domingo, 1 de agosto de 2010

Balada Afônica

Estas foram minhas férias mais irreversíveis.
No sentido e direção mais doentios.
Evoluíram em um vetor exponencial e atingiram níveis supra-perplexos.
Minha literatura foi um manual de que alguma pulsão de morte demoníaca se apossou.
Minhas férias foram um triste. Foram um feliz. Foram um qualquer coisa de sentimentos.
Preocupantes.
Estou com medo.
Algo me quer derrotar quando abraço.
Quando faz frio.
Algo que me chora. Internamente. Como uma hemorragia insistente, porque não se pode ser paulistano e querer ser amante ao mesmo tempo.
A vida está excluída da sociedade do tédio paulistana. Resta uma balada sem som, uma polifonia afônica.
Tenho a impressão de ter sido vítima de um trote do meu inconsciente, este responsável por testar todas as teorias por mim admitidas.
Resta a metáfora.
Insistentes, as senhoras sentadas em estrelas riem, pilheriam, com tanto, mas com tanto sarcasmo e tanto afinco que fazem (até) faltar o sono a São Pedro, que tem uma overdose de pó-de-guaraná -ou melhor, em termos paulistanos, de Red Bull- para manter o serviço otimizado. É exatamente neste instante que as estrelas decidem deixar a cidade.


O Amor Irreversível V

O amor da porta das manhãs é clandestino. É definitivo seu batom de mentira com que se pinta, a sombra que passa delineia sua própria sombra na rua, contra a luz dos postes, contra a luz da Lua. O amor da porta das manhãs não quer ser verdadeiro, não se importa com nada que possa dizer respeito a fidelidade particular, compromissos extra-instantâneos e outras pieguices da pré-modernidade: ele espera que simplesmente o efeito da função que proponho no meu marketing pessoal alcance o limite esperado. Nunca é, e é por isso que as empresas de Serviço de Atendimento ao Consumidor já estão mais ricas do que as de produtos básicos (como as indústrias do sexo, da felicidade e do poder).
Quando o eu-líquido escorregou pelos degraus imundos do tão límpido shopping center, não pensei em casamento, ou nenhum outro tipo de contrato satânico. O requinte diabólico estava, pelo contrário, na desonra do casamento, que se tornou uma casamentira. Sei que na cabine do banheiro, não o prazer da aventura, mas o do novo, óbvio, nos tomou imediatamente, pois ao ponto de ônibus contíguo à galeria nos direcionamos: o meio que encontramos para tornar mais confortável esse amor irreversível.
Complacente me ofereceu suco, carambola, conversas fenomenalmente acríticas a respeito de espiritualidade -ou melhor, espiritualismo, porque o sufixo me remete a doença-, mas isso tudo era apenas acessório: estávamos ali -eu estava ali, em sua casa- apenas pelo sexo.
Transamos como eu jamais faria com outra pessoa, o que é bom. É sinal de que eu pelo menos consigo identificar e distinguir atividades e condutas pontuais no sexo dentro do universo de relações que eu já tive. Esta, aliás, está na lista das irreversíveis.
No ônibus disse qualquer coisa de engraçado ao cobrador. Não sei se propositalmente ou não, o fato é que ele riu e respondeu algo até que simpático, ainda que ininteligível. Pensei baixo a respeito dos discursos dos amigos -que são meus psicólogos, embora não sejam formados nem por uma faculdade federal- que comigo tentaram tornar cognoscíveis as minhas noções a respeito das questões que envolvem a preocupação que a noite irreversível tentara solver.
A noite sem estrelas da cidade por um instante pareceu perigosa. Mas obviamente não passa de ilusão. Afinal, o amor verdadeiro me espera na porta das manhãs.


st (incrivelmente)

Até sexo como um paulistano ele faz.


