domingo, 13 de dezembro de 2009

Das coisas irreversíveis.

A irreversibilidade é inesquecível.
Contudo o homem finge que ela não existe, age segundo suas ideologias, mas ignora a irreversibilidade. E quando não a ignora, também não consegue descobrir sua dimensão.
As coisas morrem.
Os outros diriam que elas evoluem, ou se transformam, não está errado! Mas o homem sacraliza tudo. Todas as coisas têm formato, cheiro, sentimento e atributos psicológicos. E todas essas coisas morrem! deixam de sê-las simplesmente, e passam a não ser mais.
Cheirando esta luva, porque eu adoro cheirar, percebi que São Pedro está tornando cada vez mais evidente o estado de irreversibilidade (notem que eu falo em evidência, não em condições: a irreversibilidade é onipresente) nesta cidade sem estrelas chamada São Paulo.
Enquanto o deus do amor escreve isto, uma hora depois de assistir um filme chamado Reversível, que trata de coisas irreversíveis, alguém aqui nesta cidade certamente está com aflições parecidíssimas com a minha. Sei que há mais alguém aqui, no meio desses milhões de pessoas, preocupado com dores na língua, ou em perder o tempo de forma competente, falando sobre irreversibilidade, ou com a boca ressecada de solidão, e chamado Eros, ou que ouça Claude Bolling depois de uma madrugada de disco-rock alternativo, que aspire as coisas que eu respiro, que passe por dificuldades como eu as passo, para tentar provar a si mesmo que a felicidade não existe, sendo que ela existe, mora muito bem na Cerqueira César, vive muito bem, com centenas de escravos hodiernos e produtos importados mais caros que a minha nuca, e a ela eu não terei acesso.
Olho para uma semana atrás, e tenho certeza da irreversibilidade que ela representa. Isso não deve ser muito importante, para falar a verdade. Apenas me fascina. Me fascina como me fascina a fatalidade de grande parte das relações nas quais tenho ingressado com uma expontaneidade de demente, e que na verdade têm me feito duvidar de sua própria validade.
Desconheço grande parte da logística real das regras ortográficas embutidas no meu cérebro. Isso não deve lá ser muito importante neste instante. Quero comer uma pizza que me trará uma alegria instantânea, e cuja digestão será irreversível. Quero comer uma pessoa, o que também me trará uma alegria instantânea, e sei que isto também será irreversível. Nada é reversível, as coisas podem apenas ser contornadas; não significa voltar os ponteiros.
Reversível é a expressão máxima do que o cinema atualmente é capaz de fazer, elevando o realismo até as últimas consequências. Me gusta! A ciência (estou falando do cinema) também evolui. Irreversivelmente.
Quando der oito horas da noite (e então será irreversível pensar nas horas que a antecederam) vou acordar minha mãe e nós iremos comer pizza. Também será tarde demais, porque eu já terei ouvido pelo menos duas músicas do Projeto B. Ou não. O futuro não é reversível, é apenas desenhável.
Escrevo este texto porque algumas das minhas roupas estão cheirando a mofo. Estas minha luvas também estão. Trocarei por outro par. Minha fome não é reversível: é contornável. Não existem duas fomes iguais. Eu iria a uma churrascaria. Minha mãe nem deve ter dinheiro. Nem é tão interessante isso tudo, ser escravo do tempo, sei lá, é? Nem deve ser. Só sei do significado das coisas evidentes relacionadas a isso.
Quero sair da rouquidão.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Solidão.

