segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Amor Irreversível #algo_como_o_sétimo_ou_o_primeiro

I
Pela primeira vez, desde que li Raoul Vaneigem e conheci meu primeiro relacionamento de prezado afeto, no fim de 2008, estou revendo -com tons de irreversível futuro- minha filosofia de relacionamento.
Na última semana tive uma experiência que me fez rever, revisitar e reavaliar todos os meus relacionamentos (enfim, toda a história dessa dimensão da minha vida). Em uma quarta-feira, dia 12 deste janeiro irreversível, no meio dos meus dezoito anos, decidi terminar um namoro que já transbordava dos sete meses, culpado, mas determinado. Muitos motivos. Falta de romantismo recíproca, déficit na prática sexual, vontade incontrolável de ter relacionamentos extra-contratuais, estresse desnecessário, descumprimento bilateral de expectativas, discussões desnecessárias, brigas etc. Interpreto de forma mais resumida dois pontos como centrais para essa minha decisão: o problema das expectativas dentro de um contrato frágil e o meu vício em um relacionamento espetacular, esquecendo algo essencial, a atração pelo meu namorado; problemas estruturais e cansaço, em suma.
Cruelmente, no dia seguinte eu passei uma tarde maravilhosa, completamente livre, satisfeito, aliviado, apenas um pouco culpado (culpa que não resistiu mais do que o passar daquela quinta-feira). Havia entretanto algo que, acho eu, contribuía para esse incrível e eficaz esquecimento ser catapultado. É estranho lidar com palavras, mas nós humanos fazemos isso. Não sei até que ponto posso errar ou acertar. Mas se eu fosse chutar, chutaria que estava apaixonado.
Eu me apaixonei pela pessoa mais linda do mundo. À primeira vista isso pareceria óbvio, mas a gente sabe na prática que não é assim. Qual é a nossa chance em relação à pessoa mais bonita do mundo? Aliás que utilidade essa pessoa tem se eu a possuo? Enfim, é um dado. Passei o fim de semana inteiro aflito pensando na hipótese de desfrutar de uma relação com essa pessoa. Segunda-feira saí com ela e uma amiga (espécie de prerrogativa para o bom senso). Terça mais uma vez, e quando nossa amiga se foi continuamos -por conta própria- a conversar, enquanto as horas do dia findavam.
O moço só havia conhecido relacionamentos com mulheres (embora estes mesmos tenham sido poucos). Referíamo-nos a ele, então, como heterossexual -ainda que ele mesmo não gostasse de se definir. Algo que inclusive aumentava a minha aflição, já que, por definição, heterossexuais masculinos não têm relações afetivo-sexuais com homens.
Havia outra coisa que me afligia em muito: o moço era belo. Em excesso, como sugeri em uma oração-preâmbulo; era fisicamente belo, com a voz mais bela, e bela mente sensível e inteligente. Isso é agora uma certeza absoluta para mim, foi naquele momento a minha maior intuição.
Mas, também em termos de intuição, me deixei guiar -e ele também, creio- por olhares e toques mais ou menos demorados, por gentilezas mútuas, favores exclusivos, charme.
Como eu o quis.
Como me quis. Bom, não o sei. O sonho. O crio e recrio mentalmente. O dia inteiro.
Através das horas.


II
Depois do Fran's Café andamos mais pela escura e paulistana noite sem estrelas. Me acompanhou até o metrô, mas não conseguimos nos deixar. No ponto de ônibus sugeri-lhe a conversa-aquela. Conversamos ininterruptamente durante meia hora apenas sobre a hipótese de eu lhe dizer aquilo que ele supunha saber.
Enfim.
Aconteceu.
-Lucas, eu estou afim de você. E gostaria que você, se possível, quando se sentir confortável, me respondesse duas perguntas. Se você ficaria comigo, e se você quer ficar comigo.
Um texto que eu havia calculado com uma semana de antecedência. Deu certo, porque ele aceitou.

No fim de tarde do dia seguinte à quarta-feira (ironicamente uma quarta-feira!) estivemos no Fran's Café conversando sobre sua, minha e nossa vida -natimorta.
Mas foi uma experiência de quase-morte. Na real, uma experiência de morte! E de renascimento.
Enfim, a experiência havia sido maravilhosa. Mas, longe de uma barreira de gênero, sequer uma discrepância da ordem da beleza, simplesmente havia um terceiro elemento; uma possível incapacidade para expressar determinados sentimentos dentro de uma relação a dois, o que impossibilitaria a recíproca e, então, o relacionamento. Algo para o que havia me alertado minutos antes de me beijar. E me beijou. Disse-lhe de forma a encorajá-lo -não sei se funcionou- que eu pagava pra ver, que estava assumindo um risco que é o risco que assumo em todos os relacionamentos. Disse-lhe:
-Eu só sei que eu quero ficar muito com você.
E ele disse:
-Tendo em vista esse argumento, não me resta opção senão...

