domingo, 27 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
Manual do Amor em Segredo
(Gostaria de esclarecer que este manual é uma brincadeira -talvez de mau gosto, visto que as linhas de raciocínio aqui esboçadas são estritamente opostas àquilo que de fato acredito. O mais triste é pensar que praticamente tudo o que nele está escrito foi baseado em experiências reais.)
I
Esqueça tudo aquilo que os teus companheiros fizeram para que você pudesse conquistar os direitos que você tem hoje. Pode fazer mal pensar a respeito. Mas interprete da seguinte maneira: se todos eles se esforçaram e, minha nossa!, alguns até morreram, que pena! Foi tudo em vão, porque "a sociedade é preconceituosa" (uma novidade, uma lei, um princípio estático). Ela é preconceituosa e extremamente intolerante, o que é uma pena!, já que você tem que alcançar os seus objetivos, suas metas, e a sua "vida pessoal" (aqui "pessoal" tem praticamente o mesmo sentido do termo "individual") não pode conferir obstáculo ao seu alcance pessoal de um status social desejável e decente.
Este é o pressuposto central deste manual.
II
Jamais estabeleça vínculos fortes com seu parceiro.
(a) O sentimento de reconhecimento em relação ao parceiro é um ponto delicado. Não se pode estabelecer um vínculo tal com um parceiro de forma que se queira honrar uma possível união (isso pode significar: utilizar aliança, morar junto declaradamente, assumir o parceiro publicamente -o que de alguma forma significaria assumir a própria sexualidade publicamente também).
É necessário, para conservar-se a condição de autonomia em relação ao parceiro, uma certa medida de autocontrole. Em termos práticos, significa tomar uma série de medidas para evitar relacionamentos fixos ou perigosamente passíveis de se tornarem simbióticos: estabelecer um relacionamento aberto (mesmo que não se sinta necessário) pode ser uma boa saída; uma outra possível saída é simplesmente negar sistematicamente relacionamentos que não sejam imediatamente afetivos ou puramente sexuais. Adotar uma postura de autonomia em relação a parceiros é uma maneira eficaz de evitar vínculos afetivos fortes o suficiente para que se perca a cabeça.
(b) A regra da discrição é o princípio sobre o qual se estrutura um conjunto de condutas e procedimentos normativos, inspirada pelo senso comum e criada como método de sobrevivência e blindagem de possíveis hostilidades sociais. Essa regra torna desnecessária a luta política por substituir a conduta homossexual pública por atitudes de fachada, criando assim um momento de ação permitido.
Portanto, o amor secreto diz respeito não apenas à criação de uma máscara, mas no caráter instrínseco de autocontrole e rigidez na distinção.
(c) Como você não quer relacionamentos de vínculos estreitos, você nunca saberá com quem realmente está se relacionando. Deve-se tomar cuidado com parceiros dependentes sentimentais, assumidos publicamente, ou que podem de alguma maneira pôr em risco o seu status perante a sociedade, de heterossexual.
Dos problemas elencados em (a), proponho então a aceitação da regra da discrição (parte b), o que significaria adquirir um autocontrole necessário para que se permita expressar os verdadeiros sentimentos em limites estritos (como será tratado em VI), imunes a vínculos muito intensos e malignos. Em (c) e, como será imediatamente tratado, em III, vimos que deve-se previnir de relacionamentos perigosos e desfavoráveis.
Logo, jamais ame plenamente.
III
Felizmente as DSTs não são exclusivas e dependentes de orientação sexual, mas você bem sabe que o homossexualismo (e aqui o sufixo -ismo é usado propositadamente) é a característica determinante do grupo de risco "homossexuais". Evite mostrar-se doente e, por extensão, previna-se!
IV
A sua orientação sexual (como já citado no item I) é sua, e ninguém além de você precisa saber disso. Logo, você não precisa agir de forma a estimular uma posição alheia em relação a sua sexualidade, afinal ela é só sua.
Na verdade a regra da discrição (IIb) é importante neste ponto, já que reserva determinadas condutas a determinados momentos. Para manter a decência da faceta pública de um homem, este deve adotar um modelo de conduta não-agressivo para os outros, deve afastar daqueles que o cercam sua sexualidade. Forjar uma naturalidade, que na verdade significa forjar uma sexualidade por meio de papéis e esteriótipos heteronormativos*.
