quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Deixa eu dizer.

Eu olhei pra este céu -que era estrelado-, e ele nublou de nojo de mim. Perguntei-lhe o porquê de tanta repulsa, e ele apenas me respondeu com uma garoa antipática que era simplesmente pelo fato de eu existir que ele agia daquela maneira. Bradei-lhe raivoso que não me fizesse mais penar, ao que o estúpido respondeu com trovoadas arrogantes e prepotentes, cujo estrondo provocou em mim um efeito nauseante.



As coisas me abandonaram. Pensei nesta noite que as coisas simplesmente deixaram de se apaixonar por mim, e passaram a simplesmente não se apaixonar mais, decididas a se filiar a uma ideologia maldita, de que o não-envolver-se é a receita ideal para quem não quer sofrimento. Mas quem nunca se envolveu em vão jamais saberá o significado de "sofrimento".
A aranha chamada Samanta, que mora na janela do banheiro, falou pra mim que não se importa não, que nunca vai se casar nem nada. Oras, me casar eu também não quero! Mas eu também não quero -e olha, cara Samanta, você vai me perdoar!- ficar a minha vida inteira tendo só aquelas relações super-líquidas que ela tem, porque os meus sentimentos podem não ser estáticos, mas também não são descartáveis!

[Sei que agora existe por aí uma aranha que tá brabinha, sapateando de raiva, mas é a mais pura verdade! A Sammy não sabe o que é amor!]

Vejo cada vez mais pessoas interessadas em defender uma ideologia pró-galinhagem ou pró-casamento, como se não houvesse uma transição entre esses dois universos, como se não se pudesse sustentar relações que não pertençam a nenhum desses dois pólos. Penso em um mundo utópico no qual as pessoas amem conforme a intensidade dos relacionamentos dos quais elas fazem parte. O que eu vejo hoje é principalmente pessoas interessadas em não sustentar de forma alguma relações, ou então pessoas encantadas com o sonho -tão, por Nietzsche, ultrapassado- de encontrar um príncipe encantado, pra casar bonitinho, e o escambau.
Nada, em absoluto, declaradamente contra as relações efêmeras ou as duradouras; minha crítica aqui é contra a ideologia que vicia os indivíduos, que sonham primeiro com o tipo de relação que querem ter, pra depois selecionarem os parceiros. Mas isso na verdade é uma tentativa de desabafo. Não consigo mais encontrar pessoas civilizadas para manter qualquer tipo de relação decente, seja ela instantânea ou longa, amorosa ou amigável. Não encontro tipos com os quais me apaixonar! Estou me sentindo muito frio. Talvez eu seja um puta cara arrogante.
Talvez não.
A Samanta, que é a aranha que mora no canto da janela do banheiro, e é com quem eu converso todo dia quando vou tomar banho -até o dia em que um de nós dois morrer primeiro-, me deu uma sugestão, de ir catar coquinhos, de tanto que lhe enchi a paciência de ficar falando de amores (ultra)passados. E que ótimo! Ela não foi sequer a pioneira. Tudo aqui, o disco e os postais pendurados na parede, o Vincent Guaraldi Trio, o Mário de Andrade, o meu cachorro Natalino (que eu chamo de Natan quando estou de bom humor), minhas roupas espalhadas, as lichias emboloradas dentro do tapperware branco de tampa azul e até o meu auto-retrato pendurado na parede (que consiste em dois pregos segurando duas cartolinas coladas com fita adesiva com um desenho muito tosco feito com spray preto) estão aqui me sugerindo, que se eu não parar logo de ficar me lamentando, vão todos eles embora, me deixar aqui, sozinho, pelado com o meu desassossego, juro que disseram isto!!
Agora, se o meu desassossego gosta ou não de homem, é problema dele: eu só sei é que ele não faz nem um pouco o meu estilo, e não larga do meu pé. Se alguém quiser me devolver o sossego, estou abertíssimo, vocês sabem onde eu moro, se não conseguirem me achar pelas estrelas -já que São Pedro as tirou deste céu paulistano para presentear os nova-iorquinos- é só perguntar para o mendigo lunático que está sempre dançando sobre uma caixa de concreto (não faço idéia do que seja aquilo: a caixa e o lunático), ao lado da saída do metrô Consolação -sentido centro. Não garanto que ele lhes responderá, mas o passeio pelo menos não será perdido (o ar-primeiro-mundo da Paulista nunca é um passeio perdido).
Lunático estou eu aqui, escrevendo desesperadamente, lutando contra essa minha frieza -e eu confesso, amigos: SOCORRO, JÁ NÃO SINTO NADA!! A coisa mais intensa que eu sinto agora é uma maldita dor na língua causada, suponho, por uma afta. Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 1.0.12, afta é uma pequena ulceração superficial dolorosa, observada ger. na mucosa bucal e mais raramente na mucosa genital, de causa desconhecida, com recidivas atribuídas a vírus ou fungos, desequilíbrio hormonal, problemas alimentares ou estresse, podendo apresentar-se isolada ou associada a doenças sistêmicas, isto é, afta é um saco! Mas vejamos do ponto de vista positivo: pelo menos não é uma afta genital!!

