terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Balanço de dois mil e nove.

(Senti desde o início que ninguém leria este post inteiro.
Mas o mais importante pra mim foi simplesmente
ter feito este balanço e publicado esta antologia)


No final de 2008 e no início de 2009 eu tinha um bloquinho da Globo.com que a filha da mina que o meu pai pegava quando ia ao Rio de Janeiro desprezou, e por isso acabou em minhas mãos como um presente de natal. No primeiro bimestre de 2009 conheci o Ed e fiquei inspirado pelo tédio no curso técnico de Museu (aliás fiquei entediado no semestre inteiro). No Parque da Juventude e durante as aulas do curso escrevia bastante coisa.

Quero que tirem meus pingos dos is
Só assim que serei ferrugem
Quero que limpem, quero que sujem
Assim como escrevo e as vacas mudas
Quero que plantes, quero que acudas
Mas não vou trair, feito certo Júri
Quero que fume, quero que cure
Preciso de nada mais que atum
Quero que arranhem, quero beber rum
Mas que tal tirar meus pingos dos is?

23 1 2009


-Por que você lê Dom Casmurro?
Por que você é burro?
-Eu sou escravo da FUVEST
E nem que isso não preste...
-Apague aqui o seu cigarro.

11 2 2009


não, tudo bem, pode ir, eu sou sem sal
pode crer que o teu melhor é ir pular o Carnaval
não preciso mais procurar teu olhar no reflexo
o espelho que eu comprei só me deixa ver teu sexo

eu não gosto do que gostas e não ligo pra tua vida
não sou parte do bom tipo de gente com o qual lidas
não, tudo bem, não vou ser um mala sem alça
eu recolho minhas coisas, minha blusa, minha calça
(não quero ter uma vida falsa)
-mas eu te adoro

s.d.



Depois disso, em Março, veio o platonismo por um cara de Guararema (que sumiu) -falta minha de maturidade-, a uretrite e a superação desse cara, quando eu saí com um monte de gente -inclusive com o Ed de novo.
Aí eu já tinha um bloquinho que comprei em Itatiaia com minha tia Ivete (acho que era início de Abril), e um que comprei (devia ser Maio) com a Letícia e a Ingrid no shopping Anália Franco -na Saraiva.

hoje acordei com uma vontade louca
de pular da cama, tirar a roupa
de cantar até vomitar de alegria
uma vontade de compor poesia sem nexo
uma vontade louca de fazer sexo
de acabar com toda a tua melancolia

componho um aforismo
escolho até um lema
minha gente, eu cismo em ir a Guararema
-mas que celeuma

s.d.


eu olhei pra ti no shopping e pensei: hum! esse deve dar um chá
você olhou pra mim e disse: vamos pra casa, eu moro lá
trocamos juras de amor e várias injúrias de dor
e coisas do tipo "ah! você pode ser a minha sorte grande, eu lhe dou minha boca e você sua glande"
e à tua casa eu ia umas três vezes por semana
e eu nem te conhecia, só o teu lado sacana
eu fantasiava que era um urso -você era minha colmeia
mas eu jamais ia imaginar que você tinha gonorreia
foi! foi! estou certo, foi! foi com você
que eu peguei a minha primeira DST
(e agora você me chuta --azar filho da puta)

s.d.


bandido!
você roubou meus olhos.
você roubou minha orelha, minha boca, meus sentidos.
você roubou minha cabeça, violou meus pensamentos, roubou minha poesia.
você roubou meu tempo.
você roubou minha tarde, minha noite, meus sonhos.
roubou meu dia inteiro. as minhas horas todas.
roubou o meu domingo, roubou minha atenção.
você... você roubou meu coração.
você roubou o meu amor, o meu tesão, a minha respiração, a minha capacidade de acreditar no inacreditável. você roubou a minha normalidade, a minha calma, a minha raiva.
você roubou meus olhos.
você me roubou tudo e levou pra Guararema.
o que eu faço agora?

s.d.


neste presente dia
estou estou abstraindo
fazendo mas quase traindo
a minha melancolia
dezesseis anos sem balas
sem balas redondas de canela
que guardas, minha boca sela
tão viva de violar jaulas
neste presente dia
te beijo, simples, não falas

1 3 2009


olha Geórgia! olha!
a Lua 'tá cheia!
e hoje é dia 10!
que lindo

oh! Lua linda
não fique nua
teu brilho finda
no fim da rua

10 4 2009, Resende, RJ


trova

Oh! meu bloco amigo
Eu te consigo
Teu Oh! com sigo
Compro um jegue
Teu Oh! com segue
Pagou meu sigo
Oh! meu, teu jegue
Já espirrou a porra
Meu jegue, morra
Teu Oh! com segue
O sábado jorra
Oh! meu bloco amigo
Eu te consigo?

s.d.