História das Brincadeiras

Sobre o móvel de imbuia, no qual se encontravam um cofre noventista do Garfield (dentro do qual os indivíduos se amoedavam), um pote cilíndrico com desenho de abelha (dentro do qual funcionava uma dimensão composta de cereais, bactérias, déficit de oxigênio e um breu quase entediante), uma flanela azul, esquecida e manchada (sobre a qual multidões de bactérias e protozoários -talvez fungos- lutavam para a sobrevivência e para o domínio sobre os restos -de qualquer coisa que reste- do móvel, da mesa e da pia, compilados), e também três outros potes metálicos encostados no canto (dentro de um dos quais havia um saco de pipoca -que poderia ser descoberto segundo uma conta matemática fabulosa) acumulando poeira do lado de fora e tétano dentro de si mesmos, duas formigas apostavam corrida.
Na prática, porque na teoria elas estavam fazendo algo que apenas diz respeito à bio-sociologia.
-Eu duvido que você chegue antes de mim!
-Que pena, porque eu que vou chegar!
Estavam em um embate desgraçado.
A cozinha estava vazia, mas a luz havia sido esquecida acesa. Os objetos sobre o móvel de imbuia não se preocupavam em criar vida, entretanto.
-Olha só, a malhada vai ganhar! -diria o Garfield banqueiro se pudesse.
-Vai nada, eu aposto é na retinta! -diria a abelha-silo.
Mas as formigas estavam apenas correndo rumo a alguma coisa que lhes dissesse respeito segundo o diagnóstico do zoólogo.
Mas eu insisto que estavam apostando corrida.
-Você está comendo poeira!
-Você vai ver só! Vou falar que você é uma formiga preguiçosa!
-Isso só se você conseguir chegar até lá! -e esta soltaria uma gargalhada que até os ímãs de geladeira estremeceriam -e olha que ímã de geladeira nunca sente calafrio.
Mas a geladeira continuava no ritmo monótono -e assustador ao mesmo tempo- de sempre. Enfim as duas chegavam ao limite imposto pelo móvel.
-Não falei que era a retinta?
-Tudo bem, o dono do dinheiro sou eu mesmo!
Mas as formigas desafiam a gravidade, e elas subiram rumo ao céu, que é o teto.
-Eu ainda vou te alcançar!
-Estou só vendo!
Algum barulho de porta.
Foi apenas impressão.
As coisas continuavam intactas. Na teoria.
Porque na prática, eu insisto, elas acompanhavam a acirrada competição entre a formiga malhada e a retinta, preocupadas apenas em serem tudo, menos um inseto.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Digressão

Dá um medo.
De não saber o que fazer.
Por um instante eu pensei.
Vontade de abraçar. E o abraço é engraçado, ele é só praticamente um dos gestos que mais dão margem para se acusar de insegurança. Parece que abraçar significa ingenuidade.
Talvez seja isso mesmo.
Não creio que os paulistanos gostem de abraçar. Nem acho também que estejam aptos para começar a fazê-lo.
Acho que, pobrezinho, o abraço será esquecido. Parece algo elementar em todos os lugares. Mas o que esperar de uma sociedade que abole o amor senão o esquecimento das práticas românticas. O abraço tende a durar enquanto continuarmos nos reificando. Quando esse processo terminar, nós, máquinas humanas, poremos em início o processo de hiperfuncionalização. Serão abolidas a estética e beleza, pois, a princípio, elas não têm utilidade para a manutenção daquilo que é vital. O beijo não fará, pois, mais sentido e, tampouco, o abraço. O sexo continuará a ser mecânico, mais ou menos como é hoje em dia, só que institucionalizado.
Mas será exatamente aí que a máquina ruirá. A beleza é apenas aparentemente improdutiva. Ela, entretanto, no mínimo, alimenta o espírito, e aí a máquina perderá no que diz respeito à sua alimentação.
Espera-se contudo que os homens perfeitos que a criarem se preocupem em manter a pluralidade, mesmo que artificial. Uma máquina social que prescindisse da alteridade, que minasse todas as particularidades estaria minando a si própria.

Engraçado.
Por um instante esta digressão monstruosa me fez esquecer do medo. Daquele medo de não saber o que fazer.
De não saber o que fazer quando não se tem o que ou quem abraçar.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Proseccage

Noite.
Na Paulista amores em potencial. Paulistanos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Canção do Asfalto ou Canção do Assalto