Quando eu percebi que estava na passarela do metrô, fechei os olhos e pensei em alguém com uma dor amarela -e quando as coisas amarelam, é porque já passaram dos meus limites-, vestido igual a uma pessoa normal. Quando os abri (os meus olhos de pessoa normal) continuei pensando na passarela, mas segui deixando o meu rastro amarelo, de raiva.
E quando entrei no metrô esqueci para onde eu ia, porque me confundi, e de repente pensei que meu caminho era você, mas já não havia você. Então me lembrei de que você já tinha ido embora e segui minha viagem, para algum cinema vazio, tão mofado como o meu coração.
Quando a porta do metrô se fechou, pensei em cada vulto, que eu jamais veria novamente, quando o trem acelerasse. Azar! Meu príncipe não é nenhum deles, pensei. E quando ri discretamente, porque lembrei de você, percebi que estava te deixando na estação Paraíso, e indo diretamente pro Inferno.
E então peguei uma cartela com aqueles chicletes caros que eu não tinha com quem dividir, assim como eu não tinha como dividir com ninguém a minha nova cueca, nem a minha velha retórica. Na bilheteria o meu reflexo no vidro blindado, que era blindado para as pessoas não terem relações sociais estreitas com os atendentes, refletia a minha cara amarela, de vergonha.
Antes da sessão, parei em um boteco próximo, e pedi um cariri com mel, para aquecer o meu coração de carbono. E sentei, apoiado no balcão, esperando que alguém me desse a ignição, para eu entrar em combustão mais uma vez. Mas ninguém veio e eu voltei para o cinema.
O filme era bom. Não sei sobre o que era exatamente, mas me lembrava você, então era um bom filme. Saí da sala e comovido puxei papo com uma garota sobre a sessão. Bom filme, hein, disse-lhe. Pois é, me respondeu, mas esse diretor [cujo nome eu não lembro] já teve filmes melhores, respondeu com uma simpatia enigmática, dissimulada ou entusiasmada, e foi-se embora.
A noite ainda era azul, e eu decidi voltar ao boteco, mas ele já estava fechado. De um visionário estacionado na calçada, que apesar de estacionado continuava visionário, comprei um copo de conhaque, e bebi-o porque pensei que o meu coração estava gelado demais. Mas ele ficou amarelo, de solidão.
Perto do cinema, mais ou menos longe de onde moro, olhei pra esse céu sem estrelas de São Paulo, e pensei que talvez elas tivessem ido embora junto com você. Mas a Lua -amarela- continuava ali, atenta, eu diria que caçoando de mim. Mas a Lua é sagrada, e tem sempre razão.
Andei morfinado pela música-ambiente do meu player, mas desliguei-o, porque pensei que a melhor música pra aquele momento era o silêncio. Então sentei em um canto qualquer daquele lugar, apoiei minha cabeça em meus joelhos e chorei. Então um rapaz parecido com você veio até mim, agachou e pôs a mão sobre o meu ombro. Tá tudo bem, perguntou. Fiz que não com a cabeça. É por causa dele, perguntou simpaticamente. E então esbocei-lhe um sorriso, e só aí a noite começou a ficar interessante.

Impermeabilidade.

Imagine uma noite, duas, três, chovendo sem parar. A sua casa mofa, mesmo que você não queira. Você então se debruça na janela com aquele ar cansado que as pessoas usam dissimuladamente para dizer que têm cansaço, porque um dia aprenderam que, para parecerem cansadas, deveriam ir à janela se debruçar com aquela feição desconsoladora. Na cozinha um pão mosquitado brada por socorro, mas os homens não conhecem a língua dos pães, e você então avista da esquina uma cena nova. Algo como um rapaz de cueca segurando um guarda-chuva. O seu senso de solidariedade nas noites chuvosas geralmente vai passear, então você fecha a janela e vai procurar algo dentro de casa pra fazer, mais interessante, como espantar os mosquitos do pão, ou semelhante.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ode à meia-noite.