mas o melhor devia mesmo ser a boca. enorme, eu quase não coube nela, mas foi pelo sorriso, por causa do seu sorriso gigante. tão longo era o seu sorriso, que eu sonhei que ele por um instante fosse a eternidade, de tão contente que parecia. e com um bigode, mas um ligeiro bigode; um bigode não daqueles ingênuos, mas experiente, bem criado, um bigode de família, esperando para me ferir e para me pentear com a sua alma com toda a sua rígida maciez de garoto sorridente. e a sua voz, tão macia quanto sua boca, simpática porque parecia ter nascido simpática (alguém com aquela voz conquista qualquer algo, com aquela voz domina sem nenhuma psicologia acadêmica, qualquer indivíduo, domina o espaço, hipnotiza a Lua). eu acho que se ele abrisse a boca para cantar, a sua voz grave de Karen Carpenter encheria todos os meus pulmões, o metrô, os túneis, as cavernas, as grutas da minha cabeça. mas uma boca daquelas não tem dono. aquilo é tombado pela e para a humanidade, cercar aquilo seria egoísmo com os meus colegas de mundo. mentira. sonho mesmo é em desvirginar o magno cargo, ser rei de uma fono-monarquia, déspota absoluto daquele paladar lúdico e cruel, príncipe, o príncipe que tem direito àquela macia coroa de lábios, de sabor tão impossivelmente tênue, tão sensível, e que eu só deduzo por causa do sabor que aquela voz tem, de easygoing simpatia. mas eu sou só um plebeu para ter esse direito. eu sonho com a ingenuidade que uma criança tem de se tornar modelo ou jogador de futebol, eu te beijo durante um concerto de música clássica antes de dormir, eu ando de bicicleta e vou a um museu de arte contemporânea domingo de manhã. então trocamos bobagens em uma cafeteria, eu submisso sempre à sua voz. à noite eu te beijo e me despeço, você entra em um trem e eu sou feliz. mas eu sou apenas um plebeu, para sonhar com tanta intensidade. troco as pessoas verbais de entorpecimento. será que eu não te vejo mais?

s.d.


sufoco. e então não há mais filosofia. os vinte e um gramas da minha alma ouviram, cada um deles, soar a hora fatal. não haverá dodecafonismo, cafonismo ou Coca-Cola que me tornará livre para, despertado pela música do meu tempo, descobrir que ainda falta meia hora para a ponta do dia mostrar toda a sua fumaça, que eu espero. não há mais fumaça, a fumaça sou eu. eu sou o movimento no vácuo, que jamais me provaram na escola. declina o dia, acorda a metrópole, dorme o campo, e tudo que se saberá de mim será nada. nasço cimento, mas nos livros de história sou algodão. a História é uma mentira, por isso não passa de história. eu já pouco existo enquanto vivo, quando padeço não morro porque nunca estreei. mas tudo isso não passa de um blefe. fosse mais fácil administrar a minha neurose morto-vivo, e é. eu estou vivo-morto. eu me esquivo dos dardos extra-mentais e estamentais, hipotéticos e patéticos, mas de repente me flagro investindo todo o meu ouro, minhas posses, meus bens, em um iminente golpe, cavo o meu próprio túmulo. e aqui me desencontro, na presença mais mórbida e bucólica que o próprio parque. cada folha que cai é uma lágrima que eu não derramei: eu lido com o valor errado, eu mecanizo as minhas ações, mas elas são muito falsas se eu não as sinto. culpa do meu medievalismo, eu divago a planta de um feudo, que construo com tijolos de abstração, que desaba antes de existir, o projeto natimorto, pedaço de mim, terra conquistada. eu sou um imperador que vive a retração de sua herança, o gato que perde os bigodes ao hipotecá-los. maldito cassino do amor, dos santos que elegem qual das especulações de cortejo burocrático é mais proveitosa ou lucrativa, enquanto eu vivo-morro em um parque, esperando o momento onde serei o parque, onde choverei em sua janela. mas ele não se importa. frio, fecha a cortina e vai à cozinha preparar a janta. derramado, chovido, assisto à cena. sufoco. e então não há filosofia.

s.d.


você é a razão da minha uretrite
você é a razão do meu apetite
você é a razão, mas eu caí, eu caí:

você é a minha irracionalidade
apesar do pesar da minha tenra idade
você é o pesar, mas eu fali, eu fali:

você é o meu lucro, minha mais-valia
você é meu prejuízo, minha porcaria
você é o lixão, eu pequei, eu pequei:

você é a minha igreja, meu pastor, minha cruz
o meu conhecimento, meu talento, luz
você é a minha arma, eu matei, eu matei:

eu sou teu homicida, teu pintor, freguês
não creio no maldito o tanto quanto crês
eu sou teu tudo... e... não! eu brisei, eu brisei

25 5 2009



Então no início de junho eu conheci o Daniel, que inaugurou a melhor fase do meu ano, entre o final do primeiro semestre e a primeira metade do segundo semestre. Minha segunda uretrite é dessa época, mas não lhe dei muita importância. Durante as férias de Julho, especialmente quando estive na Praia Grande com a minha amiga Ingrid, escrevi no DIÁRIO DE ESTUDOS FIGURATIVOS ou PARTE X da MINHA PRODUÇÃO DOENTIA E ENDEDIADA com fragmentos já publicados aqui. Inaugurei o meu melhor caderno do ano, chamado a lógica do amor, comprado em Itatiaia com a minha tia, que começa no primeiro de agosto e termina no dez de setembro, com participação de muitos amigos. Foi nesse período também que eu conheci a Luciana, e que eu comecei o cursinho pré-vestibular -ainda no técnico e no colégio. Grande parte do que eu fazia era entusiasmado pelo ótimo relacionamento que eu estava tendo. A crise começou no início de outubro.

você é foda
o mundo é foda
e gente é foda
o amor é foda
e eu te amo
porque eu te amo
e eu te amo. eu te amo, eu te amo
e é com você que eu vou andar de mãos dadas
e eu vou rir pra você, rir de você
e eu te amo.
(esqueça das ruínas
e esqueça e esqueça)

8 6 2009


prólogo

enquanto você se odeia
eu me odeio
e assim construímos um mundo unidos

1 8 2009


-com'está?
-'stou 'stável.