Era uma subida, não muito íngreme, e na rua recém-reasfaltada, Heloísa, que é o nome da minha bike, e eu passeávamos. Não me interessava chegar mais cedo ou mais tarde em casa, desde que as minhas preocupações pudessem ser dissolvidas por inteiro na brisa da paulistana noite sem estrelas. Como eu ia explicar que o meu terceiro aparelho celular quebrara, como os outros dois, para os meus responsáveis? Mas o problema logo se resolveria.
Para converter-se em outro.
Eram duas horas da manhã. A postura que eu assumo em relação ao mundo, eu não quero mudá-la. Digo exatamento o mesmo para todas as pessoas quando elas me dão sermão quando pinto o cabelo de verde, quando saio de mãos dadas com o meu namorado, quando atravesso a cidade com Heloísa, quando saio para andar de bike às duas da manhã: eu estou disposto a assumir o risco para poder me sentir mais livre. E, também por enquanto, sou inexorável quanto a esta ideologia. Foi o que restou de mim depois de ler Raoul Vaneigem.
E o risco tornou-se efetivo quando, naquela subida, um sujeito, na direção oposta, ou seja, na descida, parou a moto, desceu e me encarou com uma cara odiosa. Entendi absolutamente tudo na hora. Fui em sua direção e pretendi acelerar Heloísa, mas na pré-dispersão em que me encontrava, e também pelo fato de eu estar em uma subida, o meu plano engasgou, de forma que o meu grito de "filho da puta" logo cessou quando o novo amigo me derrubou da bicicleta, com uma força que só a abstinência pode produzir.
Eu bem poderia ter dado meia volta. Mas o único pensamento que o meu reflexo considerou foi o de possivelmente destruir meu oponente, o que não aconteceu.
[A bem da verdade pode-se pensar no oposto.]
Era como se o meu inconsciente ordenasse
CORRA! SEJA ASSALTADO!!
Na queda quebrei um dente.
Irreversivelmente.
Heloísa também zuou a clavícula, pobrezinha, não tinha nada a ver com isso.
Sobre mim, na calçada da vida, me asfixiando com uma chave de braço, ordenou-me que sacasse o celular. Obviamente eu não o fiz (i) porque estava imobilizado e também porque (ii) estava asfixiado. Felizmente (sim, porque tudo aconteceu felizmente) ele pegou o celular, que estava com o visor quebrado a quinze minutos (o que é uma pena, porque o dispêndio de sua empreitada acabara sendo infrutífero) e se foi em seu alazão em busca da cocaína sonhada.
Um babaca! Achou que ia conseguir assaltar alguém às duas horas da manhã de um domingo. Conseguiu só porque tem muita sorte (ou felizmente não, afinal furtou um aparelho que não valia naquele instante um terço do que quando fora me dado).
Recompus-me na velocidade que consegui.
Levantei-me mais ou menos.
Lesado.
Onde está o meu dente?
A liberdade levou.

Levantei Heloísa e rumei em direção a um pouco mais de satisfação pessoal.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Do cabelo verde

O preço que eu pago por pintar o cabelo de verde é, minimamente, a paranoia. Ousaria dizer que o pacote inclui um aumento absurdo da falta de respeito dos outros em relação a mim: meus direitos de cidadão moderno são suspensos e, conforme a animosidade dos meus concidadãos, o poder de análise destes se torna audível, seja o diagnóstico positivo ou não.
A crítica mais ferrenha a respeito dessa atitude diz respeito àquilo que no senso comum se dá o nome de chamar atenção. Uma explicação ingênua para essa repulsa seria dizer que os demais têm inveja da minha coragem de efetivar aquilo que na verdade seria um desejo latente. Não posso crer que seja assim fácil de explicar.
A crítica se volta a uma atitude que chama atenção. Por ser diferente, talvez. Não sei também se a explicação está ao meu alcance, diria que não. O fato é que a cor excêntrica instiga.
O verde em especial -e aqui eu me dou o direito de fazer tal comentário com argumento de autoridade.
A lógica é simples: alguém pinta o cabelo de verde para chamar atenção, afinal, é inconcebível que alguém o faça pensando no efeito estético que isso pode produzir. Logo, os indivíduos se esforçam para catalogar a anomalia conforme determinado motivo ou ideologia nos quais ela se encaixa taxonomicamente.
É fácil: eu sou palmeirense! A outra comum é o Hulk. Ambas explicações são automáticas e obviamente superficiais. Um ou dois me perguntaram se se tratava de vegetarianismo ou veganismo. Um perguntou se eu era punk. Alguns poucos fizeram gestos de aprovação, alguns outros grunhiram de reprovação.
Mas é óbvio, para quem me conhece, que a última coisa na qual eu estou pensando é na Mancha Verde, imitar uma personagem ou em parecer um straigh edge consciente. Trata-se do efeito estético que a cor verde, minha predileta, apresenta enquanto cor do meu cabelo. Acho realmente bonito.
Outra observação diz respeito ao pensamento das pessoas acerca dos instantes em que eu estou de cabelo colorido e um parceiro. A associação do afeminado com aquele homossexual que chama atenção é o lugar comum do qual se depreende a máxima não basta ser gay, tem que chamar a atenção. Pintar o cabelo de verde então é a extensão de um projeto cuja essência se encontra na homossexualidade.
Contudo, como enunciado no início, além da situação humilhante de objeto de estudo no qual me transponho ao pintar o cabelo, o outro preço que eu pago é a paranoia. É sair de casa e, a cada pessoa que passa, pensar no que ela está achando, mesmo involuntariamente (salvo certos momentos em que eu realmente esqueço disso ou estou com amigos, algo assim), ou pensar no impacto que eu estou causando (e essa é a parte divertida; fico entusiasmado de pensar no risco que eu assumo para me sentir mais livre, pois às vezes, eu realmente acho, perturbo um ambiente apenas com a minha singela e colorida presença). É medir cada um dos meus passos, cada uma das minhas ações, cronometrar gestos, planejar a entonação da voz...
Tudo isso apenas para que eu possa provar para mim mesmo e para o resto do mundo que uma pessoa de cabelo verde pode apresentar uma conduta não necessariamente agressiva diante dos demais, excetuando, claro, a própria agressividade e, portanto, também o sentido político, intrínsecos ao efeito do cabelo.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Notas

O homem que eu era voltou.