[Este texto é um exemplo do que acontece ao sujeito quando ele não está nem um pouco preocupado com concepções literárias estéticas, relacionadas à coesão, problemas de digressão, e não teve um pingo de disciplina e ascetismo na infância. Uma subversão total, da qual vós, leitores, sois vítimas. É claro, vós que chegastes até aqui.]

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Este texto eu o desenterrei. Acho que ele representa uma época muito importante pra mim.
Como eu espero sair deste buraco-negro...




quando eu subo
apartamento as dores
e a porta abre
e eu vejo as tuas cores
a noite passa
e eu me deploro submisso
à tua massa
e eu te exploro e eu te dispo
as tuas mordidas no meu pescoço
me enchem de tesão até o osso
e as tuas mãos seguras
me protegem no teu ombro
da noite obscura
que é linda e um assombro
quando eu acendo e te toco feito bicho
a gente ama, e não importa o luxo ou o lixo
(as tuas mordidas no meu pescoço...
quando deita e me beija o meu moço)
e eu durmo sem pensar qualquer verdade
porque sei que estou vivendo a eternidade

21 9 2009

domingo, 13 de dezembro de 2009

Das coisas irreversíveis.

A irreversibilidade é inesquecível.
Contudo o homem finge que ela não existe, age segundo suas ideologias, mas ignora a irreversibilidade. E quando não a ignora, também não consegue descobrir sua dimensão.
As coisas morrem.
Os outros diriam que elas evoluem, ou se transformam, não está errado! Mas o homem sacraliza tudo. Todas as coisas têm formato, cheiro, sentimento e atributos psicológicos. E todas essas coisas morrem! deixam de sê-las simplesmente, e passam a não ser mais.
Cheirando esta luva, porque eu adoro cheirar, percebi que São Pedro está tornando cada vez mais evidente o estado de irreversibilidade (notem que eu falo em evidência, não em condições: a irreversibilidade é onipresente) nesta cidade sem estrelas chamada São Paulo.
Enquanto o deus do amor escreve isto, uma hora depois de assistir um filme chamado Reversível, que trata de coisas irreversíveis, alguém aqui nesta cidade certamente está com aflições parecidíssimas com a minha. Sei que há mais alguém aqui, no meio desses milhões de pessoas, preocupado com dores na língua, ou em perder o tempo de forma competente, falando sobre irreversibilidade, ou com a boca ressecada de solidão, e chamado Eros, ou que ouça Claude Bolling depois de uma madrugada de disco-rock alternativo, que aspire as coisas que eu respiro, que passe por dificuldades como eu as passo, para tentar provar a si mesmo que a felicidade não existe, sendo que ela existe, mora muito bem na Cerqueira César, vive muito bem, com centenas de escravos hodiernos e produtos importados mais caros que a minha nuca, e a ela eu não terei acesso.
Olho para uma semana atrás, e tenho certeza da irreversibilidade que ela representa. Isso não deve ser muito importante, para falar a verdade. Apenas me fascina. Me fascina como me fascina a fatalidade de grande parte das relações nas quais tenho ingressado com uma expontaneidade de demente, e que na verdade têm me feito duvidar de sua própria validade.
Desconheço grande parte da logística real das regras ortográficas embutidas no meu cérebro. Isso não deve lá ser muito importante neste instante. Quero comer uma pizza que me trará uma alegria instantânea, e cuja digestão será irreversível. Quero comer uma pessoa, o que também me trará uma alegria instantânea, e sei que isto também será irreversível. Nada é reversível, as coisas podem apenas ser contornadas; não significa voltar os ponteiros.
Reversível é a expressão máxima do que o cinema atualmente é capaz de fazer, elevando o realismo até as últimas consequências. Me gusta! A ciência (estou falando do cinema) também evolui. Irreversivelmente.