suruba.
-alô!
a esquina era vazia como uma boca.
-não, já 'tô chegando.
a função da rua era ter paredes, e paredes longas, minhocantes e barulhentas. as paredes eram o barulho da rua.
-okay. fica frio. até!
meio-susto. certo suspiro involuntário. um sujeito mijando na parede.
o rapaz do celular meio que esboçou um aperto de passo. mas passado o vulto afroxou-se e seguiu como antes, como quem está preso entre paredes barulhentas, e perto da meia-noite.
a noite inteira era das paredes, o rapaz era uma faísca, pulsando eletricidade naquela tão curta eternidade chamada medo.
paralisia.
perto do fim da rua, não havia reflexo, apenas uma fumaça, cor-de-bosta, denunciando os dois amantes, os dois recém-apaixonados rompendo o barulho dos afrescos, vazando aquele silêncio que só quem amou um dia sabe o que significa.
estupefato. e não ignorou. deu meia-volta, pensou em avisar os guardas, mas sabia que na noite as pessoas dormem, e os guardas deviam estar cansados.
pateticamente, iniciou um mantra interno, sussurrava palavras tão dissimuladas como o seu cristianismo, sua consciência, seus lençóis.
-não era um estupro. não era um estupro.
de fato não era. mas no medo a gente inventa coisas.
-não era um estupro. não era. não era.
prosélito, era uma criança, durante a catequese, lutando contra seus fantasmas.
um rato rasgou o escuro. um raio de silêncio esqueceu os segundos anteriores, mas não o rapaz.
-não era.
o sujeito de antes continuava mijando. o rapaz esticou o olhos, apertou os lábios e sugou o espaço, dentadas mastigando a noite, engolindo os ponteiros.
o desejo.
desapertou o ritmo, sentiu um, vários lapsos, arrepios. inflando o peito, dilatando os músculos, bombeando o sangue pelas cada vez mais selvagens cavernas de sua alma.
voltou-se para trás. eram agora dois pares de amantes na imensidão noturna.
suruba.

domingo, 29 de novembro de 2009

Telefonema. Carta.

Cê vai me entender.
Eu cheguei ali, ela 'tava toda cocotinha, queria dar.
Queria dar sim, queria!
Cheguei e cumprimentei, mas daquele jeito, né... Cê sabe, aquele jeito, todo todo, a mina caiu muito facinha.
Té estranhei. Mas cá pra nós, se o homem tem charme... Quê? É, hahahahahahaha... Não, deixa eu falar! Se o homem tem charme já ganha a mina. Então, daí eu cheguei e joguei um lero, queria conhecer o jardim do xópim e sei lá o quê, nem lembro mais o que eu disse direito, hahahaha... A gente foi lá na fachada, né, e a daí a gente... É! Na fachada! Daí a gente ficamo lá mó cota, velho... Veeelho, nem te conto, bróder. A mina quis fazê um boquete lá mesmo. Caaara! Que nada, ô, cê é bróder, cê acha que eu ia zuar? Tô brincando nada, truta, a mina caiu de boca, véi. Inda depois veio com uns papo de homenagem, homenagi, uns treco lá, que tinha que chamar mais uma mina, sei lá o quê... Não, ô, cê tá loco, eu não faço isso não, tenho família, ô, hahahaha...
Mas a mina ficou jogando mó xaveco e não sei o quê... Quê? Foi té o final! É, pô, té o finalzinho. Sei lá, ela é loca! Ah! Passou, por quê, se interessô? Eu não, pra quê eu ia te dá? Aliás, té excluí o fone, que eu não ligo mais pr'ela não, mó biscatinha, ô, nem dá graça... Afe, se cê visse cê ia vê o que eu tô falando... Tô falando, véi! Biscatinha!