Eu disse ao garçom que quero que ele morra.
Em sua garçonnière ri com as notas de dinheiro.
Me trocou por uma de cem! Por uma! Só uma!

Mais um gim tônica.



Relato do Rolê Miado

Convidado feito um estranho senti certo receio. Mas os vários de mim convenceram a não duvidar, e lá fui, livro na cueca, cueca na calça, previnido de tédio-dos-outros-que-também-me-quer. Mas diacho que o cobrador do bús pra quem pedi informação não deu palavra durante a viagem, e dei por conta do infortúnio apenas no fim do passeio. Quis ligar, avisar que eu 'tava miado, mas não encontrei dois celulares no bolso. Embriagado de medo naquele terminal que eu não conhecia -que, eu temia, terminasse comigo antes que eu terminasse co'aquilo-, 'inda criei coragem e colei no orelhão. Avisar-lhes-ia a respeito das minhas condições em relação ao rolê, mas aqui o futuro do pretérito indica pro senhor que o efeito foi abortado: certa figura me pausou e puxou conversa. Disse-lhe que 'tava meio zuado pra discursar, mas o piá não me deixou em paz com história de família, de Jesus, de dinheiro, e eu gritei pro pivete que saísse do meu pé. Pois o trote foi duplo, o pai do pestinha me colou no ouvido antes mesmo que eu tirasse o gancho do fone. Veio sim, e veio com história de respeito, educação e o escambau, então eu simplesmente gritei que aquele cachorro fosse pro inferno. Pra quê?, o tio enlouqueceu, e também nunca vi pessoa mudar de cor de emputecida. Pois eu garanto, o mano lá do terminal ficou azul de raiva. Literalmente. Eu disse "Calma, campeão, eu só não dou o dinheiro porque 'cabaram de me roubar", mas o azulão parecia não estar mais interessado em nada senão me destruir. E, puta que pariu, eu não tinha grana nenhuma. Então um tio de bombeta e óculos mui bregas, feito o Roberto Carlos (com barriga feito gigante cisto), de longe me disse que não temesse, se tratava de televisiva anedota. Cristo! Bradei que pro inferno fossem com aquela maldita pilhéria, que eu não estava em condições et cætera. Uma semana depois apareci na televisão. Não assinei nada, não precisei, eles forjaram uma rubrica. Ignorei a ideia de processá-los. Comecei a comer uma mina que me conheceu por meio do programa de pegadinhas. Tanto melhor.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Tentativas

Sei que vai ser muito bom.
Pois eu tenho a imaginação fértil
Gosto de agradar.

#1
Quando ele entrar por aquela porta, eu vou simular estar durmindo, então ele se inclinará sobre mim e dirá
Acorda, amor, eu vou te levar pra cama.
Então agarrarei em seu pescoço e darei um beijo que vai deixá-lo sem língua pelo menos até o início da manhã seguinte.

#2
Quando ele abrir a porta, a casa estará inteira à meia luz, estará tocando James Taylor, e eu estarei na cozinha esperando ele se sentar.
Quando isso acontecer, servirei um vinho.

#3
Quando eu ouvir o carro chegando, correrei para a frente da casa apenas de cueca.

#4
Quando ele entrar no quarto receberá uma flor, que terá de morder enquanto eu amarro suas mãos e vendo seus olhos. Tirarei toda a sua roupa apenas com os dentes.

#5
Quando ele adentrar a sala de estar me ouvirá clamando do banheiro para que vá me fazer companhia no banho.

#6
Quando, depois de trancar a porta, ele olhar para trás e me ver com uma cara tristonha, perguntará
O que aconteceu, amor?
Eu direi
Acho que estou muito vestido. Será que você não pode me ajudar?

#7
Quando ele entrar na cozinha, me verá devorando um pote de sorvete.
Quer me ajudar?

#8
Quando ele se deitar ao meu lado esta noite, como em todos os outros dias, perceberá, como em todos os outros dias, que há um preço para se dormir em paz.



s/t

Sentimento mentiroso
Premente no peito
Quero o amor das manhãs
Irritado ou manhoso
De qualquer jeito
Seja qual for o afã

s/d



s/t

Namorado. Namorado.
Eduardo. Eduardo.

s/d

terça-feira, 29 de junho de 2010

Declarações de amor com palavras ao vento I

#1
Aproveitando o jogo do Brasil, vesti aquela camisa verde-abacate que eu não usava há muito tempo por vergonha, e fui andar de bicicleta. Quanto verde, quanto amarelo... Mas o mérito verdadeiramente paulistano, e verdadeiramente verdadeiro, é o cinza.
Eu te amo, inferno.