O amor secreto então pressupõe a existência de uma conduta uniforme, que nega sistematicamente as verdadeiras vontades do indivíduo.
*Por heteronormatividade entenda-se o conjunto de práticas de conduta e procedimentos impostos segundo um parâmetro normativo heterossexual de distinção sexual. O conceito de heteronormatividade em alguma medida relaciona-se também ao sexismo, já que pressupõe papéis distintos para os gêneros; no que tange ao nosso ponto, espera-se de um homem afeminado, por exemplo, que adote uma posição -inferior- feminina (seja passivo e sensível, por exemplo).
V
Odeie os afeminados.
Como visto em IV, você deve adotar um modelo de conduta para se afastar de uma possível associação alheia da sua imagem com um status prejudicial de homossexual.
(a) Faz parte desse modelo não apenas a negação da própria sexualidade, mas também a necessidade de desqualificar* a própria modalidade de sexualidade. É de bom tom.
(b) Você não precisa adotar uma conduta afeminada, afinal você já adquiriu uma capacidade de negação das condutas externas ao padrão (ou acha que adquiriu) durante o processo de aquisição de um papel uniforme.
Logo, você não tem por que respeitar aqueles que não conseguiram rejeitar seus sentimentos em prol de um status social razoável; eles estão abaixo de você na pirâmide social.
*Aqui falo de humilhação pública.
VI
Apresente conduta homossexual apenas em ambientes especializados. Como mais ou menos foi tratado em IIb, a existência de um momento de ação permitido (um desdobramento da distinção intrínseca na regra da distinção), isto é, um instante, um aqui e agora, nos faz pensar em um modelo celular.
Aqui, células são os lugares onde se permite viver a sexualidade com segurança*. Elas podem assumir vários formatos (desde bairros nobres e globais, passando por ruas e encontros, shoppings e galerias, baladas e bares, cinemas e casas noturnas, até parques e banheiros públicos), podem constituir um tecido (que quase nunca é coeso, compõe sobre a cidade um punhado de retalhos espalhados -ou tristemente centralizados) e, se adotada em larga escala por amantes secretos, tende a se retroalimentar de forma a legitimar temporalmente a lógica da apartação entre orientações sexuais.
Você não deve ter orgulho apenas de ser discreto, e sim também de ter hora e lugar para amar e fomentar a perpetuação dos fatores que te obrigam a praticar o amor secreto indiretamente.
*Tal segurança é relativa: existem lugares mais ou menos seguros; indivíduos diferentes classificam lugares diferentes quanto à segurança conforme a percepção individual e a situação psicológica.
VII
Seja uma pessoa normal.
Se possível tenha uma esposa, uma religião (por mais desconforto que isso possa causar, você certamente encontrará, segundo uma leitura pessoal da sua religião, a legitimação da prática do amor secreto e a absolvição da hipocrisia, da traição, do preconceito etc, enfim, dos males por você praticados), tenha filhos (e ensine-os a ser heterossexuais) e viva uma vida em que você possa ser estimulado a odiar a própria sexualidade maligna de forma a legitimar seu amor secreto.
Ria dos afeminados da televisão -e fora dela!-, goste de coisas masculinas (como futebol e carros), enfim, aja como a pessoa que você quer ser publicamente.
VIII
Este manual buscou em linhas gerais traçar métodos de conduta baseados na regra da distinção (IIb) e situados em um elemento impessoal e desenredado de implicações históricas precedentes (isto é, alienado dos processos de busca por emancipação social dos homossexuais; I). Espero ter ajudado dando este pequeno suporte para que você se adapte a este mundo (que, como é muito injusto, não se adaptará a você jamais).
No caso de desmascaramento, regras alternativas podem -e devem- ser utilizadas, mas elas estariam fora do alcance deste manual. Penso, entretanto, que seguindo estritamente a filosofia desta cartilha, adotando uma conduta normal (IV, V, VI e VII) e previnindo-se dos riscos (IIc e III), dificilmente a lógica do amor secreto será ferida.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Estudo#1 (fluxo)
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Pretérito Imperfeito ou Cantiga de Ninar#1
domingo, 9 de maio de 2010
Ficção#1
-Mentiu?
-Não, não que eu menti. É que eu faço dezessete depois de amanhã.
