quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Teoria Geral das Coisas I

Lendo um artigo de política (sobre a desconfiança como vetor de ação no mundo democrático), logo após assistir a um documentário de um dos acontecimentos históricos que mais me fascinam (este, em especial, desde a minha infância, o Terceiro Festival Nacional de Música Popular Brasileira produzido na Record no ano de 1967), tive um insight mais ou menos fosco a respeito de mais um dos membros da teoria geral das coisas, no sentido que esta se apresenta para mim.
Estou numa curva que, segundo o meu palpite esperançoso, jamais acabará até que o próprio sistema social do homo sapiens finde. Essa curva é esta sociedade para mim palpável, aquela que conhecemos por moderna ou pós-moderna, e que pode, com esforço, ainda ser reconhecida enquanto era representada (ainda que, para os historiografadores, seja cada vez mais incomensurável e evolua sem qualquer tipo de estratégia narrativa definida para traçar marcos definitivos).
Sou parte deste monstro mutante cuja maior tensão é a expressão fabulosa do diálogo com o passado: a pessoalidade versus a impessoalidade.
Viver em uma sociedade que se diz civilizada, embora arbitre estimas e estigmas aos seus estratos (e, aliás, suponha a existência de camadas e níveis), permitindo-os viver conforme uma vontade que os homens não conhecem (e aqui nós tentamos diversas teorias, desde a metafísica, a fortuna divina, o liberalismo, o marxismo, o ces't la vie, até o sonho positivista, a teoria da conspiração, a física quântica, o anarquismo ontológico), é sem dúvida a experiência mais prazerosa para aquele que acredita que a vida pode ser divertida -embora este, eu não duvido, esteja mais sujeito ao suicídio em uma queda da fortuna do que o republicano que pode simplesmente escapar ileso e viver até o fim fingindo todas as noites que ainda é um conselheiro do magistrado-mor: as coisas na cidade são, sem pieguice, mais intensas.
O anarquismo ontológico funcionaria muito bem nesse sentido (ou não, nós nunca saberemos), se os homens fossem diretamente catequizados para serem ratos na brecha do sistema em uma socialização primária (mas também, nada que para uma socialização secundária violenta não fosse também impossível, apenas menos viável). Fora disso parece que reina aquele velho ciclo das coisas; existe uma idade em que os pequeno-burgueses têm de extravasar seus sentimentos impetuosos em relação às mazelas da sociedade. É um grande axioma dos grupos escolarizados: não ser comunista antes dos trinta é falta de sensibilidade, ser comunista depois dos trinta é burrice.
E o discurso sempre se resume a isto.
O caso brasileiro é peculiar nesse sentido. Às vezes, em busca de uma identidade legítima brasileira, penso que os pós-tropicalistas (porque nós não tivemos neo-tropicalistas; a arte brasileira estacionou no Hélio Oiticica, e o documento de óbito foi assinado pelo Cildo Meireles), estes jovens e quase-jovens da classe média alta, cuja ilustração predileta para mim seria a Praça Benedito Calixto aos sábados, são heróis de si próprios que representam aquilo que tenho vontade de chamar de brasilidade paulistana (não duvido que no Rio de Janeiro ou em Brasília seja muito diferente). Parece que não teremos mais heróis de fato, e a História se mostra uma empreitada tão absurdamente intransitável que não duvidaria que os historiografadores simplesmente passem a esquecer a pluralidade e a legitimar os costumes brasileiros no futuro como simples reflexos da Lady GaGa.
Sinto vindo no ar uma réplica neo-marxista, me acusando de fascismo simplesmente pelo fato de que, nessa minha visão romântica do que é a juventude, possivelmente enviesei meu discurso em um foco classista, acadêmico, segregacionista e o escambau. A minha resposta é mais ou menos frustrante: as guerrilhas em São Paulo (e aqui me refiro às tribos urbanas legítimas -e não às tribos civilizadas ou às tribos policiais), as feiras de troca-troca nos bairros paupérrimos, o patriotismo do teatro político, os shoppings, a novela, o futebol e as rádios brasileiras não podem, para mim, servir de critérios para delinear o que é o brasileiro e seu estilo-de-vida, simplesmente porque não há unidade. Os brasileiros nunca sempre foram apenas pretos, índios, pícaros, varguistas, corruptos, dançarinos de teatro de revista, cangaceiros, honestos, estudantes, caras-pintadas, baladeiros, teventes ou brasileiros; o meu esforço em eleger um tipo de estilo-de-vida como representante da nossa identidade, é um capricho subjetivo. Está claro?
Recapitulando. Parto do pressuposto de que minhas interpretações não fogem do contexto social em que eu, por exemplo, como homossexual, sou caçado, ao mesmo tempo que vários homossexuais vão atrás de se afirmar como seres sociais, seja como integrantes emergentes de um mercado em expansão que enxergam no horizonte a possibilidade de obter respeito com a estima econômica, seja como defensores dos seus direitos civis, políticos e sociais que -em virtude de um processo histórico que, obviamente, como histórico, teve origem no passado (neste caso, mais ou menos longínquo)- são sistematicamente negados a ponto de ainda serem caçados por isso. Ou seja, pessoalidade versus impessoalidade; o controle exercido por uma ideologia local versus o dissipar dos conflitos dos indivíduos qualitativos através do reconhecimento das funções quantitativas.
Tendo esse pressuposto claro, quero fazer entender como se dá a vida e a criação de estratégias de exercício dos vínculos sociais nesta sociedade de curva, em especial no caso brasileiro, e na expressão de uma juventude artificial, qual seja, a escolarizada, que vive: a) copiando uma trajetória paterna (porque ainda somos os mesmos e vivemos como eles); b) segundo critérios normativos (que são uma mistura dos valores tradicionais brasileiros, da disciplina europeia e da estética americana), que acompanham a identidade que nomeio como brasilidade paulistana; e c) sem definir de forma concreta personagens muito bem delimitadas como heróis de seu tempo.
Definitivamente, a sociedade pós-moderna e toda a sua confusão semântica simplesmente deu um nó na cuca da História. Não consigo definir de maneira clara a expressão da juventude, e nem unificar em uma só palavra e faceta o modo de viver desse grupo. Meu último argumento, entretanto, diz respeito justamente ao tentar. Já que simplesmente não posso convencer ninguém a conseguir. Imagino as coisas e os fatos como no surf bem surfado; algo previsível, perigoso e cansativo, mas também emocionante, ativo e prazeroso.