-qu'é 'stável?
-mano do permanecível.

3 8 2009


eu acho que tenho bastante sorte.

9 8 2009


se eu fosse um buraco, provavelmente me preocuparia menos.
então eu certamente tenho bastante sorte mesmo.

10 8 2009


a lógica do amor me disse que eu não sou real. me disse que eu devo andar de pés no chão e de cabeça erguida. mas eu tropeço.
a lógica do amor me contou que você me ama, mas me disse que eu devo ser racional como um número irracional. mas eu não mensuro.
a lógica do amor arguiu que nós devemos temer o amor, porque de tão grande ele irá nos sufocar. mas eu já não respiro.
a lógica do amor falou que o salário do amor é a saudade, que o lucro do amor é a distância. mas eu sou apenas um plebeu.
a lógica do amor concluiu que eu te amo entre as vinte e duas horas do sábado e as catorze horas do domingo, mas eu te amo com todas as palavras feias de xingar que me fulminam quando eu dou as costas, quando eu fecho a porta, quando estou te amando.
a lógica do amor ACHA que eu não sou real.

23 8 2009


o grã

a minha vida é tão, mas tão legal que, se eu morrer, vai ser uma merda.
tão legal que, se eu fosse bicho, Deus ia se ver comigo.
tão legal que, se eu fosse você, me matava de tédio.
-e a minha cidade é um grande sorriso.

30 8 2009


a noite mais linda tem os mosquitos mais insuportáveis.

1 9 2009


depois de ontem, qualquer vento é um arrepio. suspiro. você me deixou que...

5 9 2009



Então o Daniel se despediu de mim e eu vivi vários meses vazios, e nenhuma das trocentas atividades que eu fazia parecia me completar. Minha situação melhorou mais pro final do ano. Veio o Meu Primeiro Caderno de Sacanagem, que começou no final de outubro. Houve mais um momento de ruptura quando eu vi um filme sueco chamado Prinsessa durante as minhas excursões solitárias. Acho que tenho me divertido mais por agora, contudo.

na Vila Mariana lembrei de você. tropecei em alguma coisa humana. mas era desimportante, como qualquer coisa humana. lembrei de um papel, daqueles que envolvem canudinhos, de como flertei aquela tira branca que contrastava o negro piso da Avenida Paulista. ela era o moderador da nossa discussão. da nossa discussão humana.

24 10 2009


quando uso sapatos furados e meus pés estão encharcados parece a eternidade. um desespero presente.
passo por uma pessoa com o mesmo perfume de alguém que eu amo.
outro alguém me olha com olhos de desejo, mas quem está no comando sou eu, amizade!
minha distância, meu naufrágio, minha distração me furtam mais um vulto.
todos aqui me olham com pena. mas só eu tenho o direito de ter pena de mim.
quanto eu dirigir a Terra -e por isso ser famoso- minhas roupas pobres serão as mais caras.
e continuo a pensar, que quem aqui olho tem um sentimento instantâneo de pena.
meus pés ainda estão encharcados numa meia-eternidade. do que preciso afinal?
tenho uma fome intermitente. devem ser distúrbios de atenção -ou sequelas do péssimo filme que acabei de ver.
acho que vou fechar este caderno de pornografia e voltar à chuva, que ainda não cansou de molhar meus pés.
uma chuva cansada, maníaca e inconveniente. como eu.

26 10 2009


internalizei suas dores
simbiótico e leso
que amei teus amores
-como tanto os prezo...
agora externo e louco,
vivo rindo, lindo
-e chato mesmo, um saco,
como um domingo.

28 10 2009


ressequei meus lábios de desespero. com o pior desespero que tem, aquele desespero mudo.
agora, um desespero mudo com lábios secos e sulcados, dores quentes sufocantes.
você tem uma dor surda -se bem parece mesmo uma conveniência hipersensível.
não sei se aquele foi o nosso último abraço. mas no dia seguinte meus lábios ressecaram.
de desespero.

28 10 2009


supus amante,
não é todo mundo que escolhe a vizinhança.
a cruz brilhante
cega o olho da galera, da vovó, da criança.
ah! não dá mais
pra mim, eu vou beijar outro, vou beijar, eu vou
tens uma paz
super-cristã, ser cristão que és, mas eu não sou.