-E você fala em amor ainda?
-Amor? E o que você sabe? Você que não sabe o que é amor!
-Olha aqui! Se isto não é amor é o quê?
-Eu falei, não vai rolar nada contigo.
-Por que eu sou velho?
-Por que você não me dá tesão.
-Mas não foi você que me falou em amor?
-Eu só amo pessoas pelas quais eu posso sentir tesão.
-Isso aí não é amor!
-É o quê?
-É... Sei lá! Não é amor! É perversão.
-Ah! Cala a boca e vai pra igreja!
-Ah! Me dá uma chance.
-Pára!
-É sério!
-Boa noite, amigo!
Ando-ando-ando-ando-ando-ando... As horas -dezessete- passam, passam, passam, mas ele não as sente. Só. Depois.
Em um corrimão debruça, vê os carros passando-ando-ando, sonha acordado-dado-dado com o amor-irreversível da porta das manhãs-nada-sãs. Olha um nada de boné, né? e segue dado o flerte, este. Maldito este. Pensa-densamente.
-Quem sabe?
Mas então a cena se repete tête-à-tête.
-Curte o quê?
Chove a garoa arrogante. Por que não resta nada de inútil na cidade?
"As pessoas tão felizes com pipoca e televisão,
e eu? Ai de mim! Você não quer meu coração?"
-Como assim, curte o quê?
-Passivo, ativo, relativo?
-Camarada, acho que você 'tá falando com a pessoa errada.
Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite... Cansado de tão boas.
Será que o amor existe na cidade?
A garoa arrogante não cansa de molhar os meus pés.
"Uma garoa cansada, maníaca e incoveniente.
Como eu."
-Amor? Como você tem coragem de chamar isto de amor?
domingo, 2 de maio de 2010
Finalmente, uma resposta digna, alguns (vários) meses depois.
quando eu subo
apartamento as dores
e a porta abre
e eu vejo as tuas cores
a noite passa
e eu me deploro submisso
à tua massa
e eu te exploro e eu te dispo
as tuas mordidas no meu pescoço
me enchem de tesão até o osso
e as tuas mãos seguras
me protegem no teu ombro
da noite obscura
que é linda e um assombro
quando eu acendo e te toco feito bicho
a gente ama, e não importa o luxo ou o lixo
(as tuas mordidas no meu pescoço...
quando deita e me beija o meu moço)
e eu durmo sem pensar qualquer verdade
porque sei que estou vivendo a eternidade
21 9 2009
eu assumo
apartamento as dores vis
'inda subo
até o andar número xis
calo a boca
abro a porta, 'cê me diz
"tira a roupa"
eu fiz isso mas não quis
olho a Lua
da varanda do meu ser
pego a sua
mão sem sequer responder
mais teus beijos
teus gemidos de prazer
(o teu queixo
me roçando pra valer)
meia noite
tic tac eu-blasé
"grande sorte"
e o culpado é você
ah! eu deixo
um suspiro sem querer
cai o eixo
que sustenta o meu viver
24 4 2010
terça-feira, 27 de abril de 2010
Texto das Manhãs
Axiomas à parte, sento, eu não sento, não estou certo se imediatamente. A espera não importa, sento, afinal. Um texto do antropólogo das dádivas passeia indeciso entre minha atenção, que trafega intermitentemente pelo cenário da cidade, e entre a falta dela também. A caneta, que podia ser vermelha, verde, cinza, preta ou marrom, afinal essas são as cores das minhas canetas -muito embora eu bem saiba que as dos textos de Antropologia são a cinza, a vermelha e a verde-, grifava na proporção de tempo 1:3, onde 3 é igual aos momentos de pausa e reflexão do nada.
Chove, pinga, esquenta, o ônibus é uma verdadeira sauna, e alguém atrás de mim ainda tem coragem de roncar -um ronco doente, o ronco da cidade, que não tem coragem de dormir, somatiza, somatiza, somatiza...
Penso no amor irreversível, no amor marginal, no amor suicida, esses amores da cidade, olho para baixo, e a caneta -lembrei, era a vermelha!- mancha de sangue toda a obra do etnógrafo, só resta no rodapé uma esperança intacta, mas a tradução literal é provavelmente a seguinte: Tanto Maru dá, quanto Maru toma, e isso é certo, certo. (Maru é o deus da guerra e da justiça.) 15. Bucher 1893: 73, percebeu esses fenômenos econômicos, mas subestimou sua importância ao reduzi-los à hospitalidade.