Arte como forma de segregação III

Talvez o mais sensato seja mostrar de uma vez por todas quais são os pressupostos da minha análise a respeito do fenômeno Arte.

Podemos vê-la segundo, por exemplo, uma dimensão histórica. Essa dimensão consiste na divisão entre a Arte legitimada pela História e tudo aquilo que está fora dessa legitimação. Aquilo que está dentro funciona como forma de segregação; o que está fora fica guardado ou não em registros ou documentos históricos, tutelados pela biblioteconomia, arqueologia, etnografia, e demais artes do empacotamento.
Sem querer parecer polar ou maniqueísta demais, reconheço ainda aquelas clivagens artificiais que a nossa sociedade adora: a Arte popular, a Arte folclórica e a Arte erudita (como se, em níveis práticos, toda a produção artística possa ser mensurada nesses termos).
A nossa sociedade democrática então consideraria essas três modalidades de Arte e as estudaria segundo um viés próprio. Embora, portanto, nos livros de História da Arte já se veja um esforço em tratar dos três tipos (ainda que, por enquanto, em medidas obscenamente díspares), admite-se tal estudo segundo um viés específico: o erudito é reconhecidamente o carro-chefe (mesmo porque a tarefa implícita do erudito sempre foi destruir sistematicamente aquilo que não o represente; na atual sociedade em que as relações de poder se dão de forma microscópica essa análise se torna mais complexa). Nietzsche já nos mostrou, na sua Genealogia da Moral, que aquilo que nasce com uma estima negativa, só pode ser a negação (e ele o prova por meio da filologia) de uma estima positiva precedente. A Arte que não seja boa jamais terá uma estima que não seja pejorativa. Acho que toda a teoria marxista corrobora esta tese.

A Arte, segundo uma outra dimensão, a conceitual, pode ser vista em termos, não de uma disputa histórica, mas de uma conceitualização que justamente só foi possível com a margem dada pela democratização dos meios de acesso à produção e contemplação artística no século XX. Por democratização da contemplação artística estou me referindo ao fato da Arte adquirir um lugar definitivo no debate cultural (um dos legados da indústria cultural, talvez), seja por meio da abertura pública dos museus ou através da veiculação artística pelo rádio, televisão ou internet.
Posso dizer que tem relação com o quadro geral a descoberta de que a Arte Contemporânea é pluri-significativa e multi-interpretativa; isto é, ela supõe a superação do conceito de observação como imprescindível para a contemplação artística, abrindo espaço para interpretações muito variadas. Muito variadas, porque observações distintas geram obrigatoriamente interpretações distintas, e mesmo observações equivalentes geram em grande medida também interpretações díspares entre si.
Gosto de definir, portanto, a experiência artística como aquela em que sua contemplação (tal como se contempla uma obra de Arte, uma experiência subjetiva) se dá por um ou mais espectadores em um tempo e espaço quaisquer.
No fundo, essa máxima é uma tentativa de a) tornar palpável o que viria a ser o sonho situacionista da supressão do artista, pois na concepção supracitada qualquer um tem potência de ser ao mesmo tempo um produtor e um crítico de Arte, e b) persuadir quem quer que seja que a paradoxal relativização da Arte tem que ter um limite, que é o critério subjetivo, compartilhado ou não, em parte ou inteiramente, com outros indivíduos (sendo este indivíduo uma personagem específica da nossa sociedade, aquela em que há a democratização da contemplação artística).