#2
-Sim, gato, nós temos que resolver uma coisa sobre a tua cama.

#3
Acho que a sola do meu pé nunca mais será fina de novo. Não o temo, sinto-me protegido.
Acho que os calos que o guidão da bicicleta produziram na minha mão jamais sumirão. Não os temo, sinto-me parte de alguma da coisa da qual jamais terei vergonha.
Acho que o meu coração sofreu um acidente e jamais conseguirá respirar por conta própria. Não o temo, desde que você esteja lá para alimentá-lo, até que um dos dois primeiro se vá.


Cigarros Voadores!

Um cigarro voador muito bem planejado não significa que em tal processo se constitua como agente da perfeição. Mesmo porque tal processo está fadado à imperfeição se esquecido pelos delegadores de critério: a ciência é relativa.
Pés-de-galinha fenestradas estão dançando paradas. Apenas o foco míope defenestra a si próprio, acompanhando a catapulta digital. O arco descrito é luminoso feixe, faísca laranja na rua planejada. Ou quase planejada.
O importante é que assim começou o diálogo.
-Cigarros voadores!
-Opa! Foi mal aí!
-Que é isso!
Uma gargalhada inapropriada.
-Escuta campeão, como chego na Flores Campos?
-Aonde?
-Na Flores Campos.
-Ah! Vish! Acho que você tá meio longe.
Da fenestra os míopes olhos notaram os cansados interlocutores, comportados em bolsões cor-de-terra. Entretanto não cessavam de brilhar. Logo completou!
-Ah! Espera aí que eu te dou uma carona.
-Ah! Não! Não! Não precisa, eu vou ligar pro táxi.
-Preciso comprar cigarros, o Premium é o supermercado...
-Isso!
-Que fica...
-Então, é lá perto, me falaram.
-Na Flores Campos.
-Perto de onde preciso ir, quer dizer.
-Então peraí um pouco, vou só pegar uma blusa e avisar a velha.
No caminho não trocaram palavra. Um súbito constrangimento apossou-se do carona. Contas eram feitas a título de passatempo. Unhas, contudo, não foram poupadas da mutilação do acompanhante avulso. "Por enquanto foram dez minutos. Como é meia noite e meia e praticamente não há trânsito, a pé eu demoraria uma meia hora. Acho. Então, se disser à Lucinha quando chegar que..."
-Desculpa!
Disse antes da não-calculada parada. O carro fez doente ruído.
-Preciso ver uma coisa.
Assustado.
-Ah! Okay! Digo, já está perto? Posso ir andando.
Nenhuma resposta. Suave ré. Olhos arregalados.
-Que que há campeão? Tá tudo bem contigo? Tá passando bem?
Olhos estáticos. O novo amigo resolveu segui-los.
Em um beco insuspeito silhuetas brincavam. O campeão chora.
-Que foi? Acho que você está tendo alguma crise, né? Espera aí, eu já volto, vou buscar ajuda.
E no final da história, nem o dono dos pés-de-galinha esperou seu companheiro instantâneo-ocasional, nem este último voltou com recursos para auxiliar o primeiro a voltar ao estado de normalidade.
E, eu garanto, como que como um milagre, o cigarro arremessado só se apagou com o primeiro raio de luz arrogante matinal.

fim de junho
2010


a melhor poesia que eu escrevo
tem as letras do meu amor
eu luto pela poesia - do meu amor cogniscível
subcuecante e supracardíaco, o amor difícil
das centenas de horas, agoras, aforas
que chora, que flora, que adoro, deploro, que adôrno, que chôro

a melhor poesia que eu canto
tem o cheiro do meu amor
eu luto pelo aroma - do meu amor reconhecível
lácteo-pigiante, naso-sudoríparo, o amor sensível
meu amor escovado, lavado, chupado
lambido, marido, na cama, sacana, deitado, jogado...

esperando minha boca

5 4 2010

domingo, 27 de junho de 2010

Amor Irreversível III

Eu tenho o péssimo defeito de não saber de cor as letras das músicas da moda. Depois de ancorar no porto seguro (olhos, um par de botões) me resta apenas determinada simpatia e um fascínio de sociólogo sobre o que é este êxtase artificial e celular no qual esta galera moderna é viciada.

Te falar que não me exerce fascínio é te assumir alguma medida de hipocrisia. Meu rapaz, essas coisas são gostosas, eu sei. Sabes também. Não o negaremos. Mas até agora o que me resta é simplesmente a curiosidade sociológica. Descobri o amor na porta das manhãs, foi à tarde, e eu o estou vivendo nas barbas da eternidade.