Enfim, estávamos no Fran's Café, eu na maior ressaca de amor que tive a oportunidade de viver. Senão a única (digna), naquele fim-de-tarde-quinta-feira. Apesar de tudo, ele não conseguiria responder na mesma moeda que eu nossa troca de afetos. Essa disposição era inclusive uma intuição pela qual se guiava antes de termos ficado. Parece que eu fui a prova que ele precisava para ter certeza de que, não o gênero, mas simplesmente o relacionamento em si que fosse o problema.

Nos dias seguintes acabei percebendo que eu seria muito idiota se eu o ignorasse no futuro. Me sinto um igual perto dele.
Mas os dias ainda não passaram.


III
Todos os meus relacionamentos, nocivos e não nocivos, abertos e fechados, fixos e voláteis, de armário e de rua, duradouros e natimortos, todos esses tipos, que tive a oportunidade de conhecer, sinceramente representaram na minha história tanto quanto representam nas narrativas de ficção romântica dos livros em voga para o senso comum na última estação.
Depois de terça, quarta e quinta, posso dizer que uma intuição minha foi confirmada; de que a estrutura de um relacionamento é secundária. Não é importante de fato se é uma ficada, uma trepada, um relacionamento aberto, namoro, casamento. O mais crucial é estar amando. E a questão é: como vou amar plenamente alguém que não conheço?
Tudo o que tive, e esta epifania aconteceu no meio de uma enxurrada de lágrimas na noite da quinta-feira, até o precedente ralacionamento, havia sido pautado primeiramente pela estrutura da relação, jamais simplesmente pela paixão mútua, pelo estar de fato afim, pelo simples conhecimento da pessoa a qual se admira, pelo fato de não haver uma contemplação plena de determinada pessoa -algo que, fatalmente, mesmo eu conhecendo melhor meus parceiros mais duradouros, jamais aconteceu.
Esse reconhecimento mútuo foi importante para mim, porque me deu mais consciência do que eu mesmo represento. Ficar com uma pessoa que eu admiro há semanas, representa também de alguma forma um certo tipo de recíproca: os dias vão passando, a gente vai se conhecendo, e se mesmo os meus posicionamentos (para a maior parte das pessoas ingênuos ou imaturos) são reconhecidos e lidos de forma coerente com as minhas atitudes, e isso não é um impecílio para a relação, significa que a pessoa do outro lado justamente está lá porque quer e vai fundo porque tem real vontade. Isso não é uma regra geral, mas creio que com o moço foi assim.
Simplesmente, já disse, porque me senti um igual perto dele. Porque notei nele algo que persigo e que em poucas vezes sondei nas pessoas com que convivo (e é como se pela primeira vez em São Paulo eu tivesse certeza disso, o que me dá mais força para continuar vivendo como sei viver): a existência de um projeto coeso e lógico pautado pela busca de conhecimento das próprias expectativas e pela interpretação das próprias expectativas (interpretação e lógica: instrumentos individuais). Ou seja, admiro o Lucas porque o considero uma unidade nítida e precisamente delimitada, que não sabe viver sem sê-lo. Me sinto menos só, persigo algo que pareça este projeto, algo que não vejo na maior parte das pessoas.

Não sei se me atreverei -salvo crises de carência ou de libido, não sei vaticinar o futuro- (tão logo) me dar o luxo de me relacionar com pessoas que realmente não me acrescentem. De superficial já conheço tudo. Estou apaixonado pela ideia do nada-rígido, estou apaixonado pela ideia de encontrar pessoas-deuses, esses fenômenos da cidade que, por quedarem na cidade, são dificílimos de serem captados. A multidão gera essas aberrações, mas também as guarda. E viverei assim, em busca de iguais.

Não mais a determinação "quero apenas ficar com você e ver o que acontece", mas simplesmente a lateral -e óbvia- "por que eu deveria ficar com alguém hoje, e por que esse alguém seria você?"; simplesmente o projeto de saber exatamente o que eu quero, quando e por quê; essas expectativas. E fica muito mais bonito com segurança.
Algo que, depois de descobrir que eu não sou mais o único único em São Paulo, se tornou sensivelmente mais fácil.
E eu devo isso tudo ao grande amor irreversível da minha vida.
Viver é um barato.

2312011

Um comentário:

merdas de Potato disse...

eu sinto um cheiro de água limpa,mesmo que ela nao tenha cheiro,sabe de uma coisa,viver é um barato!