29 10 2009


o meu coração gritou tanto que fez coceguinha no meu cérebro surdo.

minhas espinhas devem me odiar. mas a morte não tem que ter juízo, quanto mais de valor.

s.d.


você feriu de amor
as minhas pernas peludas
estão n'agora chorando
contraídas ou irritadas
irrigadas de pouco suor
mas de cristalino castanho
brancas, maciez rígida
estão me contando as espinhas irritadas: você me feriu de amor
de vermelho
as minhas pernas peludas
n'agora chorando

s.d.


fingi que você 'tava indeciso,
mas te vi colecionando paixões

s.d.


na banca de jornal

eram duas mulheres. explicitamente mulheres e explicitamente duas. estavam explicitamente quase-nuas. explicitamente empilhadas.
explicitamente explícitas.
dois oficiais de polícia da plebe (unidade de autoridade pré-potente) fingiam conversar, porque não sabiam conversar. era uma com cerva: conversa em conserva.
-filho da puta! fi-lho da puta!
-mas e a Luza?
-ficô-se rindo. e a bicha cabrêra, cabrêra. se eu encontro aquele vêado ôtra vez eu mato, eu mato.
e as duas moças empilhadas no pôster se esforçavam para continuar sorrindo.

s.d.


você precisa de um amor ou de um bom livro?
-livro!
alarme-falso.
o que me morfina não quer receber ligação minha.
que mar de arrogância e prepotência é isto que me tornei?
o meu amor eu não quero precisar dele. mas o meu querer é um querer dos homens.
invento um lado e o disputo, é a ordem. mas eu não visto as camisetas da lei. não me governo tanto quanto penso que o faço.
a coragem que eu tenho das coisas é um medo maquiado. por que não resta mais nada de inútil na cidade? as estrelas já não brilham mais, e quem se importa?
se eu vestisse uma camiseta preta estaria de luto. se eu tivesse músculos bem definidos venderia o meu corpo. se eu fosse preto as palmas das minhas mãos seriam mais claras que o resto do meu corpo. se eu tivesse sardas talvez ficasse bem de cabelos ruivos. se eu não tivesse cu morreria cedo.
os anjos de mim motocicletam atrás das alcachofras dos meus ouvidos.
esta cidade chamada São Paulo é um sonho esquisito. o meu mundo é cinza e tem formato de cruz.
eu não sou da lei. não sei por que isso, mas eu não tenho chicote.

2 12 2009


gosto de olhos que brilhem. que sejam pulsantes como uma manhã. que me permitam uma felicidade instantânea e imprudente. olhos que me seguem são olhos eternos, de um segundo, eternos, são meus durante um segundo eterno. --e quando eles se fecham, eu deixo de respirar. mas se eles voltam a brilhar, eu volto a viver. por isso amo vibrar com os olhos intermitentes das manhãs.

s.d.


centenas de crianças passeando. sementes brotando sem critério. amores que deixaram o hospício e uma voz que aqui ecoa:
-Beto, me dá um cigarro.
demora.
-Beto, me dá um cigarro.
e mais uma vez.
-Beto, me dá um cigarro.
uma maquiagem pesada e cabelos raspados ignoram as fezes anticapitalistas. a fumaça dos cigarros forma uma curiosa nuvem no inverno perene. cinzas, os tons de cinza, passeam de mãos dadas buscando um analista -de sistemas.
-Beto, me dá um cigarro.
Beto, cigarros cedidos, nuvem tóxica prostituída, flores de marca. vozes. senhoras que mentem para si na quase-noite da vida paulistana. tudo isso me abandona, exceto o eterno eco:
-Beto, me dá um cigarro.

s.d.

domingo, 3 de janeiro de 2010

me perdoa por ter encostado o dedo no teu rancor guardado
estou alérgico, alérgico, alérgico, alérgico estou
eu esbarro nas cores que me atraem --culpa o magnetismo, preciso ser teu amigo
mas que pena que você não quis, senhor parede
só perdeu a única oportunidade da sua vida de ser feliz ao lado de alguém

28 12 2009



decolar toda manhã.

livros deitados no chão, que não contam histórias a mais ninguém. flores mentirosas na parede. o martelo ali na escrivaninha fora do meu alcance não para de martelar meu coração. uma alegria sapeca está jogada no canto, junto com as roupas suadas de cansaço. diz assim em letras ilegíveis que "eu estou entre o guidão e o freio, você não é bonito mas também não é feio, o que me importa é que você não é uma porta". vento mentiroso do meu ventilador mutilado, porque não ventila dor nenhuma. mas hoje a dor foi passear, e é sobre uma nuvem -que, diga-se de passagem, se parece muito com um travesseiro- que escrevo estas memórias esquecidas. sob a vitrola envenenada, o que resta de uma rena de natal luta contra as arânhas nômades. estalactites de tinta branca penetram na minha cabeça, e o martelo continuava martelando meu coração listrado. a dor bate na porta mas eu aumento o volume do rádio. as flores mentirosas crescem na parede até se tornarem verdadeiras. na poeira setentrional do meu ser, uma saudade suspira. a Santa Ceia brinda a chuva sobre a cristaleira -que abriga qualquer coisa, menos cristais. (Pedro olha com olhos de cobiça para o meu teclado, mas se contenta com o ronco das tomadas.) o relógio me grita que a noite está aqui. eu entendo, ergo meus olhos para o além e sonho acordado, com um sorriso mais longo que o braço da floresta, porque amanhã vai ser outro dia.