Amo irreversivelmente. As senhoras sentadas em estrelas despencaram terrivelmente. As cores que pediram a conta do analista voltaram; estão quase em alta. Tirei do freezer algumas das estrelas. A cidade tem feito por merecê-las. Se minha felicidade tivesse um nome -e seria maldoso da minha parte batizar um sentimento imensurável, mas estamos falando de estética-, seria Eduardo. Nome de uma felicidade eduarda.

Eduardo, guardião das riquezas, virará o meu adjetivo predileto: qualidade daquilo que guarda as riquezas. O meu coração eduardo tem lugar para o que sente uma pessoa eduarda (aliás, que é a mesma pessoa que a minha: simbiose total). O meu amor eduardo comporta o meu amor Eduardo. Vamos eduardar os corações, torná-los possuidores e ricos. Não tenho palpites que possam ser seguidos, eu por ora tive sorte. Não sei se o caminho é a casa noturna. Esqueci de tudo, o único endereço que eu tenho é o número do celular do meu amor, que me leva até a eternidade. A eternidade eduarda.



Amor Irreversível IV (Outono em mim)

(I)

O amor que me espera na porta das manhãs tem me dado fôlego. Há uma semana, jantar em casa, e as flores na imbuia 'inda respiram, se pá com o mesmo vigor com que faço o mesmo agora.
As fotocópias agora são só amigas, com quem pratico queda de braço -sempre me vencem, mas eu gosto-, com excessão de algumas com quem 'inda tento estabelecer conversa. Às vezes eu não entendo palavra do que dizem. Pobres antiquados versus pobre mim, que não sou um clássico.
Mas o amor que me espera na porta das manhãs é supra-pulmonar, meus mecanismos biológicos não são mais da ordem normativa das fisiologias; a fisiologia do amor está me convencendo a revolucionar o fator consuetudinário daquilo que agencio.
Não tenho escolha. Acho que o doutor Marinho da Silva, que roubou o meu coração sob pretexto de melhor estudá-lo (furá-lo, espetá-lo, maltratá-lo, testá-lo, aprová-lo, tomá-lo para si e então me chutar feito sarnento cão, sem coração, sem Eduardo, sem nada) faz um bom trabalho. Senão como médico, como feiticeiro, porque eu estou enfeitiçado (ele deve ser algo parecido com um quimbanda, ou um sacerdote do vodu, com seu cajado de palavras sensíveis e seu bisturi -que mais parece um sorriso- de operações espirituais). Portando ainda seu sorriso maligno -que corta feito um bisturi- temo que me hipnotize. Ou então é tarde demais, e não domino maneira de resgate. Mas nele confio, e no seu senso de comme il faut. Ipso facto ipso jure me submeto: cruzo as pernas de lábios indecisos, cruzadas de amor, indecisos de ansiedade, I never loved a man the way I love him, a Aretha Franklin desabafa.
Mas meus pulmões não me enganam, meu sorriso está aí para tudo quanto sou eu, e de alguma forma Eduardo também está. Quanto mais passam as horas mais me sinto seu, e mais o sinto meu. Tudo tem constituído sentido singular. O Malinowski compartilha disto. De jeito símile as próprias cores, as minhas refeições e a rua. E as pessoas, que são vício tão feliz quanto o que tenho pelas minha unhas.
É esquisito, mas sinto algo de pleno. Desprezo o inverno, a poeira me enfastia. Senão de verão, de outono. Em pleno outono.
Em pleno. Outono.


(II)

As flores da semana passada se esforçam para me entender. Conheço o potencial que têm. Mas vão morrer bem antes de mim. Depois que terminar o player, o pai-dos-burros virtual, e fechar o bloco-de-notas da pós-modernidade, terei uma conversa tête-à-tête com elas.
Expio os crimes de mim -cada vez mais de porre- até lá, com o riso safado do hipócrita: ai que falta de vergonha eu tenho, de ser tão feliz.


(III)

Sinto algo em nós que é maior do que todo o resto, algo que compartilho, que compartilha, que compartilhamos...
Sorrisos se desfazem na poeira das manhãs: é meu amor que vem me buscar mais uma vez para o dia que se anuncia, ninado, ninando, me ninando, meninando...
E eu nunca tive tanto poder.