Tentei levar o alcance do significado artístico às últimas consequências. Mas quero fazer entender também que é essa mesma aparentemente vazia filosofia, dialogando com os limites da sociedade, que determina dentro desta aquilo que pode ser considerado Arte.
Temos um mundo incomensurável. Nossa Ciência, nossa Filosofia e nossa História serão sempre falhas nesse sentido. A Sociologia também. Mas eu simplesmente prefiro esta última porque é a que me permite tornar analiticamente articuláveis movimentos sócio-culturais (algo que a História não conhece com tanta profundidade), sem necessariamente me debruçar sobre a teoria geral das coisas para continuar fluindo (algo em que a Ciência em geral e a Filosofia vivem esbarrando sempre).
Vivemos a posteriori.

domingo, 29 de agosto de 2010

Arte como forma de segregação II

Quando falamos em termos como academia, indústria cultural e alguns outros conceitos, devemos ter a cautela de situá-los em seus devidos contextos, de encaixá-los em seu lugar reservado.
Quando falo em Arte como agente de segregação, estou me referindo a uma dimensão específica das sociedades ocidentais humanas. Simplesmente sabemos precisamente tudo quanto foi descoberto acerca das manifestações artísticas desde Lascaux até Damien Hirst. Entretanto, essa História se refere quase que exclusivamente à História Ocidental (tudo aquilo quanto não for considerado de importância para a consolidação do oriente apenas surge como relevante quando tangencia o enredo dos vencedores coadjuvantemente).
Logo, a historiografia se preocupou durante muito tempo em apagar todas as manifestações artísticas que fugissem a um determinado padrão cultural de determinada época, ou simplesmente que não fossem reconhecidas socialmente pelas camadas mais influentes e poderosas das sociedades históricas. A simples preocupação que nós dos séculos XX e XXI temos em criticar e classificar as "baixas" manifestações é apenas um sintoma de que nos foi permitido descer do dogmático altar da arrogância do conhecimento esclarecido e absoluto (mesmo porque cada vez mais se dá conta da importância da dialética).
Contudo, nosso olhar moderno treinado reconhece facilmente as categorias de Arte segundo as clivagens artificiais que a crítica (popular ou não) cria para classificar. Temos então os conceitos de erudito, popular, folclórico, e cada um deles representa uma determinada estima social e, por conseguinte, valores morais. O sonho situacionista da supressão do artista talvez tenha a ver com essas clivagens que a sociedade moderna deixou mais nítidas e, ipso facto, as tornou mais deliberativas e arbitrárias.
Hakim Bey provavelmente se refere à morte da Arte justamente como aquela que a academia vem legitimando ultimamente. Mas justamente o fato de que elite intelectual perdeu os parâmetros artísticos é ao mesmo tempo reflexo e causador de um colapso total, pois a orientação artística da elite é justamente o que legitima ou deslegitima as manifestações culturais dentro da História. Considerar Damien Hirst, que nada mais é uma mercadoria sobre a qual os milionários do cassino global (termo de Cristóvam Buarque) especulam, como sendo o grande expoente da contemporaneidade é simplesmente explicitar que o espetáculo (aqui falo em Debord) se apropriou de todas as possibilidades de exercício do intelecto (e destruiu qualquer capacidade de estímulo à criatividade, fator que para Vaneigem é sine qua non para, mais do que a existência da Arte per se, um sentido para a existência da Arte que remeta à realização pessoal).
No final das contas, temos uma contemplação alienada.



Da Teimosia

Eu acho a teimosia a grande virtude do homem, e a sua contribuição para o processo histórico.
O desrespeito é uma coisa tão bela. Ele é uma roldana sem a qual a máquina dialética simplesmente não faria sentido.
Me falam que é importante respeitar os mais velhos, afinal, um dia o serei também eu. Eu não quero respeitar nada, terei orgulho do desrespeito da minha geração posterior, pois dele e dela nascerá uma nova História.
Me falam que o respeito entre gerações deve ser recíproco. Mas eu não quero ser respeitado pelos mais velhos. Ter que ser tolerado seria simplesmente a chatice maior do mundo.
Afinal de contas, a maior das virtudes humanas é a teimosia.



Canção do Ódio III (deprimido)

Os meus amores são projetos natimortos.
A maior parte deles não passou de dez minutos.
Entre aqueles que passaram desse limite estão os puramente sexuais e também os exclusivamente sexuais. Além dos praticamente sexuais. Uma minoria era geralmente sexual.
E tinha você.
Depois de você qualquer tentativa de estabelecer um relacionamento nos mesmos moldes se torna artificial.
É como se tudo que não dissesse respeito ao teu jeito estivesse fora de qualquer possibilidade de ser considerado.
Você jogou sobre mim a maldição da verdade.
Mas você não existe mais, não existe, não existe, não existe!