28 12 2009



Amor Irreversível. (II)

sentada em um piano em uma praça, a Juventude me contou a história do meu amor: que começa com olhos brilhantes e um sorriso violento, passa bolinando as sombras, assombrando o pântano e entra em um apartamento onde será celebrada a vida, um altar de falos e garrafas de aguardente, passa pela cozinha e prepara um destilado, e então o sofá -que pela mágica do destino transforma-se depois em uma cama-, com uma intragável trilha sonora de techno e gemidos de dissimulação importada (a mais cara do mercado), tecem o ambiente inenarravelmente propício para o encontro entre uma garganta sedenta e aqueles valiosos (não muitos, não obstante bonitos) centímetros de rola, joga sensualmente na cozinha, vomita lamentos roxos, cheirando a saudade, catarro, vodka e fanta uva, pensa no passado, liga pro passado, dorme no chão carente e se despede na manhã polvilhada, branca e inchada, com a promessa de outras noites de amor suicida.

29 12 2009



Poema.

miragem, que cristalizada torna-se nada.
meu peito não tem voz para berrar.
a dor, como uma gota de suor perdida pingando da minha axila, só eu a sinto.
meu ventilador esteve ligado o dia inteiro, mas desta vez não funcionou, estéril.
é contar segundos, nem vou perceber quando o sorriso que há em mim sufocar isto que agora me sufoca.
é a graça de viver. a certeza de que as coisas morrem.
ai. se. não.

31 12 2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

os quatro segundos que me provaram
que é fato: o mundo é um troço insano.
que eu não sei lidar com isso que me deram
-eu quero livrar-me de entrar pelo cano.

eu quero sair já desta paranoia,
e se eu não fugir depressa e correndo
eu vou é morrer, me matar joia, joia,
ou enriquecer, viver joia morrendo

e isso não passa de um vaticínio.
estou é à cata de um grã-futuro;
se sobre as pessoas exerço fascínio,
juro, isso me soa como um apuro.

o meu capacete na manhã urgente
é o meu lembrete de que sou humano.
minha bicicleta e toda essa gente
me provam asceta: mundo troço insano.

26 12 2009



vai encontrar esta noite um amor sem pagar

I-denúncia

carros.
estacionam.
garotos.
olhos felinos.
amor premioso.
amor premiado.
estrelas binoculares.
punição cósmica.
nuvens cor-de-carne.
carne desejada & carne sem desejo.
eis. o. beijo.
paixão estacionada.
carros.


II

havia um quê de serenatas. nada se ouvia, contudo. até o enrustido ronco dos motores parecia não ter som. nada, nada se ouvia. as famílias dormiam em paz. em volta da praça os carros dançavam obscuros e silenciosos feito urubus. no afresco da noite, um véu nublado, uma estrela esquecida, árvores resmungonas e olhares ocultos. alguns carros, mais caros que casas às vezes, traçavam rotas avulsas para o mesmo fim: a felicidade comprada -ou o sangue encantado-, tentando provar para seus donos que a impotência se cura com gasolina, muitas cilindradas e sexo sem palavras. a angústia muitas vezes atravessava os sussurros mercenários. muitos ainda não entendem como funciona o capitalismo do amor, mas, por falta de intuição, nós temos o instinto. a Lua envergonhada se cobre para ninguém vê-la vermelha. e aqui o amor funciona como deve funcionar, sem serenatas, sem som, sem nada.

27 12 2009

sábado, 26 de dezembro de 2009

Amor irreversível.