Juliana
Sei que você não responderá este e-mail. Sequer sei se você o lerá. Mas eu preciso lhe contar o que ando sentindo.
Depois que a gente conversou, o que era para ter sido definitivo e claro, estou cada vez mais confusa. Esta noite não deixei de pensar em você e em nossas horas juntas em momento nenhum. Sua imagem continua me atordoando, estou perdendo o fundo, tenho feito coisas ultimamente que eu jamais faria antes. Acho que estou enlouquecendo, Ju.
O Pacheco (lembra dele? o psicólogo que eu procurei nas férias) me disse que estou me auto-mutilando, cometendo ações que são prejudiciais ao meu corpo e à minha honra. Não sei se isso é verdade, mas uma coisa que eu li quando fiz o trabalho sobre Freud da faculdade (aquele que você viu no auditório, naquela noite em que você vestiu pela primeira vez o vestido verde que eu adoro) é que fins prematuros de relacionamentos podem acabar em um processo chamado enlutamento. E em últimas consequências a pessoa pode cometer o suicídio.
Aquele vinho barato que você escolheu na última compra que fizemos juntas (um tal Chalise, tinto suave) ainda está sobre a geladeira, esperando ser aberto em um momento apropriado. Espero que você não tenha que se vestir de preto para abri-lo. Mas se eu bem te conheço, se eu disser que morrerei amanhã, você vai mesmo é se vestir de branco e ir estourar uma champanha com as suas amigas que você tanto ama.
Juliana, estou enlouquecendo. Depois de tanto tempo juntas, esta separação me soa tão, mas tão insólita, e ao mesmo tempo tão artificial. E eu estou tão esperançosa de você retornar aqui para a minha casa, que ainda é sua, e ouvir aquela música que você gosta, comer aquela lasanha de frango, ou aquele purê de maçã, que sua mãe nos ensinou, passar mais uma madrugada acordada, só olhando para seus olhos e a armadilha que eles representam...
Não sei ainda por que você é tão presente em mim, mesmo estando tão confortavelmente longe como estás. L'amour est décidement un étrange sentiment.
Espero que você esteja bem, mesmo eu não estando.
Te amo, espero que as coisas fiquem bem pra mim. Se escrevi alguma besteira ignore, ainda estou sob efeito do Rivotril.
Da sua eterna Mona,
Simone.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Platonismo.

Depois do terceiro bombeirinho, cheguei em mais um e lhe perguntei:
-Você é meu príncipe?
E ele disse que era, que ia me levar para seu apartamento na Vila Mariana, e que nós teríamos madrugadas maravilhosas que começariam na MTV, passariam pelo Habib's 24 horas e terminariam na cama. Depois de um mês ele me daria um chocolate importado, e eu lhe daria uma garrafa de licor de jabuticaba. Me disse que ama jogos de vídeo-gueime e futebol, e que é ator, adora ir a museus tirar sarro dos pintores sem atividade sexual e aprecia um bom cinema. Não tem preconceitos musicais, mas gosta bastante de Radiohead, e que eu aprenderia a conviver com isso. Ele, o meu príncipe, teria barba, cabelo curto, seria branco e teria a voz mais singular, olhos pequenos -que eu nunca pensei que pudessem engolir almas potencialmente, mas que ia engolir a minha no primeiro flerte. Todos os nossos momentos seriam plenos, incluindo a noite intimista no sofá, a pizza que faria companhia ao nosso Lars Von Trier, a Marisa Monte que embalaria a nossa simbiose de cada noite (pêlos mais pernas), e a sessão na Paulista seguida ou antecedida por um bom chocolate quente (não bom pela qualidade, mas sim pela companhia). E no final do ano nós escolheríamos a praia mais perfeita e assistiríamos ao pôr-do-sol como se fosse o nosso último, pois saberíamos estar vivendo a eternidade.
Mas isso foi um sonho, que eu por sinal fiz questão de esquecer, tão pesado era meu sono depois de mais uma noite de amor instantâneo e natimorto, regado a cachaça, groselha, limão...
E gelo.

Rato.