Declaração Póstuma do Amor das Segundas-Feiras

você [passa por mim e] me deixa louco
não vem mais não -mas que inferno!, eu me esforço em te achar-, não vem, eu sou de outro -ou quero [não querer/querendo] ser d'outro.
-É claro que eu te escuto! Consciência minha não falha.
Mas você -e/ou eu, nós- insiste(imos) em aparecer-fantasmagorizar-assombrar (belamente). mas é uma surpresa. porque cada vez que você está mais distante de mim [e eu de você] mais fascinado fico com os nossos cumprimentos aperiódicos -em termos, você era o meu amor de segunda-feira, de segunda mão, de segunda categoria. um amor, segundamente.
então você parece melhor vestido, e o seu corpo mais convidativo, e o seu boné mais transado (embora eu o quisesse transando -será que você fica de boné na cama?), e a tua pele mais quente, e a tua barba mais amiga, e a tua boca mais saborosa (com aquele sorriso mais encantador). e é claro, os teus olhos, que são cada vez mais tudo aquilo que eram, só que em dobro. enigmáticos. enigmaticamente olhos de segunda. [olhos de menino, de ingênuo, de certeza, segurança, de amor ou de paixão, olhos multivisuais.]
te gosto de longe. você me cumprimenta no seu estilo espartano. deve estar namorando. alguém menos legal do que eu. a vida a tua. não posso fazer nada: eu gosto de outros. [ou melhor, eu gostaria d'outros.]
te gosto passando. acho que se nós tivéssemos ido para a cama eu não sentiria hoje esse amor de segunda com prólogo, introdução, meio, fim e epílogo, assim bem-acabado (feliz e não-felizmente bem acabado).
se me zombas por querer ou não, só saberia se pudesse retornar ao quebra-cabeça dos teus olhos. o fato é apenas um. segundamente, enigmaticamente, feliz ou não-felizmente. [ou não] que... ainda...
você me deixa louco.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Nada Quase Audível

I
pensando em termos do que viria a ser um nada quase, ou, nada-quase, em seu significado estrito, rejeita tudo que não for absoluto. (veremos de que forma essa leitura confronta e dialoga com a outra.)
aquilo que é nada quase é absolutamente.
absolutamente audível remete àquilo que é categoricamente passível de ser ouvido.
o é em sua forma pura (tem potência) ou efetivada (escutável ou sujeito ao silêncio).

II
quase [passível de ser ouvido]; aquilo que o é quase, não pode, em última análise, sê-lo. portanto, quase audível diz respeito àquilo que é ou absoluta e obrigatoriamente audível ou absolutamente inaudível.
quase-audível representa, portanto, a uma dessas condições.
o nada as nega categoricamente, o que remete simplesmente à impossibilidade de se usar aquelas classificações absolutas.
voltamos novamente, portanto, a considerar aquilo que está no limiar do escutável e do inescutável. leia-se, sua potência.

III
estamos falando, afinal, de uma condição que implica a potência de uma vibração sonora de ser considerada pelos nossos sensores auriculares.
uma proposta de discussão de nome Nada Quase Audível, concluindo, deve sugerir, ao menos, que aquilo que for considerado, o seja com investigação, sem se atribuir juízos absolutos.


Da Arte e sua faceta segregacionista

Meu namorado diz que eu concebo a Arte como forma de segregação. Sem ser desonesto, não posso conceber um tipo de Arte que, em níveis práticos, não o seja ela mesma uma dimensão cuja imprescindibilidade do fator segregador é absolutamente efetiva.
O sonho da supressão do artista, utopia dos situacionistas em que durante certo tempo cri -e ainda cegamente creio fazê-lo-, isto é, a ressignificação (ou dessignificação) do conceito de Arte por meio da emersão de toda individualidade à estima de produtor artístico -afinal, todos são artistas em potencial-, é, para Hakim Bey, uma hipótese tão absurda quanto a hipótese de simplesmente se encarar o fim da Arte assinando seu documento de óbito.
O criador dos conceitos de Terrorismo Poético e Arte-Sabotagem pensa sobretudo em uma realização pessoal (e aqui, corro o risco de diacronismo, me perdoem) onde a experiência da vida é o próprio happening, ou então uma que está relacionada com a convivência em Zonas Autônomas Temporárias (labirintos de ratos nas brechas da máquina social capitalista).
A proposta defendida por Bey, entretanto, também não passa de mais uma daquelas teorias (embora também convicente) faca-e-queijo-na-mão.
Supondo que a Arte ainda exista -contrariando Bey, para quem ela teve fim na rouca gargalhada de desabafo dos dadaístas-, não vejo de que outra maneira eu possa encará-la senão como essencialmente segregacionista.
Se até antes da Idade Moderna não haviam os especialistas que a legitimavam -isto é, os críticos da classe dominante-, antes de tal a Arte ao menos exercia uma função social -do artesão antigo, do cidadão com direitos, do religioso que possui um dom, até assumir o formato de um artesão moderno.
Talvez a questão da Arte tenha se tornado uma grande neurose -daqueles que se esforçaram e ainda se esforçam por delimitá-la- a partir do momento em que ela se tornou democrática, ou simplesmente a partir do momento em que ficaram nítidas as divisões sociais para se pensar em arte-modelo e arte-excêntrica.
Arte é sim uma forma de segregação. Mas também a mais bonita delas.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