5:15
20 6 2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Desabafo

Descobri em alguém mais um vez, e ao contrário das expectativas -tão murchas após um período de inferno astral secular-, alguma coisa que eu pudesse julgar mais próxima do que considero "ânimo". Depois de muito, muito tempo espe(rma)culando a respeito do que seria uma ideia de vida a dois (e as várias possibilidades e possibilidades de legitimação de tais etc) eu tive uma comprovação de que na verdade eu quero morrer ao lado de um anti-príncipe. O mais assustador é notar como esta figura familiar retornou à cena não apenas de cara, nome e roupa trocados, mas surpreendentemente de forma muito mais sedutora do que todos os outros episódios, o que eu por um instante -confesso- julgara impossível -em virtude, é claro, de muitas horas solitárias, sendo essa última estima "impossível" o estágio final de uma linha temporal que começara no "fácil", passara pelo "complicado" e precedera o "dificílimo".
A mescla de características de importantes camaradas que o precederam foi algo que me chamou a atenção. Não sei se tem a ver com alguma nostalgia latente -sou tentado a acreditar que tem, mesmo eu não querendo-, ou se é simplesmente o caráter antiintelectualista do meu novo amigo que me seduzia, a ponto de confundir a minha libido sem eu nem mesmo tê-lo possuído ainda -característica pessoal manifesta apenas em momentos específicos posteriores a encantamentos.
A corrente de metal que eu usava como colar pode ou não ter relação com isso. Mas o sujeito que eu conheci simplesmente representava uma grande medida percentual daquilo que eu aspirava (com alguma confiança não absoluta) como sendo a possibilidade de efetiva interação supra-superficial -e realização da aparência e dos papéis por mim imaginados no que toca o social, o que é podre, assumo.
Ser legal -e aqui eu me refiro a "legal" no sentido individual e próprio da concepção- não é coisa muito fácil. Ser parceiro e ser legal é praticamente meta de uma epopeia cotidiana, mesmo se tratando de uma cidade megalomaníaca como São Paulo (onde não se pode sequer ver mais as estrelas, porque elas se enfurnaram em quitinetes no COPAN).
Ainda assim não posso ser merecedor dos gritos de vítor, não porque eu esteja interessado em provar que não existe realização estrita e sim relativa, mas porque, se eu estiver falando de uma dimensão prática, porque Ele não me procurou mais, fazendo com que eu entrasse mais uma vez em um estado paranóico e talvez até de enlutamento. A analogia com as cinco fases do reconhecimento da própria morte é tentadora, mesmo que eu careça de base empírica para provar cientificamente uma relação com o caso da minha nova e velha perda. Vale a metáfora então: Choque -> I.Negação -> II.Cólera -> III.Barganha -> IV.Depressão -> V.Aceitação. José Luiz de Souza Martins, de quem eu tirei esta construção, assinala dizendo que o moribundo ainda pode morrer estagnado em uma das fases.

Lendo um livro muito pesado (para mim) chamado O que é Corpo(latria), de Wanderley Codo e Wilson Alvez Senne, deparei-me com a seguinte frase:
O prazer maior está exatamente na perda, no descobrimento do outro em mim, único caminho da construção da individualidade.
No contexto, os autores se referiam ao orgasmo e à sexualidade humana (o argumento era de que o exercício da sexualidade -pra ser mais específico, do orgasmo- é, paradoxalmente à concepção corpólatra do prazer individualizado, impossível sem o outro e que, como o trecho supracitado propõe, o prazer do orgasmo está na alienação do indivíduo de um êxtase que é simbiótico). Podemos considerar este axioma além da esfera sexual, ampliando o campo conceitual proposto para um que seja pertinente a qualquer tipo de interação social (em um sentido estrito, mais ou menos weberiano).
Posso então exprimir meu descontentamento neste desabafo, e mais especificamente, em uma pergunta (passível de entedimento dados os argumentos elencados até agora, porém de resposta aparentemente incognoscível).
Como, após mais uma desilusão como a problematizada, e lendo um texto igual a esse, posso então erguer o nariz e com uma convicção que não seja falsa dizer que posso acreditar ou que acredito no amor, mesmo que no sentido prático?