Algo que parecia um rato, porque era parecido demais com um rato para não ser um, atravessou o cano que dividia a grande sala em dois.
O ruído foi bem pífio perto do ruído que era resultado da ira de Pedro, o Santo. A Física só serve para a gente odiá-la como odiamos a Deus um dia.
A luz que vinha do céu era suficiente para não matar todas as coisas ali existentes, um resto de trabalho, ruínas de uma gráfica. Tudo abandonado, falido há uns dois anos.
Foi nesse ambiente, preto, gelado, imundo. Dois rapazes forçaram afoitos a porta. Conseguiram entrar, tatearam, rezaram para seu deus (que devia ser o mesmo de todos os outros em um raio de vários quilômetros). Sentaram ansiosos, num chão negro de poeira. Quase-pretos, quase-gelados, quase-imundos, o ar era mais úmido que os olhos do rato que ali habitava. Ele, o rato, tinha motivos para se sentir intimidado. Mas os rapazes também tinham motivos. Mas desses motivos esqueceram rapidamente. Lá estavam, a salvo, apenas vulneráveis à fina garoa do medo que os homens têm, esse medo que as coisas boas não durem a eternidade, e que sempre é um medo com fundamento, com deus ou sem deus.
Ali, na gelada e arrogante poeira preta se amaram, um desbravamento inocente e curioso, como inocente e curiosa é qualquer aventura protagonizada por meninos. Na vida o sexo das aventuras é o masculino. Na História também é.
Se amaram feito dois ratos, e da haste que dividia a antiga gráfica em duas secções o nosso amigo singular de olhos úmidos espiava com uma atenção de tevente. Suspirou um suspiro de rato, e exclamou com aquelas cordas-vocais de quem nasce e cresce no esgoto:
-Esse amor entre homens é um amor marginal.
Os garotos pausaram um instante, pensando que tinham ouvido alguma coisa, mas a noite preta ainda prometia novas descobertas, e eles voltaram a se merecer em pouco tempo.
E se mereceram até o outro dia, até Pedro, o Santo, ir descansar, até as clarabóias do lugar serem vencidas pelo amor do Sol.
Se descobriram naquelas horas que eram a eternidade, e o rato foi dormir mais cedo, porque o dia fora exaustivo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Haven't Met You Yet

*off*



Lyrics

terça-feira, 20 de outubro de 2009

sem dono.

Ninguém sabia o nome daquela moça.
Ninguém sabia se ela tinha sequer algum nome.
A vida dela era andar pelas plataformas lotadas da rodoviária do lugar discursando.
Discursava sobre tudo.
Era.



O meu esporte predileto

Vocês não sabem como eu adoro acordar segunda-feira de manhã e tomar uma xícara cheia de café.



O Tombo da Senhorita

-Por exemplo, se você está em um shopping, e de repente aparece um pobre na sua frente, o que você faz?
-Acordo.
-Não, de verdade.
-Sei lá. Nunca vi um pobre aqui.
Estavam em um shopping, não importa qual.
-Mas por que você 'tá perguntando isso?
-Por nada. Passou pela minha cabeça.
Esse, o Felipe, tomava um milk shake que custou 1% do seu salário mensal. Contudo, a camiseta que usava custara 10% de seu salário, sua calça 13% e seu tênis 20%. Não importava, desde que não fosse pobre. Tinha horror a pobre, a ser pobre.
-Tem açúcar demais nisso aí.
O outro, um tal Ronaldo, compartilhava dos mesmos valores do amigo. A diferença é que este, por não trabalhar, tomava emprestado do outro as roupas que usava quando ia ao shopping.
-Olha aquela mina. -o Ronaldo avistou.
Aquela mina que passou era uma Irene, que estava cumprindo sua função, de não ter função alguma, com pompa e competência.
-Qual?
-Aquela.
-Que tem?
-Duvido você chegar nela.
-Há! -deu uma risada debochada. -Eu também duvido.
-'Cê é 'mó cuzão. Por isso que não pega ninguém.
-'Tá em choque, vá pescar!
Clima tenso.
-Vixe! Seu amarelão. Isso que dá, não tem iniciativa, chupa dedo.
-Olha, você me erra, que eu não 'tô afim de brincar de boneca hoje.
-Oopa!
Derrubou propositalmente o milk shake na camiseta do amigo, que custara 10% do salário daquele. A briga tornou ares mais formais, e lá estava um em cima do outro. Antes do segurança chegar, a moça de nome Irene aproximou-se, tentando de alguma forma apartar toda aquela poeira, mas acabou por escorregar na sujeira que os dois promoveram e bateu com a cabeça direto na quina de uma cadeira. O tombo da senhorita alarmou instantaneamente os dois, que começaram a socorrê-la do modo lúdico e grosseiro que conheciam da televisão, mas não foram muito úteis pois o pessoal especializado já chegara: da saúde, e da segurança. A moça foi levada às pressas para algum hospital de griffe e os dois rapazes saíram do prédio se amaldiçoando. Os dois voltavam pelo mesmo caminho, mas um, o Ronaldo, decidiu inventar um outro compromisso, pra não ter que ir ao lado do amigo.
Chegando em casa, o Felipe já perdera uma porção de sua indignação, e estava preocupado em como gastaria o resto da sua grana. Sua mãe morreria dali a dois anos, mas até lá ele não precisaria se preocupar com o seu salário, a não ser em como o gastaria competentemente com inutilidades e falso status.
Sentiu-se então inspirado para começar algo novo, que quebrasse sua rotina. Talvez tivesse sido a mixórdia que provocara na praça de alimentação. Mas, no fundo, era a imagem de Irene, tão terna e desastrosa, estirada involuntariamente, e sangrando, no chão daquele paraíso asséptico, que lhe trouxera uma ansiedade de produzir algo que jamais vislumbrara.
Daí, tomado de estranha euforia, pegou um caderno, que de tão abandonado já se encontrava amarelo (de vergonha), e o desvirginou, violando a morbidez que aquelas pautas lhe emprestavam, com uma caneta que demorou a pegar, mas depois saiu rabiscando quase-tímida aquela superfície tão esperançosa. Escreveu com caligrafia infantil "Irene". Ia escrever um poema.
Subitamente, juntou caderno e caneta e os jogou sobre a mesa com relativa fúria, perto da fruteira, decidido a abandonar a empreitada com a qual terminara de sonhar.
-Eu hein! Isso é coisa de viado.
E foi assistir televisão até dormir.

