domingo, 3 de janeiro de 2010

me perdoa por ter encostado o dedo no teu rancor guardado
estou alérgico, alérgico, alérgico, alérgico estou
eu esbarro nas cores que me atraem --culpa o magnetismo, preciso ser teu amigo
mas que pena que você não quis, senhor parede
só perdeu a única oportunidade da sua vida de ser feliz ao lado de alguém

28 12 2009



decolar toda manhã.

livros deitados no chão, que não contam histórias a mais ninguém. flores mentirosas na parede. o martelo ali na escrivaninha fora do meu alcance não para de martelar meu coração. uma alegria sapeca está jogada no canto, junto com as roupas suadas de cansaço. diz assim em letras ilegíveis que "eu estou entre o guidão e o freio, você não é bonito mas também não é feio, o que me importa é que você não é uma porta". vento mentiroso do meu ventilador mutilado, porque não ventila dor nenhuma. mas hoje a dor foi passear, e é sobre uma nuvem -que, diga-se de passagem, se parece muito com um travesseiro- que escrevo estas memórias esquecidas. sob a vitrola envenenada, o que resta de uma rena de natal luta contra as arânhas nômades. estalactites de tinta branca penetram na minha cabeça, e o martelo continuava martelando meu coração listrado. a dor bate na porta mas eu aumento o volume do rádio. as flores mentirosas crescem na parede até se tornarem verdadeiras. na poeira setentrional do meu ser, uma saudade suspira. a Santa Ceia brinda a chuva sobre a cristaleira -que abriga qualquer coisa, menos cristais. (Pedro olha com olhos de cobiça para o meu teclado, mas se contenta com o ronco das tomadas.) o relógio me grita que a noite está aqui. eu entendo, ergo meus olhos para o além e sonho acordado, com um sorriso mais longo que o braço da floresta, porque amanhã vai ser outro dia.

28 12 2009



Amor Irreversível. (II)

sentada em um piano em uma praça, a Juventude me contou a história do meu amor: que começa com olhos brilhantes e um sorriso violento, passa bolinando as sombras, assombrando o pântano e entra em um apartamento onde será celebrada a vida, um altar de falos e garrafas de aguardente, passa pela cozinha e prepara um destilado, e então o sofá -que pela mágica do destino transforma-se depois em uma cama-, com uma intragável trilha sonora de techno e gemidos de dissimulação importada (a mais cara do mercado), tecem o ambiente inenarravelmente propício para o encontro entre uma garganta sedenta e aqueles valiosos (não muitos, não obstante bonitos) centímetros de rola, joga sensualmente na cozinha, vomita lamentos roxos, cheirando a saudade, catarro, vodka e fanta uva, pensa no passado, liga pro passado, dorme no chão carente e se despede na manhã polvilhada, branca e inchada, com a promessa de outras noites de amor suicida.

29 12 2009



Poema.

miragem, que cristalizada torna-se nada.
meu peito não tem voz para berrar.
a dor, como uma gota de suor perdida pingando da minha axila, só eu a sinto.
meu ventilador esteve ligado o dia inteiro, mas desta vez não funcionou, estéril.
é contar segundos, nem vou perceber quando o sorriso que há em mim sufocar isto que agora me sufoca.
é a graça de viver. a certeza de que as coisas morrem.
ai. se. não.

31 12 2009

Um comentário:

merdas de Potato disse...

amor irreversível(II)
gostei demais