Alguém com o perfume dos dias repugna a tinta assassina, na metropolitana porta das manhãs. Mas o meu amor irreversível derramou-se sobre a ciência dos homens. O Cemitério da Consolação dança sobre os olhos cansados e muito vivos dos paulistanos.
Um cardume de estrelas se afasta, quer a liberdade.
domingo, 4 de abril de 2010
Eu quis escrever este texto #1
Mais uma vez um filme realista contemporâneo brasileiro -nada tem me deixado mais eufórico do que notar como esses novos diretores conseguem dissecar tão bem a mente do brasileiro com tanta realidade-, embora todos nós saibamos que o realismo, no que tange à arte, é um modelo ideal. Chamava "Hotel Atlântico". Assisti em uma sala chamada BNDES, patrocinada por várias empresas muito ricas e preocupadas em abater o imposto de renda.
O último filme brasileiro que eu havia visto antes desse -que por sinal era também um filme realista e contemporâneo- chamava "Os Inquilinos", em cartaz no HSBC Belas Artes. Indico os filmes, mas este texto não tem a pretensão de ser uma resenha -pelo menos uma pretensão consciente.
Georg Simmel faz distinção, em seu texto "As grandes cidades e a vida do espírito", entre a conduta dos indivíduos em cidades pequenas e cidades grandes. Na primeira imperam as relações pessoais entre os indivíduos, na segunda o indivíduo adquire relativa repulsa às relações pessoais, limitando seu convívio social a círculos restritos. Logo, o morador da cidade pequena possuiria, segundo os termos do autor, ânimo, e o da cidade, pelo excesso de estímulos e adaptações necessárias, seria indiferente (o que Simmel chama de caráter blasé).
Nesse sentido eu acredito que "Hotel Atlântico" e "Os Inquilinos" sejam duas películas onde esses temas são muito bem explorados -temas clássicos, tendo em vista que Simmel em seu texto se refere a um contexto específico: senão a Alemanha, simplesmente os países europeus recém-industrializados, no fim do século XIX, início do XX.
No primeiro, uma personagem completamente indiferente a tudo que lhe acontece -Ele só toma decisões para que o enredo do filme possa se desenvolver-, sem nome, representando um ator -o que também é bastante significativo- viaja por cidades cada vez mais ao interior. O resultado é um conflito entre o marcante caráter blasé da personagem e a necessidade de se impor que o convívio na cidade pequena obriga. O estudo feito a respeito do comportamento das pessoas e das relações de poder dentro dessa sociedade interiorana brasileira semi-feudal é fantástico.
O segundo filme também traz uma análise bem significativa a respeito do cidadão oprimido na cidade grande. Uma família de classe média baixa (nem rica nem pobre) em um bairro periférico de São Paulo se vê oprimida em sua própria comunidade. Todos os meios de comunicação, e mesmo a própria opinião pública influenciam seriamente a conduta da família, que se sente ameaçada quando inquilinos muito suspeitos se hospedam no vizinho ao lado. O resultado é um enclausuramento progressivo dentro da própria casa, onde os integrantes da família passam a nutrir um certo sentimento de ódio pelos novos vizinhos. A lógica do medo na cabeça do cidadão de classe média paulistano é muito bem trabalhada, e nos remete a um debate que não necessariamente está de total acordo com Simmel, mas que de alguma forma tem alguma relação: por que o morador da cidade grande se protege das relações pessoais? tem a ver com o caráter blasé ou é simplesmente um dispositivo de auto-proteção?
Ando cada vez mais preocupado com a minha própria maneira de ver as coisas. Será que o preço que nós pagamos por vivermos em grandes cidades, ou mesmo o preço que eu pago por ter optado por um curso onde o neutro tem um papel tão relevante, seja a completa indiferença em relação às coisas que nos cercam? Antes eu considerava a frieza não apenas como algo necessário, mas como um aspecto positivo. Será que eu estava certo? Será que o futuro do indivíduo moderno da cidade é estar indiferente a todos os sentimentos e fatos tão caros aos interioranos, tais como a morte, o medo, o amor, a doença, o sexo e o inesperado?