Saí do carro irritado, não por ter sido um mal natal, mas sim porque eu teria que andar até em casa. Mas depois caí em mim mesmo novamente. Eros, caro Eros, desde quando andar é um problema? Você sabe que não é. Andei até o metrô Carrão, porque eu estava com sono e queria ir logo pra casa. Subi as escadas rolantes, ou melhor, as escadas rolantes me subiram até a plataforma vazia -e como ficam românticas essas plataformas de metrô durante a madrugada, nunca havia percebido. Encatraquei-me e as escadas rolantes me desceram da plataforma da minha vida, e eu arrastei os meus chinelos barulhentos pelo chão imundo dos meus sentimentos empoeirados. Debrucei-me em um muro e espiei as pedras, aquelas pedras que já devem ter o dobro ou triplo da minha idade, e prestei atenção nas luzes que vinham do leste, sempre na esperança de que alguma delas fosse o meu trem.
Senhores passageiros do metrô, informamos que nossas atividades terminarão em doze minutos. Lembrem-se de que o serviço é garantido apenas até meia noite.
Eco na estação quase-fantasma. Que maravilha, pensei. A noite é muito, muito poética. Passou pela minha cabeça a hipótese de eu ter perdido a oportunidade de economizar os últimos créditos do meu bilhete único -que na verdade já deixou de ser único há um bom tempo. Súbito senti uma angústia que me lembrou você, naquela época onde tudo era líquido e impermeável. Olhei pra trás, além de mim havia uns quatro outros, sozinhos, perdidos na noite, atrasados, angustiados, talvez, como eu.
Senhores passageiros do metrô, informamos que nossas atividades terminarão em seis minutos. Lembrem-se de que o serviço é garantido apenas até meia noite.
Eco na noite quase-fantasma. Que bosta, disse em um volume que só eu mesmo podia ouvir. E voltei a cantarolar, porque quem canta os males afasta, e eu inquieto parecia dançar, porque meus braços se cruzavam, e de repente já estavam no meu bolso, mas não havia porquê de me preocupar, já que não tinha a quem dissimular alguma calma naquela estação, tão vazia como eu. E muitas luzes passavam pelo horizonte, mas nenhuma delas era a do meu trem. Assim como naqueles dias os e-mails que eu recebia nunca eram os teus, as ligações não eram tuas e os torpedos idem. Eu pensava que nós nos esbarraríamos providencialmente, mas não passava de um sonho tosco de um moleque de dezessete anos sem maturidade, sem consciência.
Senhores passageiros do metrô, informamos que nossas atividades terminarão em dois minutos. Lembrem-se de que o serviço é garantido apenas até meia noite.
Eco na minha cabeça quase-fantasma. Não sei se parei de cantar. O relógio indicava meia noite e meia. Achei que estivesse tudo perdido. Quis falar com os meus colegas de angústia, mas não sei se eles queriam ser incomodados. Olhei para o céu, este céu que não tem estrelas, para a Lua, quase coberta por uma nuvem censora cor de carne. Será que as estrelas ficam angustiadas? Será que...
Informamos o término das atividades comerciais do metrô. Lembrem-se de que o serviço é garantido apenas até meia noite.
Minha cara incrédula devia soar no mínimo engraçada, o que é uma pena, já que ninguém a viu. Pisei alguns passos em busca de uma orientação magnética. Nada me puxou. Meus colegas continuaram. Pus as mãos nos bolsos traseiros. Olhei para o horizonte iluminado artificialmente. Pensei angustiado nesse meu amor irreversível. Mas, diferente de você, o trem veio, e eu fui pra casa confortavelmente.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O texto das dezesseis horas.

Mas eu te espero na porta das manhãs, porque o grito dos teus olhos é mais e mais e mais, e depois que você partiu, o mel da vida apodreceu na minha boca.Alinhar à direita
Tom Zé


Hoje boicotei mais uma manhã, porque desisti delas -todas muito vulgares, essas manhãs indecentes-, de todas elas -até a obrigação me impedir de boicotá-las novamente. Comi um peixe -hoje eu defendo e piscicultura, única e exclusivamente a piscicultura, pelo fato de eu temer um dia ser comido por um peixe-, e o macarrão tinha muito óleo de oliva. Não tinha bebida, mas em contrapartida pus o Pucho & His Latin Soul Brothers pra tocar, pra parecer um pouco mais chique (embora uma pessoa com geografia zê-életista, "anômala" sexualmente e com um gramado na cabeça esteja bem longe de se encaixar em uma esteriotipação "chique" -yes! livre de mais um estigma!), e comi pensando em várias coisas que logicamente eu não lembro mais. Li uma resenha sobre o Graciliano Ramos, um resumo feito pela minha mãe sobre planos anti-inflacionários no Brasil, e já me dei por vencido. Peguei um livro de História do Brasil, outro de História Geral, um chamado Mercado Financeiro, e percebi que nas minhas atuais circunstâncias eu não conseguiria lê-los sem ser acometido por um feroz sono. Lembrei de uma música do Tom Zé, que me lembrou mais uma vez o Daniel. Aqui faz um calor absurdo e o meu nariz irritado 'tá me irritando com sucesso. Quero tomar um banho que não vai me limpar, porque eu já estou limpo. O Jackson me ligou, espero que ele não se importe com o meu new diesel green hair. Foda-se se ele se importar, eu não vou casar com ele mesmo. Acho que o Francisco desaprovaria o meu cabelo novo, porque ele é muito sério. Mas foda-se também; desculpe baby, eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória. Viciei em um estilo de música, um eletro-jazz, eletro-samba, eletro-bossa, eletro-soul, achei extra-easygoing pra estudar, melhor do que o Ravel, o Gershwin e o Debussy que eu 'tava ouvindo antes. Talvez eu esteja me boicotando, mas se o tio Freud 'tivesse aqui eu virava pra ele e rispidamente diria logo que "ó, tio! eu quero tomar banho sim e acabou!", ao que ele estupefato viraria as costas e sairia pra dar uma cheiradinha, já que nunca soube falar português -blefe. E pra quem é partidário dele, estou aqui desafiando: quero que vocês me impeçam agora de ir tomar um banho!
Vocês acham mesmo que conseguem? Bando de impotentes!

O texto das quatro horas.