2:16
4 6 2010


Bipolaridade Mentirosa

Um sentimento. Não sei se frio, ou uma angústia intensa. Intensa de saudade. Saudade de alguém.
Parei de sofisticar as dores: as coisas são fáceis efetivamente, elas de fato dão certo. Pode ser um otimismo cego. Se for, quando eu acordar desse sonho maravilhoso (caso isso aconteça, o que é possível, mas atualmente inverossímil) não terei entraves para assumi-lo. Pago então o preço do ridículo, caso se trate disto a situação; o risco que eu assumo é maior do que o mundo, vai me sufocar de vontade, temo estar possuído: as coisas são fáceis efetivamente, elas de fato dão certo.
Anti-príncipe? De onde eu tirei essa bobagem de mensurar nessa dimensão o amor, sendo que ele jamais será racional, e portanto mensurável? Não posso confundir simples "quedas" estritamente com aquilo que eu posso esperar de um deus estático.
Não condeno minhas crises. Elas sempre estiveram aí para serem superadas. Entendo agora que uma crise demorada merece também uma revanche demorada.
Eu não vou mais me culpar a respeito de nada, ou culpar o mundo, as coisas, a sociedade, São Paulo -que não tem estrelas-, ou a Sociologia; estou num estado de transe, um êxtase egoísta que não quer saber de mais nada senão retroalimentar-se, embriagado por um sorriso, encantado pelo acaso.
As coisas são fáceis efetivamente, elas de fato dão certo. Ficam as dicas.
Minha paranoia me rendeu linhas e mais linhas, mas eu não as deslegitimo: olho para elas agora com curiosa atenção e penso em como as coisas mais terríveis no mundo já conseguiram inspirar os homens tão brilhantemente. Posso julgá-las (as linhas) ingênuas, mas sei que a princípio não são, nunca serão, são parte de mim.
O barulho da semana passada não me diz respeito no exato momento. Um dia, quando eu voltar a mim mesmo e puder fazer um balanço, eu vos informarei das coisas direito (se bem que vós já deveis estar entediados com a minha bipolaridade mentirosa). Por enquanto eu quero continuar de mãos dadas com a vida, absorto em um sorvete sem fim e amando em completo silêncio.
E este silêncio é tudo.

0:13
7 6 2010


Texto do Domingo Gelado

Quando acordei, às três horas da tarde, ainda estava um pouco tonto, ressaca da pinga. Deve ser por isso que aceitei comer o macarrão requentado -surpreendemente palatável- da noite passada, com molho de pimentão, abacaxi e café, pela minha mãe.
A noite e a seguida madrugada passadas foram muito especiais. Uma noite divertida. E romântica.
-Você quer namorar comigo?
-Sim.
Antes de sair de casa pus as músicas da Ella Fitzgerald no celular. Foi isto que ouvi no resto da tarde e na noite tão gelada. Mas a mania das bermudas não me abandona.
-Eu estou disposto a viver este amor irreversível.
Nunca pensei que fosse dizer aquilo. O capítulo d'O Suicídio, do Durkheim, era fantástico. Foi o que eu li indo de metrô até o Centro Cultural São Paulo. A Catherine Deneuve, novíssima, em uma atuação fantástica no filme do Polanski chamado Repulsion (título traduzido para Repulsão ao Sexo no português brasileiro) era tão surpreendente quanto as metáforas do filme, o enredo, o movimento do filme e as câmeras competentíssimas. A trilha sonora foi feita por um tal Chico Hamilton. Era boa.
Saindo da sessão, um pouco mais de Durkheim. Os arranjos do Nelson Riddle para as músicas da dupla Gershwin -competentissimamente interpretadas por Fitzgerald- ainda me acompanhavam. Não me dei por satisfeito, a noite geladíssima merecia um café.
-Eu estou apaixonado por você.
Quero viver um amor irreversível declarado, com data de nascimento, registro geral, e formalizações de cacau. Quando que eu ia pensar uma coisa dessas há três anos atrás?
Na padaria Lisboa, recém-reformada, aqui neste meu bairro chamado Tatuapé, pretensamente tradicional (o bairro e a padaria), pedi um café grande e um croissant, só para poder cruzar as pernas no balcão e terminar o fantástico capítulo d'O Suicídio, O Suicídio Egoísta. Não é com demonstrações dialéticas que se desenraíza a fé, simplesmente brilhante. Não entendo como a Sociologia é privilégio apenas de meia dúzia de graduandos de carreiras de humanas, e foi rejeitada da grade da educação básica durante tanto tempo. Esconder Durkheim das crianças é uma maldade tão grande, tão egoísta, não sei o que pode ser pior.
Quando terminei, descruzei as pernas, e ainda sob efeito de Ella fui à lan house tratar da minha faceta virtual -na verdade, socializar um pouco, no fim de mais um paulistano, gelado e solitário domingo sem estrelas, porém suficiente.
Voltando para casa, avistei uma embalagem violada de Kissy graviola. Mais pessoas de bom gosto na Cidade Mãe do Céu.
Estou enjoado de tanto verde e amarelo. A Cathy Deneuve realmente estava boa no filme. Achei as pessoas meio irritadas no cinema e na padaria. Será o frio? Será a copa?
-Nenhum homem jamais disse algo tão lindo para mim.
Enjoo de patriotismo-mercadoria, ...mas ele não se mata por se instruir, o man I love, Billie Holliday foi violentada, a Maria Callas é bonita, é tudo tão sórdido.
-Barreira, olha a minha nova aquisição. Comprei na Benedito Calixto, uma pechincha!
-Olha como você trata os seus homens, Eros.
(Mais) um domingo (paulistano, sem estrelas, e) gelado.
A gente namora, namorado.