DIÁRIO DE ESTUDOS FIGURATIVOS ou PARTE X da MINHA PRODUÇÃO DOENTIA E ENTEDIADA (excerto#1)

2009.
há quem jure que não, mas era 2009.
o chão tremeu.
São Paulo do nada torna-se um burburinho. a multidão sincronizada grita. notas de guerra, bombas de festejo.
o pobre tolo, plebeu, sai ao quintal, e apontado, diz:
-Mãe, acho que o Corinthians fez um gol.
Pobre amanhã.

------//------

e depois que eu acordar
meu amor e eu vamos tomar um grã-café com os grãos gradualmente melhorados
vamos estar felizes, vamos estar sarados, vamos estar safados e as crianças chinesas trabalhando
vamos passar a noite inteira transando, enqüanto jovens estudam e jardins são retocados, eu vou ser tocado
à noite vamos ao jazz, porque temos pés. enqüanto eu leio na rede, separando, uma parede, torturantes jaulas vos abraçam
vocês se carapaçam e nós percevejamos. bebamos. preciso lembrar
como é doce o amargo

9/5/2009

------//------

é claro que eu te escuto
consciência minha não falha
nada falha, tudo é palha
por que eu te refuto?
enqüanto luto, estás de luto
tudo é secreto e verdadeiro
inclusive o dinheiro
eu secreto no banheiro
nada é falha, tudo é palha
eu não te fumo, eu não te trago
não bebo o sumo do teu afago
não me afogo em teu lago
eu flutuo, eu ciclovôo
é claro que eu te escuto
consciência-fruto, e de você
desculpa, eu gosto de outros

9/5/2009

------//------

da Imbecilidade

-oi
claque.
-tudo bem?
claque (mais alto).
-eu vou bem, e você?
claque com aplausos.
-bem. vim pegar minha geléia.
claque.
-toma.
risos.
-tchau.
-tchau.
claque, o mais alto possível, culminando com aplausos.
acaba a peça.

16/5/2009

------//------

e da próxima vez
que eu te ver no banheiro
sorrirei ligeiro
mas não porque você não é, e sim porque é profissão minha te fazer sangrar de tanto pensar

16/5/2009

------//------

Mas como são, assim, tão iguais, tão perfeitinhos esses garotos, esses rapazes morenos, de cabelo eriçado e brincos cintilantes. lembro de cada uma das vezes nas quais me apaixonava por um. eram vários em um mesmo dia. era a imagem de um na cabeça, e seu corpo na minha destra. sem pensar ia ao banheiro e me matava, batia, e era bom demais então. acho que nunca peguei um legítimo daqueles. talez minha imaginação seja afinal mais excitante. passam meses e eu permaneço criativo. e ativo.