É na madrugada indiferente, e por isso inexoravelmente tolerante, que eu pretamente saio, com meu cabelo verde e meu capacete dourado, após uma maratona de leitura sobre geopolítica (um "estudar" entre aspas, devido ao grande número de digressões mentais de fundo virtual, armadilhas que o hipertexto e a obrigação do status nos prega), acompanhado do meu alazão, grã-Heloísa, amiga minha há um ano e meio.
Como são amigas minhas essas ruas, apesar dos demais aventureiros motorizados -ai! eu odeio dividir espaço!- que também por elas vagam, feito eu, um retardo mental voluntário, pelas quatro horas da manhã, sob este céu que não tem estrelas. Divisa da Água Rasa, Anália Franco, até a boquinha da Vila Formosa, essas artérias cujos nomes eu sempre esqueço, e que pra mim só têm utilidade quando eu as "domino" -sim! entre aspas, porque jamais passará de apenas sensação-, preenchendo o impreenchível com a minha voz rouca de quatro semanas (e portanto um mês) com as melodias do Ivan Lins que eu tanto gosto -mas é porque o meu mp4 player fatalmente mudou de dono.
E que prazer esse meu agora, escrevendo este texto sem valor estético algum, com a companhia invisível do Ennio Morricone, nesta escrivaninha desarrumada como a minha cabeça, e eu até penso que sou mais feliz do que pensava -mas isso é um pensamento de aluguel, já sei da perenidade & perpetuação da minha felicidade! Ontem, enquanto meu cabelo deixava de ser castanho para se tornar diesel green, fixei meus olhos nos olhos da minha amiga Daniela e disse-lhe com uma firmeza de fundamentalista, que certamente o nosso futuro ia ser muito legal, e isso era absolutamente certo -o oposto seria insólito.
Quero concluir isto agora. Amanhã tem mais Economia, e História, e Literatura, e talvez à noite eu vá ao cinema com o Jackson, assistir a um filme muito ruim do Cinemark, mas é só porque ele vai pagar -pelo menos eu espero. Acho que vou salvar este texto, agora às quatro e quarenta e oito -segundo o horário psicopata deste meu PêCê psicopata-, e ir me olhar no espelho, e talvez eu até sorria.
Talvez nada, eu vou sorrir e acabou!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Nem sei se eu publicava isto aqui. Mas depois eu pensei que, como o meu blogue tem apenas três leitores (isso surpreendendo todas as expectativas), que apesar de três são suficientemente qualitativos, não havia porquê de não publicar.
Esta poesia eu a escrevi faz um certo tempo, alguns meses, e como eu não sei onde está o caderno onde escrevi mas a sei de cor, não me preocupei com a data. Foi conversando agora há pouco com a Heloísa (andando com ela no bairro vizinho chamado Anália Franco, que estatisticamente é um dos que mais concentra capital aqui na zona leste -igual ao meu!), e contrariado em "ter que ler" o Vinícius de Moraes, que decidi colocar isto aqui, elegendo como mote deste impulso o meu descontentamento com o poetinha.
Eu vou dedicar isto aqui à Luciana, porque eu 'tô com saudade dela! Perdão antecipado pelas generalizações e pelos anacolutos.



Carta a uma rola.

Minha amiga, não quero que me condenes
Pelas minhas opções, e nem quero que você
Me siga, afinal, se eu tenho um pênis,
Não quero ouvir sermões, eu só quero é foder.

Sou um cara bem didático, só um cara bem didático.

Está na Bíblia, que se eu sou um pederasta
Eu vou pro Inferno, já que eu não vou para o Céu.
Oh! Minha filha, eu não sou iconoclasta:
Chega perto, tira logo esse chapéu!

Eu vou beijar a tua cabeça!
Eu vou beijar a tua cabeça!

(Nenhuma poesia fecha, é tudo aberto, o sangue, as unhas flecham... Onde estão os anjos, onde está você?)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Domingo em mim.

E estou acordado, caindo neste abismo porque perdi teus braços, e agora sem eles não tenho mais em que segurar. Não posso mais ouvir Radiohead sem pensar em você. Não posso mais ouvir o Yann Tiersen sem lembrar das noites nas quais tentamos ver o Amelie Poulain. Não vou mais ir ao Habibs sem lembrar daquelas madrugadas famintas. Hoje à noite, cansado de tanto ler -e esse vestibular só não é mais chato do que o Vinícius de Moraes- fui ao parque Sampaio, porque a minha bicicleta chamada Heloísa e eu queríamos espairecer, e os meus vizinhos estavam felizes e sonoros demais para a minha vaidade. Senti falta do meu mp4 player, que eu perdi há duas semanas, porque ele era parte da minha terapia (e eu sou viciado apenas em chá gelado, em pessoas e em música -roer as unhas, confesso, vocês sabem, é outro vício), e não tenho muito com o que relaxar ultimamente. E no parque, que estava especialmente vazio hoje (as pessoas do meu bairro estão acampando nos shoppings -e domingo é o dia onde o êxodo tem sido mais violento) tive medo, vi algumas estrelas perdidas entre as copas negras das árvores cansadas de tando tédio dominical -como eu-, que só deviam estar ali de passagem, migrando pra algum lugar importante, como Porto Alegre ou Punta Del Leste. A escuridão sufocou o meu coração vazio, já que ele estava mais oco e solitário do que todas aquelas sombras teimosas, mais insistentes que a impotente iluminação do parque. Em um instante pensei que a minha disposição havia caído da bicicleta e escorregado para o bordo daquelas vias precárias. Mas era mentira, deixei minha disposição em seu apartamento naquele domingo insólito, e fui sem rosto (tal como uma pintura metafísica do De Chirico) para o parque do Ibirapuera encontrar com os meus amigos. O parque Sampaio continuava vago, como a minha vida, e eu lembrei de tudo, do domingo, do Habibs, do Yann Tiersen, do Radiohead e, minha nossa, eu não tenho motivos para gostar assim dessa banda, mas eu às vezes a ouço, e às vezes ouvindo lembro de você, e lembrando de você não sei se quero sorrir, chorar, lembrar ou esquecer -talvez o meu problema seja querer fazer os quatro simultaneamente. Então eu fechei os meus olhos porque a brisa da noite ia limpar a minha alma, mas concomitante a isso Heloísa (acompanhada da minha estupidez maníaca) me levou para a direção errada e eu caí no bordo, que estava lama pura. De fato, minha disposição não estava lá, só havia lama, mas eu a confundia com a minha própria matéria, porque eu estou derretendo, eu estou acordado e caindo neste abismo, e é por isso que eu flutuo de medo e angústia nesse domingo. É porque eu ainda não atingi o solo.