Quando der oito horas da noite (e então será irreversível pensar nas horas que a antecederam) vou acordar minha mãe e nós iremos comer pizza. Também será tarde demais, porque eu já terei ouvido pelo menos duas músicas do Projeto B. Ou não. O futuro não é reversível, é apenas desenhável.
Escrevo este texto porque algumas das minhas roupas estão cheirando a mofo. Estas minha luvas também estão. Trocarei por outro par. Minha fome não é reversível: é contornável. Não existem duas fomes iguais. Eu iria a uma churrascaria. Minha mãe nem deve ter dinheiro. Nem é tão interessante isso tudo, ser escravo do tempo, sei lá, é? Nem deve ser. Só sei do significado das coisas evidentes relacionadas a isso.
Quero sair da rouquidão.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Solidão.

Quando eu percebi que estava na passarela do metrô, fechei os olhos e pensei em alguém com uma dor amarela -e quando as coisas amarelam, é porque já passaram dos meus limites-, vestido igual a uma pessoa normal. Quando os abri (os meus olhos de pessoa normal) continuei pensando na passarela, mas segui deixando o meu rastro amarelo, de raiva.
E quando entrei no metrô esqueci para onde eu ia, porque me confundi, e de repente pensei que meu caminho era você, mas já não havia você. Então me lembrei de que você já tinha ido embora e segui minha viagem, para algum cinema vazio, tão mofado como o meu coração.
Quando a porta do metrô se fechou, pensei em cada vulto, que eu jamais veria novamente, quando o trem acelerasse. Azar! Meu príncipe não é nenhum deles, pensei. E quando ri discretamente, porque lembrei de você, percebi que estava te deixando na estação Paraíso, e indo diretamente pro Inferno.
E então peguei uma cartela com aqueles chicletes caros que eu não tinha com quem dividir, assim como eu não tinha como dividir com ninguém a minha nova cueca, nem a minha velha retórica. Na bilheteria o meu reflexo no vidro blindado, que era blindado para as pessoas não terem relações sociais estreitas com os atendentes, refletia a minha cara amarela, de vergonha.
Antes da sessão, parei em um boteco próximo, e pedi um cariri com mel, para aquecer o meu coração de carbono. E sentei, apoiado no balcão, esperando que alguém me desse a ignição, para eu entrar em combustão mais uma vez. Mas ninguém veio e eu voltei para o cinema.
O filme era bom. Não sei sobre o que era exatamente, mas me lembrava você, então era um bom filme. Saí da sala e comovido puxei papo com uma garota sobre a sessão. Bom filme, hein, disse-lhe. Pois é, me respondeu, mas esse diretor [cujo nome eu não lembro] já teve filmes melhores, respondeu com uma simpatia enigmática, dissimulada ou entusiasmada, e foi-se embora.
A noite ainda era azul, e eu decidi voltar ao boteco, mas ele já estava fechado. De um visionário estacionado na calçada, que apesar de estacionado continuava visionário, comprei um copo de conhaque, e bebi-o porque pensei que o meu coração estava gelado demais. Mas ele ficou amarelo, de solidão.
Perto do cinema, mais ou menos longe de onde moro, olhei pra esse céu sem estrelas de São Paulo, e pensei que talvez elas tivessem ido embora junto com você. Mas a Lua -amarela- continuava ali, atenta, eu diria que caçoando de mim. Mas a Lua é sagrada, e tem sempre razão.
Andei morfinado pela música-ambiente do meu player, mas desliguei-o, porque pensei que a melhor música pra aquele momento era o silêncio. Então sentei em um canto qualquer daquele lugar, apoiei minha cabeça em meus joelhos e chorei. Então um rapaz parecido com você veio até mim, agachou e pôs a mão sobre o meu ombro. Tá tudo bem, perguntou. Fiz que não com a cabeça. É por causa dele, perguntou simpaticamente. E então esbocei-lhe um sorriso, e só aí a noite começou a ficar interessante.