turquesa
um surto de bela
de bela beleza
me esmago por ela
-por ela que é bela-
a linha turquesa



as câmeras se desmontaram.
falaram assim, que a maneira revolucionária de filmar está em não filmar. em outras palavras, elas reivindicaram por uma revolução cinematográfica de forma que elas deixassem de ser ferramenta para serem espectadoras de suas próprias vontades.
elas queriam apreender suas rotinas. então, se desmontaram, e o cinema deixou de ser desonesto, porque não podia ser mais nada.

e os homens cortaram seus pulsos, porque não suportaram ver a própria paisagem subverter os papéis, e se tornar cenário, uma parte da vida do cinematografador.
foram em busca de um mundo espetacular, na forma mais fácil de escapar do veneno da pessoalidade.
e a falta de solidão é
i n s u p o r t á v e l .



talvez a vibe não seja tanto mostrar o mal-estar, mas sim a realidade com o mal-estar intrínseco ao (seu) imaginário (real); explicitadas as fraquezas, o mal-estar, cuja iminência será objetivada na experiência do espectador, refletirá a realidade utópica produzida pela ferramenta.
esse "tornar-se objetivo" será o instigar o público automaticamente.
I - um desafio seria o da fidedignidade com o real
II - outro seria a parcimonialidade (aparente, afinal, a parcimonialidade -esse parâmetro baseado em valores- é relativa; a única coisa -além dos fatores extrínsecos a esta análise, como a desonestidade implícita na câmera-, portanto, que é inevitável neste viés das coisas objetivas, é a parcialidade, ao menos, social)
III - o terceiro desafio é instigar o público. tentativas serão feitas com a) o interesse da reflexão e b) o interesse da percepção
IV - talvez o maior desafio seja o de mostrar o mal-estar sem este estigma; simplesmente o de escancarar questões em uma realidade utópica (ao menos social, parcialmente)
estes serão os fundamentos-ideais desta técnica de audiovisualização que busca tornar cognoscíveis, inteligíveis e apreciáveis os cotidianos das vidas modernas.



capivaras

nós odiamos as capivaras porque elas são totalmente passivas e inanimadas em relação às nossas tentativas de estimulá-las.



para Eu que faço Ciências Sociais a realidade nua e crua é belíssima. ela me instiga. para quem não está acostumado a objetivá-la em uma experiência sócio-contemplativa, recomendo esfregá-la na cara. essa realidade pode causar mal-estar, embora eu a admire, e se isto acontece, regozijo. nada mais arrebatadoramente excitante do que o mal-estar dos outros.

domingo, 1 de agosto de 2010

Balada Afônica

Estas foram minhas férias mais irreversíveis.
No sentido e direção mais doentios.
Evoluíram em um vetor exponencial e atingiram níveis supra-perplexos.
Minha literatura foi um manual de que alguma pulsão de morte demoníaca se apossou.
Minhas férias foram um triste. Foram um feliz. Foram um qualquer coisa de sentimentos.
Preocupantes.
Estou com medo.
Algo me quer derrotar quando abraço.
Quando faz frio.
Algo que me chora. Internamente. Como uma hemorragia insistente, porque não se pode ser paulistano e querer ser amante ao mesmo tempo.
A vida está excluída da sociedade do tédio paulistana. Resta uma balada sem som, uma polifonia afônica.
Tenho a impressão de ter sido vítima de um trote do meu inconsciente, este responsável por testar todas as teorias por mim admitidas.
Resta a metáfora.
Insistentes, as senhoras sentadas em estrelas riem, pilheriam, com tanto, mas com tanto sarcasmo e tanto afinco que fazem (até) faltar o sono a São Pedro, que tem uma overdose de pó-de-guaraná -ou melhor, em termos paulistanos, de Red Bull- para manter o serviço otimizado. É exatamente neste instante que as estrelas decidem deixar a cidade.