Ação metabólica.

Uma pirataria cega o guiava, porque tinha olhos de roubar, mas eram líquidos e traziam uma impotência desesperada à visão.
Emergencial, como o azul do céu.
Uma vontade sorvetante e carente, porque era fria e seca, chupava tudo à sua volta, as paredes de concreto, as placas de acrílico, as superfícies de alumínio, cortadas pelas estacas dos homens, feitos de corações rasgados e exaustos -essa é a magia da cidade.
Um amor perigoso disputava locação com aquele ar abafado, que não conhece a liberdade nem nunca pagou a conta do analista.
Senhoras sentadas em estrelas ministravam as lições do rebanho, era hora de se ficar quieto, no sofá, quie-ti-nho! Mas eu não me preocupava com a lei, quem faz meu carnaval sou eu (percebo agora o real significado desse lema, que é: não dou a mais ninguém o direito de cavar meu próprio túmulo).
O motorista governava a grande minhoca metálica, nessas pulsações elétricas que dão origem àquela sensação que só quem mora neste lugar que não tem estrelas sabe o que significa. Esse magnetismo da morte, que a gente adora, porque aprendeu a apreciar esse perfume de dióxido de carbono, descobriu o prazer de se banhar nessa bacia de chuva ácida (com direito a indisposições estomacais autoimunes), e se doutrinou com a filosofia de pensar da cidade, andando sempre naquela velocidade das informações, achando que é feliz por navegar nesta nave imunda, esse cometa chamado estresse.
E, nessa noite, as senhoras sentadas em estrelas comunicavam aos brasileiros o que fazer amanhã, e eu viajava, e seus olhos de roubar, apesar de líquidos e de trazerem uma impotência desesperada à visão (emergente como o azul do céu), chupava tudo à nossa volta, todas as coisas concretas -aquelas feitas por homens de corações rasgados e exaustos- e todos as minhas vontades sangrentas e cósmicas, minhas cores e as minhas covinhas e todos os seus dezessete anos de sorrisos e afetos.
Descobri-me dentro de um túnel, que eu não sei se era de aço e concreto ou se simplesmente eu fora hipnotizado, e eu não sabia no fim do caminho que tipo de abismo eu encontraria (a minha convicção apenas me fazia acreditar de que sim! tratava-se de um abismo).
O ar abafado ainda disputava aquele amor perigoso, emanado por ele. Devia ser alguma ação metabólica, ele substituía tudo por aquele cheiro de paixão conveniente, devia ser como respirava.
Enfim, sorri. Olhei para ele e então abri a minha boca, ainda seca de solidão, notei que o túnel expirara e agora uma luz de coisa fechada enchia o ambiente. Visualizei em letras comerciais a palavra "Sé", então conformei-me com a logística dos homens, desci do trem e esqueci dele para pensar em outra coisa qualquer, que certamente preencheu o meu intelecto com mais competência.

Delírio existencial.

É a coisa que os homens fazem, transformar tudo em poesia o tempo inteiro, embora todos eles neguem. Quando olho pr'este céu que não tem estrelas, ou espremo a minha vista tentando conquistar as tantas paredes precárias deste meu bairro de mentira, é que não tem nada mais nessas coisas que eu procure que não seja poesia, pra abastecer meu coração de energia. Quando dissimulo afeto (ou simplesmente me envolvo) por uma aranha que mora na janela do banheiro, busco poesia, e quando me deixo levar pela pseudo-rebeldia implícita nas moléculas etílicas de um bombeirinho (pr'arranjar pretexto para dizer às pessoas aquilo que eu não tenho motivos para falar quando eu estou sóbrio) busco poesia, e quando eu me sinto sozinho, abstêmio de amor, é nela que me refugio, a ponto d'eu não conseguir mais saber diferenciar o que é real do que é poético, o que é sonho do que é palpável, o que é sensato do que é invisível.
Acho que estou entrando em outra dimensão.

[Samanta está viva! Cuidando da prole. Confesso, estou com um receio (bobo, talvez) de ter minha casa infestada por suas descendentes...]