17/7/2009

------//------

mas é isto que se faz: despreza-se o de baixo, endeusa-se o de cima. eu tenho um pavor do estigma.
é aquilo; "de vez em quando todos os olhos se voltam pra mim, de lá do fundo da escuridão, esperando e querendo que eu seja um herói."
e que pavor eu tenho de ser padrão. não dá pra ter escolha no mundo onde o desconceito é o próprio conceito.
mercadologia: penso, logo sou.

mas eu não tenho chicote, 18/7/2009

------//------

NOMEIO ISTO COMO DIÁRIO DE ESTUDOS FIGURATIVOS ou PARTE X da MINHA PRODUÇÃO DOENTIA E ENTEDIADA

18/7/2009

------//------

A minha sina é tomar toddy com leite desnatado.
como as pessoas podem ser tão não-vaidosas a ponto de subeterem-se a essa terrível fórmula? como contentam-se em acordar, comer uma uma bisnaga com margarina e tomar qualquer achocolatado com aquela água, à qual dão o nome de leite desnatado? minha vaidade me impede; louvo aos sem-paladar, esses merecem meu respeito.
mas Freud explica.

19/7/2009

------//------

Omiti-lhe qu'eu sonhara que ela me assediava. Meu ego cristão, todavia, me aplaudia, dedicava cânticos e cantatas e novenava a cada meia-hora. Contando as pausas para a manutenção fisiológica matinal (urina, dentes, estômago, e não necessariamente nessa ordem), gestos mecanicamente urbanos, foram uns quinze minutos dissecando a minha epopéia onírica (e eu nem partira para a psicologia ainda).
-Tive um sonho muito louco, véi!
-Eu também.
Não lhe dei bola.
-Sonhei que 'tava numa festa, tipo, na minha casa e, tipo, a minha vó 'tava, 'tava tipo um pessoal. Então teve uma hora qu'eu subi pro quarto e lá 'tava a Dani e a Mariana, da minha sala, e as duas começaram a me zuar, que a Dani tinha acabado de comprar, ou ganhar -não sei-, uma bike, e ela falou que não ia sair comigo pra gente andar de bike. Daí eu olhei pro lado e tinha tipo um manequim com cabelo, e eu levei mó susto. Aí eu desci e a minha vó 'tava se arrumando pr'uma festa tipo na casa ds meus tios, acho, lá em Curitiba. Não sei, mas eu acho que ela me ofereceu uma batida. Então eu falei que ia sair e ela falou pr'eu não demorar. daí eu fui tipo pr'um shopping, e encontrei uma prima da minha mãe, Elizete, e a gente pegou o mesmo elevador. Daí a gente foi falando mó papo maluco; eu falando da minha vida, minhas condições financeiras, meu futuro e, tipo, rolou mó papo e tal, daí eu olhei pra ela e ela 'tava mó diferente, bonita, de cabelo curto, não-enrugada (que a Elizete tem bastante rugas), de brinco, e com um quê de lésbica. Daí parece que eu me identifiquei co'ela, e perguntei se ela era cientista social, ela falou que era, então o elevador do shopping (que parecia o Anália Franco, mas era de Curitiba), desceu a gente meio diagonal e super-rápido pra tipo uma estação de trem e, do nada, acho que depois de pegar um trem, a gente deu tipo num parque, que 'tava cheio de índio. daí, começou mó discussão filosófica e sociológica sobre a questão indígena e tal. eu argumentava e, tipo, ela concordava e tal, fazia mó bem pra mim. daí meu sonho acabou, no parque.
Sorriu quase sem-graça.
-Legal.
Quis ser educado.
-E você? Sonhou com o quê?
-Sonhei que comia um passarinho vivo.

20/7/2009

------//------

eu lembro de quando a minha vida era um filme pornô.
textos curtos, eu ainda fazia questão de um sexo estético.

20/7/2009

------//------