Impermeabilidade.

Imagine uma noite, duas, três, chovendo sem parar. A sua casa mofa, mesmo que você não queira. Você então se debruça na janela com aquele ar cansado que as pessoas usam dissimuladamente para dizer que têm cansaço, porque um dia aprenderam que, para parecerem cansadas, deveriam ir à janela se debruçar com aquela feição desconsoladora. Na cozinha um pão mosquitado brada por socorro, mas os homens não conhecem a língua dos pães, e você então avista da esquina uma cena nova. Algo como um rapaz de cueca segurando um guarda-chuva. O seu senso de solidariedade nas noites chuvosas geralmente vai passear, então você fecha a janela e vai procurar algo dentro de casa pra fazer, mais interessante, como espantar os mosquitos do pão, ou semelhante.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ode à meia-noite.

suruba.
-alô!
a esquina era vazia como uma boca.
-não, já 'tô chegando.
a função da rua era ter paredes, e paredes longas, minhocantes e barulhentas. as paredes eram o barulho da rua.
-okay. fica frio. até!
meio-susto. certo suspiro involuntário. um sujeito mijando na parede.
o rapaz do celular meio que esboçou um aperto de passo. mas passado o vulto afroxou-se e seguiu como antes, como quem está preso entre paredes barulhentas, e perto da meia-noite.
a noite inteira era das paredes, o rapaz era uma faísca, pulsando eletricidade naquela tão curta eternidade chamada medo.
paralisia.
perto do fim da rua, não havia reflexo, apenas uma fumaça, cor-de-bosta, denunciando os dois amantes, os dois recém-apaixonados rompendo o barulho dos afrescos, vazando aquele silêncio que só quem amou um dia sabe o que significa.
estupefato. e não ignorou. deu meia-volta, pensou em avisar os guardas, mas sabia que na noite as pessoas dormem, e os guardas deviam estar cansados.
pateticamente, iniciou um mantra interno, sussurrava palavras tão dissimuladas como o seu cristianismo, sua consciência, seus lençóis.
-não era um estupro. não era um estupro.
de fato não era. mas no medo a gente inventa coisas.
-não era um estupro. não era. não era.
prosélito, era uma criança, durante a catequese, lutando contra seus fantasmas.
um rato rasgou o escuro. um raio de silêncio esqueceu os segundos anteriores, mas não o rapaz.
-não era.
o sujeito de antes continuava mijando. o rapaz esticou o olhos, apertou os lábios e sugou o espaço, dentadas mastigando a noite, engolindo os ponteiros.
o desejo.
desapertou o ritmo, sentiu um, vários lapsos, arrepios. inflando o peito, dilatando os músculos, bombeando o sangue pelas cada vez mais selvagens cavernas de sua alma.
voltou-se para trás. eram agora dois pares de amantes na imensidão noturna.
suruba.

domingo, 29 de novembro de 2009

Telefonema. Carta.

