete depois de amanhã.
-E você fala em amor ainda?
-Amor? E o que você sabe? Você que não sabe o que é amor!
-Olha aqui! Se isto não é amor é o quê?
-Eu falei, não vai rolar nada contigo.
-Por que eu sou velho?
-Por que você não me dá tesão.
-Mas não foi você que me falou em amor?
-Eu só amo pessoas pelas quais eu posso sentir tesão.
-Isso aí não é amor!
-É o quê?
-É... Sei lá! Não é amor! É perversão.
-Ah! Cala a boca e vai pra igreja!
-Ah! Me dá uma chance.
-Pára!
-É sério!
-Boa noite, amigo!


Ando-ando-ando-ando-ando-ando... As horas -dezessete- passam, passam, passam, mas ele não as sente. Só. Depois.
Em um corrimão debruça, vê os carros passando-ando-ando, sonha acordado-dado-dado com o amor-irreversível da porta das manhãs-nada-sãs. Olha um nada de boné, né? e segue dado o flerte, este. Maldito este. Pensa-densamente.
-Quem sabe?
Mas então a cena se repete tête-à-tête.
-Curte o quê?
Chove a garoa arrogante. Por que não resta nada de inútil na cidade?
"As pessoas tão felizes com pipoca e televisão,
e eu? Ai de mim! Você não quer meu coração?
"
-Como assim, curte o quê?
-Passivo, ativo, relativo?
-Camarada, acho que você 'tá falando com a pessoa errada.


Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite... Cansado de tão boas.
Será que o amor existe na cidade?
A garoa arrogante não cansa de molhar os meus pés.
"Uma garoa cansada, maníaca e incoveniente.
Como eu.
"
-Amor? Como você tem coragem de chamar isto de amor?

domingo, 2 de maio de 2010

Não sei se alguém lembrará do primeiro.
Finalmente, uma resposta digna, alguns (vários) meses depois.

quando eu subo
apartamento as dores
e a porta abre
e eu vejo as tuas cores
a noite passa
e eu me deploro submisso
à tua massa
e eu te exploro e eu te dispo
as tuas mordidas no meu pescoço
me enchem de tesão até o osso
e as tuas mãos seguras
me protegem no teu ombro
da noite obscura
que é linda e um assombro
quando eu acendo e te toco feito bicho
a gente ama, e não importa o luxo ou o lixo
(as tuas mordidas no meu pescoço...
quando deita e me beija o meu moço)
e eu durmo sem pensar qualquer verdade
porque sei que estou vivendo a eternidade

21 9 2009



eu assumo
apartamento as dores vis
'inda subo
até o andar número xis
calo a boca
abro a porta, 'cê me diz
"tira a roupa"
eu fiz isso mas não quis

olho a Lua
da varanda do meu ser
pego a sua
mão sem sequer responder
mais teus beijos
teus gemidos de prazer
(o teu queixo
me roçando pra valer)

meia noite
tic tac eu-blasé
"grande sorte"
e o culpado é você
ah! eu deixo
um suspiro sem querer
cai o eixo
que sustenta o meu viver

24 4 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

Texto das Manhãs

"Como eu não posso lhe dar um emprego, dou-lhe um Bom Dia!" foi o que pensei, mas apenas efetuei mecânico uma porta as duas últimas.
Axiomas à parte, sento, eu não sento, não estou certo se imediatamente. A espera não importa, sento, afinal. Um texto do antropólogo das dádivas passeia indeciso entre minha atenção, que trafega intermitentemente pelo cenário da cidade, e entre a falta dela também. A caneta, que podia ser vermelha, verde, cinza, preta ou marrom, afinal essas são as cores das minhas canetas -muito embora eu bem saiba que as dos textos de Antropologia são a cinza, a vermelha e a verde-, grifava na proporção de tempo 1:3, onde 3 é igual aos momentos de pausa e reflexão do nada.
Chove, pinga, esquenta, o ônibus é uma verdadeira sauna, e alguém atrás de mim ainda tem coragem de roncar -um ronco doente, o ronco da cidade, que não tem coragem de dormir, somatiza, somatiza, somatiza...
Penso no amor irreversível, no amor marginal, no amor suicida, esses amores da cidade, olho para baixo, e a caneta -lembrei, era a vermelha!- mancha de sangue toda a obra do etnógrafo, só resta no rodapé uma esperança intacta, mas a tradução literal é provavelmente a seguinte: Tanto Maru dá, quanto Maru toma, e isso é certo, certo. (Maru é o deus da guerra e da justiça.) 15. Bucher 1893: 73, percebeu esses fenômenos econômicos, mas subestimou sua importância ao reduzi-los à hospitalidade.
Alguém com o perfume dos dias repugna a tinta assassina, na metropolitana porta das manhãs. Mas o meu amor irreversível derramou-se sobre a ciência dos homens. O Cemitério da Consolação dança sobre os olhos cansados e muito vivos dos paulistanos.