O Amor Irreversível V

O amor da porta das manhãs é clandestino. É definitivo seu batom de mentira com que se pinta, a sombra que passa delineia sua própria sombra na rua, contra a luz dos postes, contra a luz da Lua. O amor da porta das manhãs não quer ser verdadeiro, não se importa com nada que possa dizer respeito a fidelidade particular, compromissos extra-instantâneos e outras pieguices da pré-modernidade: ele espera que simplesmente o efeito da função que proponho no meu marketing pessoal alcance o limite esperado. Nunca é, e é por isso que as empresas de Serviço de Atendimento ao Consumidor já estão mais ricas do que as de produtos básicos (como as indústrias do sexo, da felicidade e do poder).
Quando o eu-líquido escorregou pelos degraus imundos do tão límpido shopping center, não pensei em casamento, ou nenhum outro tipo de contrato satânico. O requinte diabólico estava, pelo contrário, na desonra do casamento, que se tornou uma casamentira. Sei que na cabine do banheiro, não o prazer da aventura, mas o do novo, óbvio, nos tomou imediatamente, pois ao ponto de ônibus contíguo à galeria nos direcionamos: o meio que encontramos para tornar mais confortável esse amor irreversível.
Complacente me ofereceu suco, carambola, conversas fenomenalmente acríticas a respeito de espiritualidade -ou melhor, espiritualismo, porque o sufixo me remete a doença-, mas isso tudo era apenas acessório: estávamos ali -eu estava ali, em sua casa- apenas pelo sexo.
Transamos como eu jamais faria com outra pessoa, o que é bom. É sinal de que eu pelo menos consigo identificar e distinguir atividades e condutas pontuais no sexo dentro do universo de relações que eu já tive. Esta, aliás, está na lista das irreversíveis.
No ônibus disse qualquer coisa de engraçado ao cobrador. Não sei se propositalmente ou não, o fato é que ele riu e respondeu algo até que simpático, ainda que ininteligível. Pensei baixo a respeito dos discursos dos amigos -que são meus psicólogos, embora não sejam formados nem por uma faculdade federal- que comigo tentaram tornar cognoscíveis as minhas noções a respeito das questões que envolvem a preocupação que a noite irreversível tentara solver.
A noite sem estrelas da cidade por um instante pareceu perigosa. Mas obviamente não passa de ilusão. Afinal, o amor verdadeiro me espera na porta das manhãs.


st (incrivelmente)

Até sexo como um paulistano ele faz.


História das Brincadeiras

Sobre o móvel de imbuia, no qual se encontravam um cofre noventista do Garfield (dentro do qual os indivíduos se amoedavam), um pote cilíndrico com desenho de abelha (dentro do qual funcionava uma dimensão composta de cereais, bactérias, déficit de oxigênio e um breu quase entediante), uma flanela azul, esquecida e manchada (sobre a qual multidões de bactérias e protozoários -talvez fungos- lutavam para a sobrevivência e para o domínio sobre os restos -de qualquer coisa que reste- do móvel, da mesa e da pia, compilados), e também três outros potes metálicos encostados no canto (dentro de um dos quais havia um saco de pipoca -que poderia ser descoberto segundo uma conta matemática fabulosa) acumulando poeira do lado de fora e tétano dentro de si mesmos, duas formigas apostavam corrida.
Na prática, porque na teoria elas estavam fazendo algo que apenas diz respeito à bio-sociologia.
-Eu duvido que você chegue antes de mim!
-Que pena, porque eu que vou chegar!
Estavam em um embate desgraçado.
A cozinha estava vazia, mas a luz havia sido esquecida acesa. Os objetos sobre o móvel de imbuia não se preocupavam em criar vida, entretanto.
-Olha só, a malhada vai ganhar! -diria o Garfield banqueiro se pudesse.
-Vai nada, eu aposto é na retinta! -diria a abelha-silo.
Mas as formigas estavam apenas correndo rumo a alguma coisa que lhes dissesse respeito segundo o diagnóstico do zoólogo.
Mas eu insisto que estavam apostando corrida.
-Você está comendo poeira!
-Você vai ver só! Vou falar que você é uma formiga preguiçosa!
-Isso só se você conseguir chegar até lá! -e esta soltaria uma gargalhada que até os ímãs de geladeira estremeceriam -e olha que ímã de geladeira nunca sente calafrio.
Mas a geladeira continuava no ritmo monótono -e assustador ao mesmo tempo- de sempre. Enfim as duas chegavam ao limite imposto pelo móvel.
-Não falei que era a retinta?
-Tudo bem, o dono do dinheiro sou eu mesmo!
Mas as formigas desafiam a gravidade, e elas subiram rumo ao céu, que é o teto.
-Eu ainda vou te alcançar!
-Estou só vendo!
Algum barulho de porta.
Foi apenas impressão.
As coisas continuavam intactas. Na teoria.
Porque na prática, eu insisto, elas acompanhavam a acirrada competição entre a formiga malhada e a retinta, preocupadas apenas em serem tudo, menos um inseto.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Digressão