Cê vai me entender.
Eu cheguei ali, ela 'tava toda cocotinha, queria dar.
Queria dar sim, queria!
Cheguei e cumprimentei, mas daquele jeito, né... Cê sabe, aquele jeito, todo todo, a mina caiu muito facinha.
Té estranhei. Mas cá pra nós, se o homem tem charme... Quê? É, hahahahahahaha... Não, deixa eu falar! Se o homem tem charme já ganha a mina. Então, daí eu cheguei e joguei um lero, queria conhecer o jardim do xópim e sei lá o quê, nem lembro mais o que eu disse direito, hahahaha... A gente foi lá na fachada, né, e a daí a gente... É! Na fachada! Daí a gente ficamo lá mó cota, velho... Veeelho, nem te conto, bróder. A mina quis fazê um boquete lá mesmo. Caaara! Que nada, ô, cê é bróder, cê acha que eu ia zuar? Tô brincando nada, truta, a mina caiu de boca, véi. Inda depois veio com uns papo de homenagem, homenagi, uns treco lá, que tinha que chamar mais uma mina, sei lá o quê... Não, ô, cê tá loco, eu não faço isso não, tenho família, ô, hahahaha...
Mas a mina ficou jogando mó xaveco e não sei o quê... Quê? Foi té o final! É, pô, té o finalzinho. Sei lá, ela é loca! Ah! Passou, por quê, se interessô? Eu não, pra quê eu ia te dá? Aliás, té excluí o fone, que eu não ligo mais pr'ela não, mó biscatinha, ô, nem dá graça... Afe, se cê visse cê ia vê o que eu tô falando... Tô falando, véi! Biscatinha!



Juliana
Sei que você não responderá este e-mail. Sequer sei se você o lerá. Mas eu preciso lhe contar o que ando sentindo.
Depois que a gente conversou, o que era para ter sido definitivo e claro, estou cada vez mais confusa. Esta noite não deixei de pensar em você e em nossas horas juntas em momento nenhum. Sua imagem continua me atordoando, estou perdendo o fundo, tenho feito coisas ultimamente que eu jamais faria antes. Acho que estou enlouquecendo, Ju.
O Pacheco (lembra dele? o psicólogo que eu procurei nas férias) me disse que estou me auto-mutilando, cometendo ações que são prejudiciais ao meu corpo e à minha honra. Não sei se isso é verdade, mas uma coisa que eu li quando fiz o trabalho sobre Freud da faculdade (aquele que você viu no auditório, naquela noite em que você vestiu pela primeira vez o vestido verde que eu adoro) é que fins prematuros de relacionamentos podem acabar em um processo chamado enlutamento. E em últimas consequências a pessoa pode cometer o suicídio.
Aquele vinho barato que você escolheu na última compra que fizemos juntas (um tal Chalise, tinto suave) ainda está sobre a geladeira, esperando ser aberto em um momento apropriado. Espero que você não tenha que se vestir de preto para abri-lo. Mas se eu bem te conheço, se eu disser que morrerei amanhã, você vai mesmo é se vestir de branco e ir estourar uma champanha com as suas amigas que você tanto ama.
Juliana, estou enlouquecendo. Depois de tanto tempo juntas, esta separação me soa tão, mas tão insólita, e ao mesmo tempo tão artificial. E eu estou tão esperançosa de você retornar aqui para a minha casa, que ainda é sua, e ouvir aquela música que você gosta, comer aquela lasanha de frango, ou aquele purê de maçã, que sua mãe nos ensinou, passar mais uma madrugada acordada, só olhando para seus olhos e a armadilha que eles representam...
Não sei ainda por que você é tão presente em mim, mesmo estando tão confortavelmente longe como estás. L'amour est décidement un étrange sentiment.
Espero que você esteja bem, mesmo eu não estando.
Te amo, espero que as coisas fiquem bem pra mim. Se escrevi alguma besteira ignore, ainda estou sob efeito do Rivotril.
Da sua eterna Mona,
Simone.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Platonismo.