Um cardume de estrelas se afasta, quer a liberdade.

domingo, 4 de abril de 2010

Eu quis escrever este texto #1

Na segunda vez em que fui na Cinemateca Brasileira ela estava vazia como na primeira. Só alguns cinéfilos superficialmente neuróticos e uma velhas burguesas -muito bem vestidas, diga-se de passagem. Porque ninguém é de ferro (e porque a minha faculdade laica deu aos seus súditos uma semana livre para... estudar -e talvez ir ao cinema) fui à Cinemateca Brasileira neste domingo -armado com um texto do Claude Lévi-Strauss numa mão e uma caneta na outra.
Mais uma vez um filme realista contemporâneo brasileiro -nada tem me deixado mais eufórico do que notar como esses novos diretores conseguem dissecar tão bem a mente do brasileiro com tanta realidade-, embora todos nós saibamos que o realismo, no que tange à arte, é um modelo ideal. Chamava "Hotel Atlântico". Assisti em uma sala chamada BNDES, patrocinada por várias empresas muito ricas e preocupadas em abater o imposto de renda.
O último filme brasileiro que eu havia visto antes desse -que por sinal era também um filme realista e contemporâneo- chamava "Os Inquilinos", em cartaz no HSBC Belas Artes. Indico os filmes, mas este texto não tem a pretensão de ser uma resenha -pelo menos uma pretensão consciente.
Georg Simmel faz distinção, em seu texto "As grandes cidades e a vida do espírito", entre a conduta dos indivíduos em cidades pequenas e cidades grandes. Na primeira imperam as relações pessoais entre os indivíduos, na segunda o indivíduo adquire relativa repulsa às relações pessoais, limitando seu convívio social a círculos restritos. Logo, o morador da cidade pequena possuiria, segundo os termos do autor, ânimo, e o da cidade, pelo excesso de estímulos e adaptações necessárias, seria indiferente (o que Simmel chama de caráter blasé).
Nesse sentido eu acredito que "Hotel Atlântico" e "Os Inquilinos" sejam duas películas onde esses temas são muito bem explorados -temas clássicos, tendo em vista que Simmel em seu texto se refere a um contexto específico: senão a Alemanha, simplesmente os países europeus recém-industrializados, no fim do século XIX, início do XX.
No primeiro, uma personagem completamente indiferente a tudo que lhe acontece -Ele só toma decisões para que o enredo do filme possa se desenvolver-, sem nome, representando um ator -o que também é bastante significativo- viaja por cidades cada vez mais ao interior. O resultado é um conflito entre o marcante caráter blasé da personagem e a necessidade de se impor que o convívio na cidade pequena obriga. O estudo feito a respeito do comportamento das pessoas e das relações de poder dentro dessa sociedade interiorana brasileira semi-feudal é fantástico.
O segundo filme também traz uma análise bem significativa a respeito do cidadão oprimido na cidade grande. Uma família de classe média baixa (nem rica nem pobre) em um bairro periférico de São Paulo se vê oprimida em sua própria comunidade. Todos os meios de comunicação, e mesmo a própria opinião pública influenciam seriamente a conduta da família, que se sente ameaçada quando inquilinos muito suspeitos se hospedam no vizinho ao lado. O resultado é um enclausuramento progressivo dentro da própria casa, onde os integrantes da família passam a nutrir um certo sentimento de ódio pelos novos vizinhos. A lógica do medo na cabeça do cidadão de classe média paulistano é muito bem trabalhada, e nos remete a um debate que não necessariamente está de total acordo com Simmel, mas que de alguma forma tem alguma relação: por que o morador da cidade grande se protege das relações pessoais? tem a ver com o caráter blasé ou é simplesmente um dispositivo de auto-proteção?
Ando cada vez mais preocupado com a minha própria maneira de ver as coisas. Será que o preço que nós pagamos por vivermos em grandes cidades, ou mesmo o preço que eu pago por ter optado por um curso onde o neutro tem um papel tão relevante, seja a completa indiferença em relação às coisas que nos cercam? Antes eu considerava a frieza não apenas como algo necessário, mas como um aspecto positivo. Será que eu estava certo? Será que o futuro do indivíduo moderno da cidade é estar indiferente a todos os sentimentos e fatos tão caros aos interioranos, tais como a morte, o medo, o amor, a doença, o sexo e o inesperado?

domingo, 28 de março de 2010

Mote: Mais uma vez, tudo isto não visa negar a realidade de um progresso da humanidade, mas convida-nos a concebê-lo com mais prudência.
Claude Lévi-Strauss

A ideia de progresso, engessada como o quê, já conhece o detóurnment.
Mas a gente sabe da sequência de mudanças -metamorphosis-, sabe não.
Na festa alguém sem nome me disse que era filólogo.
Mas a minha mind estava um pouco outside, ou melhor, destilado aqui.
Piadas com dezessete anos não são mais toleradas.
Eu sustento o meu orgulho-dezessete na porta das manhãs.


Mas é incrível como um dia destrói o outro.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Carta aos amores II

Diga aos amores etiquetados que eu decidi ser freegan, e que o único jeito de se comunicar comigo agora é por meio de sinais de fumaça.
Fala pro amor-capital que eu tripliquei de preço, e diz pro amor da esquina que eu cortei a rua.
Ao amor do metrô a mensagem é simples: fiz a baldiação e perdi meu coração em Calmon Viana, como a perdida bala que o perfurou fulminante.
Diga aos amores-da-escada-de-saída-de-emergência que tudo vai bem por aqui, na minha bolha de látex, e que eu deixei há muito tempo de percorrer os degraus da minha vida porque cheguei ao piso do cinema.
Também diga ao meu amor amendoado, que eu o esqueci completamente, e que não existem motivos para que nós nos vejamos nunca mais -talvez apenas mais uma vez, que é para ter certeza.
Pr'aquele amor do show de rock, diz que eu sou hare-krishna, e pro da sinuca diz que eu não sou viciado em cocaína nem em crack, pro vegetariano fala que eu sou canibal, pro cristão eu sou comunista...
(Pros amores fantasmas eu tenho uma simpatia tiro e queda!)
Ao amor da minha vida, diga-lhe que o espero na porta das manhãs porque o grito dos seus olhos é mais e mais e mais...


[E bateu-me forte no peito agora uma vontade tão, mas tão louca, de dormir, dormir, dormir...
Até acordar.
]