Dá um medo.
De não saber o que fazer.
Por um instante eu pensei.
Vontade de abraçar. E o abraço é engraçado, ele é só praticamente um dos gestos que mais dão margem para se acusar de insegurança. Parece que abraçar significa ingenuidade.
Talvez seja isso mesmo.
Não creio que os paulistanos gostem de abraçar. Nem acho também que estejam aptos para começar a fazê-lo.
Acho que, pobrezinho, o abraço será esquecido. Parece algo elementar em todos os lugares. Mas o que esperar de uma sociedade que abole o amor senão o esquecimento das práticas românticas. O abraço tende a durar enquanto continuarmos nos reificando. Quando esse processo terminar, nós, máquinas humanas, poremos em início o processo de hiperfuncionalização. Serão abolidas a estética e beleza, pois, a princípio, elas não têm utilidade para a manutenção daquilo que é vital. O beijo não fará, pois, mais sentido e, tampouco, o abraço. O sexo continuará a ser mecânico, mais ou menos como é hoje em dia, só que institucionalizado.
Mas será exatamente aí que a máquina ruirá. A beleza é apenas aparentemente improdutiva. Ela, entretanto, no mínimo, alimenta o espírito, e aí a máquina perderá no que diz respeito à sua alimentação.
Espera-se contudo que os homens perfeitos que a criarem se preocupem em manter a pluralidade, mesmo que artificial. Uma máquina social que prescindisse da alteridade, que minasse todas as particularidades estaria minando a si própria.

Engraçado.
Por um instante esta digressão monstruosa me fez esquecer do medo. Daquele medo de não saber o que fazer.
De não saber o que fazer quando não se tem o que ou quem abraçar.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Proseccage

Noite.
Na Paulista amores em potencial. Paulistanos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Canção do Asfalto ou Canção do Assalto

Era uma subida, não muito íngreme, e na rua recém-reasfaltada, Heloísa, que é o nome da minha bike, e eu passeávamos. Não me interessava chegar mais cedo ou mais tarde em casa, desde que as minhas preocupações pudessem ser dissolvidas por inteiro na brisa da paulistana noite sem estrelas. Como eu ia explicar que o meu terceiro aparelho celular quebrara, como os outros dois, para os meus responsáveis? Mas o problema logo se resolveria.
Para converter-se em outro.
Eram duas horas da manhã. A postura que eu assumo em relação ao mundo, eu não quero mudá-la. Digo exatamento o mesmo para todas as pessoas quando elas me dão sermão quando pinto o cabelo de verde, quando saio de mãos dadas com o meu namorado, quando atravesso a cidade com Heloísa, quando saio para andar de bike às duas da manhã: eu estou disposto a assumir o risco para poder me sentir mais livre. E, também por enquanto, sou inexorável quanto a esta ideologia. Foi o que restou de mim depois de ler Raoul Vaneigem.
E o risco tornou-se efetivo quando, naquela subida, um sujeito, na direção oposta, ou seja, na descida, parou a moto, desceu e me encarou com uma cara odiosa. Entendi absolutamente tudo na hora. Fui em sua direção e pretendi acelerar Heloísa, mas na pré-dispersão em que me encontrava, e também pelo fato de eu estar em uma subida, o meu plano engasgou, de forma que o meu grito de "filho da puta" logo cessou quando o novo amigo me derrubou da bicicleta, com uma força que só a abstinência pode produzir.
Eu bem poderia ter dado meia volta. Mas o único pensamento que o meu reflexo considerou foi o de possivelmente destruir meu oponente, o que não aconteceu.
[A bem da verdade pode-se pensar no oposto.]
Era como se o meu inconsciente ordenasse
CORRA! SEJA ASSALTADO!!
Na queda quebrei um dente.
Irreversivelmente.
Heloísa também zuou a clavícula, pobrezinha, não tinha nada a ver com isso.
Sobre mim, na calçada da vida, me asfixiando com uma chave de braço, ordenou-me que sacasse o celular. Obviamente eu não o fiz (i) porque estava imobilizado e também porque (ii) estava asfixiado. Felizmente (sim, porque tudo aconteceu felizmente) ele pegou o celular, que estava com o visor quebrado a quinze minutos (o que é uma pena, porque o dispêndio de sua empreitada acabara sendo infrutífero) e se foi em seu alazão em busca da cocaína sonhada.
Um babaca! Achou que ia conseguir assaltar alguém às duas horas da manhã de um domingo. Conseguiu só porque tem muita sorte (ou felizmente não, afinal furtou um aparelho que não valia naquele instante um terço do que quando fora me dado).
Recompus-me na velocidade que consegui.
Levantei-me mais ou menos.
Lesado.
Onde está o meu dente?
A liberdade levou.

Levantei Heloísa e rumei em direção a um pouco mais de satisfação pessoal.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Do cabelo verde