Depois do terceiro bombeirinho, cheguei em mais um e lhe perguntei:
-Você é meu príncipe?
E ele disse que era, que ia me levar para seu apartamento na Vila Mariana, e que nós teríamos madrugadas maravilhosas que começariam na MTV, passariam pelo Habib's 24 horas e terminariam na cama. Depois de um mês ele me daria um chocolate importado, e eu lhe daria uma garrafa de licor de jabuticaba. Me disse que ama jogos de vídeo-gueime e futebol, e que é ator, adora ir a museus tirar sarro dos pintores sem atividade sexual e aprecia um bom cinema. Não tem preconceitos musicais, mas gosta bastante de Radiohead, e que eu aprenderia a conviver com isso. Ele, o meu príncipe, teria barba, cabelo curto, seria branco e teria a voz mais singular, olhos pequenos -que eu nunca pensei que pudessem engolir almas potencialmente, mas que ia engolir a minha no primeiro flerte. Todos os nossos momentos seriam plenos, incluindo a noite intimista no sofá, a pizza que faria companhia ao nosso Lars Von Trier, a Marisa Monte que embalaria a nossa simbiose de cada noite (pêlos mais pernas), e a sessão na Paulista seguida ou antecedida por um bom chocolate quente (não bom pela qualidade, mas sim pela companhia). E no final do ano nós escolheríamos a praia mais perfeita e assistiríamos ao pôr-do-sol como se fosse o nosso último, pois saberíamos estar vivendo a eternidade.
Mas isso foi um sonho, que eu por sinal fiz questão de esquecer, tão pesado era meu sono depois de mais uma noite de amor instantâneo e natimorto, regado a cachaça, groselha, limão...
E gelo.

Rato.

Algo que parecia um rato, porque era parecido demais com um rato para não ser um, atravessou o cano que dividia a grande sala em dois.
O ruído foi bem pífio perto do ruído que era resultado da ira de Pedro, o Santo. A Física só serve para a gente odiá-la como odiamos a Deus um dia.
A luz que vinha do céu era suficiente para não matar todas as coisas ali existentes, um resto de trabalho, ruínas de uma gráfica. Tudo abandonado, falido há uns dois anos.
Foi nesse ambiente, preto, gelado, imundo. Dois rapazes forçaram afoitos a porta. Conseguiram entrar, tatearam, rezaram para seu deus (que devia ser o mesmo de todos os outros em um raio de vários quilômetros). Sentaram ansiosos, num chão negro de poeira. Quase-pretos, quase-gelados, quase-imundos, o ar era mais úmido que os olhos do rato que ali habitava. Ele, o rato, tinha motivos para se sentir intimidado. Mas os rapazes também tinham motivos. Mas desses motivos esqueceram rapidamente. Lá estavam, a salvo, apenas vulneráveis à fina garoa do medo que os homens têm, esse medo que as coisas boas não durem a eternidade, e que sempre é um medo com fundamento, com deus ou sem deus.
Ali, na gelada e arrogante poeira preta se amaram, um desbravamento inocente e curioso, como inocente e curiosa é qualquer aventura protagonizada por meninos. Na vida o sexo das aventuras é o masculino. Na História também é.
Se amaram feito dois ratos, e da haste que dividia a antiga gráfica em duas secções o nosso amigo singular de olhos úmidos espiava com uma atenção de tevente. Suspirou um suspiro de rato, e exclamou com aquelas cordas-vocais de quem nasce e cresce no esgoto:
-Esse amor entre homens é um amor marginal.
Os garotos pausaram um instante, pensando que tinham ouvido alguma coisa, mas a noite preta ainda prometia novas descobertas, e eles voltaram a se merecer em pouco tempo.
E se mereceram até o outro dia, até Pedro, o Santo, ir descansar, até as clarabóias do lugar serem vencidas pelo amor do Sol.
Se descobriram naquelas horas que eram a eternidade, e o rato foi dormir mais cedo, porque o dia fora exaustivo.