Deve acontecer na cidade sem estrelas, e absolutamente ao acaso.
A cena é composta por um vagão de trem razoavelmente vazio, em um metrô de um bairro médio de emergentes, também um polo social da região. Acontece no limiar entre as quinze e as dezesseis horas, em um domingo mais ou menos frio em medida nublado.
Personagens:
o homofóbico militante gay: roupas escuras, calça, blusa de manga comprida deixando à mostra algumas tatuagens (uma delas lembra uma cruz), boné, provavelmente tênis, cabelo curto ma non troppo, alargador, óculos sem contorno de armação em volta das lentes, magro, cara de louco;
o bissexual discreto: barba por fazer, inchado, óculos de armação unissex, cabelo curto ma non troppo, camiseta preta de manga comprida, calça jeans, tênis, segurando uma folha do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus, que tinha cruzadinhas (o miolo do jornal havia sido recém-jogado fora, por motivos evidentes);
o homossexual havaiano: camisa florida, bermuda xadrez marrom com azul claro, chinelo, mais inchado que o homofóbico gay mas menos inchado que o bissexual discreto, ponta do cabelo com gel descolorida e mezzo desbotada mezzo violeta versus rosa.
Prólogo
O bissexual discreto senta em um banco duplo paralelo ao do metrô, enquanto o homossexual havaiano no banco duplo perpendicular. O homofóbico gay militante senta no banco duplo perpendicular que forma uma linha contínua com o banco perpendicular em que está sentado o homossexual havaiano. As portas fecham. O metrô começa a andar, deixando à mostra a pequena ponte estaiada prestes a ser inaugurada.
O homofóbico gay militante começa a encarar o bissexual discreto. Olha fixamente para ele, em uma expressão crescente que aparentemente misturava medo, perplexidade, ódio e vários outros sentimentos mistos. Ainda não estava evidente que de fato ele olhava para o bissexual discreto, que apenas achava graça.
Tem início o diálogo.
O Diálogo
HH: I guess, he's with a fork, and he's going to start killing us.
Risos.
O homofóbico gay militante se levanta põe o dedo em riste, acusando o bissexual discreto. Quando fala, fala gravemente, com muito sentimento, misturando alerta com ameaça, e com assustador fôlego. O primeiro clímax.
HGM: Não faz a'loca! Não faz a'loca.
Acusa o bissexual discreto mais um tempo, fazendo ameaças e também com sentido de ofensa. Vai se afastando de repente em passos largos e desajeitados, e também hesitantes e chega até próximo do fim do vagão em pouco tempo. Entretanto, o homossexual havaiano não parava de provocá-lo.
HH: Ei, cara, vamos conversar, vamos conversar! Vamos bater um papo! [E quando ele se afasta,] Olha só, mas que homem nós temos aqui!
Enfurecido com a última provocação, o homofóbico gay militante volta rapidamente, enquanto o homossexual havaiano levanta, e posteriormente o bissexual discreto. Enquanto o primeiro, peitando reciprocamente o segundo (de forma que este notou o doce hálito daquele) continua a praguejar, e o terceiro se esforça em previnir qualquer contato físico apartando os dois primeiros, o segundo consegue engendrar uma conversa mais ou menos lógica no sentido narrativo, que consiste no segundo clímax da peça.
HH: Cara, vamo bater um papinho. A gente desce na próxima estação e vai conversar com os policiais.
HGM: Pra quê?
HH: Porque você está me discriminando.
HGM, surpreendemente, em uma voz mais ou menos audível: Você acha que eu não sou veado igual a você?
Chegavam à seguida estação. Encaminhavam-se para a porta de saída, as vítimas insistentes para que o louco (como se as próprias vítimas fossem sãs) com elas descesse para que a conversa chegasse de fato em termos mais sérios e efetivos -não necessariamente graves. A porta se abre, o homossexual havaiano desce, o homofóbico gay militante fica do lado de dentro mas próximo do limite da porta para o lado de fora, e o bissexual discreto entre o chão da plataforma e o trem. E é este último que engendra o terceiro grande clímax (logo, as três principais personagens da peça são suas três protagonistas).
BD, acusando: Você está preso! Eu como cidadão estou te prendendo por discriminação!
A porta apita. O bissexual discreto tenta trazê-lo para a plataforma, mas não conseguindo, empurra o homofóbico gay militante, que neste ato arranca do primeiro o resto do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus que continha as cruzadinhas.
A porta se fecha. O bissexual discreto mostra-lhe o dedo do meio, o homossexual havaiano manda-lhe um beijo, o homofóbico gay militante continua olhando odiosamente através do vidro da porta do metrô.
Epílogo
HH: Gente, que cara loucão, velho!
BD: Eu prendi ele!
Risos.

Um comentário:
asdjlasdçlaksd eu amei!
e sempre pego o jornal da igreja universal do reino de Deus pra fazer as cruzadinhas.
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