sexta-feira, 16 de julho de 2010

Canção do Asfalto ou Canção do Assalto

Era uma subida, não muito íngreme, e na rua recém-reasfaltada, Heloísa, que é o nome da minha bike, e eu passeávamos. Não me interessava chegar mais cedo ou mais tarde em casa, desde que as minhas preocupações pudessem ser dissolvidas por inteiro na brisa da paulistana noite sem estrelas. Como eu ia explicar que o meu terceiro aparelho celular quebrara, como os outros dois, para os meus responsáveis? Mas o problema logo se resolveria.
Para converter-se em outro.
Eram duas horas da manhã. A postura que eu assumo em relação ao mundo, eu não quero mudá-la. Digo exatamento o mesmo para todas as pessoas quando elas me dão sermão quando pinto o cabelo de verde, quando saio de mãos dadas com o meu namorado, quando atravesso a cidade com Heloísa, quando saio para andar de bike às duas da manhã: eu estou disposto a assumir o risco para poder me sentir mais livre. E, também por enquanto, sou inexorável quanto a esta ideologia. Foi o que restou de mim depois de ler Raoul Vaneigem.
E o risco tornou-se efetivo quando, naquela subida, um sujeito, na direção oposta, ou seja, na descida, parou a moto, desceu e me encarou com uma cara odiosa. Entendi absolutamente tudo na hora. Fui em sua direção e pretendi acelerar Heloísa, mas na pré-dispersão em que me encontrava, e também pelo fato de eu estar em uma subida, o meu plano engasgou, de forma que o meu grito de "filho da puta" logo cessou quando o novo amigo me derrubou da bicicleta, com uma força que só a abstinência pode produzir.
Eu bem poderia ter dado meia volta. Mas o único pensamento que o meu reflexo considerou foi o de possivelmente destruir meu oponente, o que não aconteceu.
[A bem da verdade pode-se pensar no oposto.]
Era como se o meu inconsciente ordenasse
CORRA! SEJA ASSALTADO!!
Na queda quebrei um dente.
Irreversivelmente.
Heloísa também zuou a clavícula, pobrezinha, não tinha nada a ver com isso.
Sobre mim, na calçada da vida, me asfixiando com uma chave de braço, ordenou-me que sacasse o celular. Obviamente eu não o fiz (i) porque estava imobilizado e também porque (ii) estava asfixiado. Felizmente (sim, porque tudo aconteceu felizmente) ele pegou o celular, que estava com o visor quebrado a quinze minutos (o que é uma pena, porque o dispêndio de sua empreitada acabara sendo infrutífero) e se foi em seu alazão em busca da cocaína sonhada.
Um babaca! Achou que ia conseguir assaltar alguém às duas horas da manhã de um domingo. Conseguiu só porque tem muita sorte (ou felizmente não, afinal furtou um aparelho que não valia naquele instante um terço do que quando fora me dado).
Recompus-me na velocidade que consegui.
Levantei-me mais ou menos.
Lesado.
Onde está o meu dente?
A liberdade levou.

Levantei Heloísa e rumei em direção a um pouco mais de satisfação pessoal.

Um comentário:

mad disse...

fico sentido mais tão mais engraçado seu dente livre e liberto de sua boca onde viveria para sempre!