sábado, 9 de janeiro de 2010

Todas as contraculturas apontam para a defesa da hegemonia do self-made man.

Discute-se que o principal problema da esquerda atual é a hiperfragmentação dos movimentos sociais. Isso significa que cada vez mais existem grupos interessados em problemas específicos e pontuais em relação à suas constituições, e em consequência disso, menos grupos interessados em resistir simplesmente ao sistema vigente levantando uma bandeira. Ou seja, no final das contas temos como balanço o seguinte: um mosaico de grupos minoritários que visam combater o sistema defendendo ideologias egoístas (não é muito difícil falar aqui de ego, já que os grupos acabam assumindo identidades), o que nada mais é reflexo da necessidade de se pôr em defesa individualmente que a ideologia do self-made man criou, isto é, a versão moderna e revisitada pela sociologia eugenista do senso de sobrevivência -que não passa de história. Ou seja, o capitalismo triunfa impregnando de medo todos os homens, impedindo que os insatisfeitos com a ordem neoliberal dêem as mãos e assim façam verão.
Mas o leitor questionará o porquê de tanto marxismo fora de época. Eu explico! É que ontem eu fui na Rua Augusta, pólo pluricultural daqui desta cidade sem estrelas chamada São Paulo, e nada mais vi lá do que um sem-número de grupos organizados feito bolhas, muitos com várias intersecções, claro, porém todos preocupados em defender um estilo (aparentemente apolítico, mas como a apolítica é utópica... vamos simplesmente fingir que há um mínimo de consistência no meio daqueles adolescentes -todos adolescentes, apesar da idade- deficitários metidos a ingleses, junkies, punks, rockers, skaters, emos, "alternativos", vida loka, hippies, amantes livres, anarquistas etc), apenas um estilo. Apenas sim, e prejudicialmente apenas. Prejudicialmente apenas porque fadando um movimento, como uma tribo urbana, a apenas um conjunto de esteriótipos e imagens, seus integrantes estarão se rendendo à sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde as relações sociais se dão justamente por imagens, e nessa defesa absurda da aparência, diz também o Raoul Vaneigem, é que consiste o segredo da infelicidade tão bem cultivado pelo capitalismo no coração de cada um dos homens ocidentais.
Vejo como mecanismo decidido de resistência à ordem o cultivo de um estilo de vida automutilador e proibido. Não estou aqui em defesa do cristianismo, por isso não qualifico tais condutas como desregradoras ou pervertidas. Mas há de se prestar muito bem atenção no que essas ações significam. Apelar para discursos ofensivos e escandalosos, o uso clandestino de drogas ilícitas, mudanças corporais estéticas e o amor livre podem ser sim maneiras de se resistir tanto à moral quanto resistir à lei. Só que, desculpem-me pela franqueza, acho que o suspeito conforto que todas essas ações "proporcionam" deixaram há muito de serem agentes subvertores e hoje só estão cumprindo essa ideologia hedonista que a Mídia tanto defende.
O tratamento que se dá ao corpo, incluindo o uso de anabolizantes, e o consumo desenfreado de bebidas e cigarros por menores de idade, e de alucinógenos ilegais por todas as faixas etárias, são condutas condenadas pelo Estado nacional, mas legitimadas, institucionalizadas e incentivadas pelo Estado hedonista do capital (mais lubrificante no processo de alienação na máquina social, e mais uma alavanca no capital financeiro, mais mercados rentáveis no sistema que gira em torno do dinheiro, e não da vida).
O intuito do texto não era ser um manifesto comunista, e sim uma defesa da tese de que as contraculturas deixaram de ser contra há muito tempo, e hoje apenas sustentam uma imagem de rebeldia que é inclusive defendida nos comerciais da televisão. Não quero generalizar, fiquei descontente com o que vi na Rua Augusta. Sei de uma galera que, embora não seja perfeita -a incompatibilidade com o Outro oprimido, que embora seja também oprimido como eu também é o Outro, é a principal dessas falhas-, dentro da minha visão realista e arrogante, é bastante engajada e atua notavelmente aqui em São Paulo (mesmo que algumas propostas sejam bobas, temos os vegans, os freegans, os straight edges compromissados, os vários grupos de socialistas, os humanistas, os anarquistas ontológicos, a galera da Bicicletada etc).

3 comentários:

Victor Hugo disse...

Se me fosse permitido, eu enviaria tal texto para o jornal mais próximo possível. Digno de aplausos. Sem palavras para descrever quão bom foi a seleção de palavras e seguimento da linha de raciocínio. Quando crescer quero ser como você! *-*

Doryan disse...

Seus olhos ficaram secos. Relato interessante sobre a Rua Augusta, inteiramente verdade. Tem tanta 'coisa' lá, que me sinto deslocado.

renato sereno disse...

isso significa que a contracultura já está sendo arrebanhada, quando poderíamos dizer que todo esse movimento conseguiu alguma coisa, atingiu algum objetivo.
deixando mais claro: como vc disse, até o uso ilícito de drogas é apoiado no sistema do capital, nada mais disso é subversivo - nesse sentido, a contracultura encontrou uma legitimação...
no entanto, isso aconteceu inconscientemente, mecanicamente... ninguém percebeu isso.