O preço que eu pago por pintar o cabelo de verde é, minimamente, a paranoia. Ousaria dizer que o pacote inclui um aumento absurdo da falta de respeito dos outros em relação a mim: meus direitos de cidadão moderno são suspensos e, conforme a animosidade dos meus concidadãos, o poder de análise destes se torna audível, seja o diagnóstico positivo ou não.
A crítica mais ferrenha a respeito dessa atitude diz respeito àquilo que no senso comum se dá o nome de chamar atenção. Uma explicação ingênua para essa repulsa seria dizer que os demais têm inveja da minha coragem de efetivar aquilo que na verdade seria um desejo latente. Não posso crer que seja assim fácil de explicar.
A crítica se volta a uma atitude que chama atenção. Por ser diferente, talvez. Não sei também se a explicação está ao meu alcance, diria que não. O fato é que a cor excêntrica instiga.
O verde em especial -e aqui eu me dou o direito de fazer tal comentário com argumento de autoridade.
A lógica é simples: alguém pinta o cabelo de verde para chamar atenção, afinal, é inconcebível que alguém o faça pensando no efeito estético que isso pode produzir. Logo, os indivíduos se esforçam para catalogar a anomalia conforme determinado motivo ou ideologia nos quais ela se encaixa taxonomicamente.
É fácil: eu sou palmeirense! A outra comum é o Hulk. Ambas explicações são automáticas e obviamente superficiais. Um ou dois me perguntaram se se tratava de vegetarianismo ou veganismo. Um perguntou se eu era punk. Alguns poucos fizeram gestos de aprovação, alguns outros grunhiram de reprovação.
Mas é óbvio, para quem me conhece, que a última coisa na qual eu estou pensando é na Mancha Verde, imitar uma personagem ou em parecer um straigh edge consciente. Trata-se do efeito estético que a cor verde, minha predileta, apresenta enquanto cor do meu cabelo. Acho realmente bonito.
Outra observação diz respeito ao pensamento das pessoas acerca dos instantes em que eu estou de cabelo colorido e um parceiro. A associação do afeminado com aquele homossexual que chama atenção é o lugar comum do qual se depreende a máxima não basta ser gay, tem que chamar a atenção. Pintar o cabelo de verde então é a extensão de um projeto cuja essência se encontra na homossexualidade.
Contudo, como enunciado no início, além da situação humilhante de objeto de estudo no qual me transponho ao pintar o cabelo, o outro preço que eu pago é a paranoia. É sair de casa e, a cada pessoa que passa, pensar no que ela está achando, mesmo involuntariamente (salvo certos momentos em que eu realmente esqueço disso ou estou com amigos, algo assim), ou pensar no impacto que eu estou causando (e essa é a parte divertida; fico entusiasmado de pensar no risco que eu assumo para me sentir mais livre, pois às vezes, eu realmente acho, perturbo um ambiente apenas com a minha singela e colorida presença). É medir cada um dos meus passos, cada uma das minhas ações, cronometrar gestos, planejar a entonação da voz...
Tudo isso apenas para que eu possa provar para mim mesmo e para o resto do mundo que uma pessoa de cabelo verde pode apresentar uma conduta não necessariamente agressiva diante dos demais, excetuando, claro, a própria agressividade e, portanto, também o sentido político, intrínsecos ao efeito do cabelo.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Notas

O homem que eu era voltou.

Eu disse ao garçom que quero que ele morra.
Em sua garçonnière ri com as notas de dinheiro.
Me trocou por uma de cem! Por uma! Só uma!

Mais um gim tônica.



Relato do Rolê Miado

Convidado feito um estranho senti certo receio. Mas os vários de mim convenceram a não duvidar, e lá fui, livro na cueca, cueca na calça, previnido de tédio-dos-outros-que-também-me-quer. Mas diacho que o cobrador do bús pra quem pedi informação não deu palavra durante a viagem, e dei por conta do infortúnio apenas no fim do passeio. Quis ligar, avisar que eu 'tava miado, mas não encontrei dois celulares no bolso. Embriagado de medo naquele terminal que eu não conhecia -que, eu temia, terminasse comigo antes que eu terminasse co'aquilo-, 'inda criei coragem e colei no orelhão. Avisar-lhes-ia a respeito das minhas condições em relação ao rolê, mas aqui o futuro do pretérito indica pro senhor que o efeito foi abortado: certa figura me pausou e puxou conversa. Disse-lhe que 'tava meio zuado pra discursar, mas o piá não me deixou em paz com história de família, de Jesus, de dinheiro, e eu gritei pro pivete que saísse do meu pé. Pois o trote foi duplo, o pai do pestinha me colou no ouvido antes mesmo que eu tirasse o gancho do fone. Veio sim, e veio com história de respeito, educação e o escambau, então eu simplesmente gritei que aquele cachorro fosse pro inferno. Pra quê?, o tio enlouqueceu, e também nunca vi pessoa mudar de cor de emputecida. Pois eu garanto, o mano lá do terminal ficou azul de raiva. Literalmente. Eu disse "Calma, campeão, eu só não dou o dinheiro porque 'cabaram de me roubar", mas o azulão parecia não estar mais interessado em nada senão me destruir. E, puta que pariu, eu não tinha grana nenhuma. Então um tio de bombeta e óculos mui bregas, feito o Roberto Carlos (com barriga feito gigante cisto), de longe me disse que não temesse, se tratava de televisiva anedota. Cristo! Bradei que pro inferno fossem com aquela maldita pilhéria, que eu não estava em condições et cætera. Uma semana depois apareci na televisão. Não assinei nada, não precisei, eles forjaram uma rubrica. Ignorei a ideia de processá-los. Comecei a comer uma mina que me conheceu por meio do programa de pegadinhas. Tanto melhor.